quarta-feira, 8 de junho de 2016

REB, julho de 2012: Planejamento pastoral: transformar sonhos em realidade

PLANEJAMENTO PASTORAL: TRANSFORMAR SONHOS EM REALIDADE
·         Pe. Nicolau João Bakker, svd

I O PLANEJAMENTO NA IGREJA
1.1 Um início bem animado
            Os presbíteros da década de 1960 ainda devem se lembrar do “Plano de Emergência” (1962-1965), o primeiro plano pastoral da Igreja Católica do Brasil, lançado em pleno rebuliço do Conc. Vat. II. Animou especialmente a nós, padres novos. Era preciso transformar a Paróquia e formar autênticas “comunidades de fé, culto e caridade”. Depois do Concílio, com o fim do que era considerado emergente, veio o que era considerado definitivo: o “Plano Pastoral de Conjunto” (1966-1970). A Igreja toda se colocou um Objetivo Geral, implementado por seis Objetivos Específicos, as famosas “linhas de ação”, cada uma com sua justificativa, além de “atividades-meio” e “atividades-fim”.  O mundo todo vivia a “era do planejamento” e a CNBB respondeu formando sua própria “tecnocracia pastoral”. Fiel ao Concílio se ressalta a Igreja Particular (Diocese) e a necessidade de um Plano Diocesano para transformar as Paróquias, tanto internamente (fé / culto) quanto externamente (caridade).
1.2 A Igreja cai na real
            A X Assembléia Geral da CNBB (1969) mantém as mesmas “diretrizes” do PPC para o próximo quadriênio e decide elaborar novas diretrizes “na medida das necessidades”. Já surge uma preocupação com a “subsidiariedade”: os “de cima” não devem tolher a autonomia dos “de baixo”. A Assembléia decide dar mais atenção aos programas da própria CNBB, mediante Planos Bienais, e cria a “Comissão Episcopal Pastoral”. Os Planos Bienais não seriam novos planos, mas “simples instrumentos de operação dos organismos responsáveis pela sua execução”. Surge assim o 1o Plano Bienal (1971-1972), seguido logo depois pelo 2o (1973-1974). Toma-se consciência também do imperativo da “operacionalidade”: sair da teoria para a prática, unindo objetivos teóricos e projetos concretos. O 2o Plano Bienal acrescenta três “objetivos operacionais globais” para este fim. Também a XIV Assembléia Geral da CNBB (1974) mantém os objetivos e as linhas de ação do PPC por mais 4 anos. Os objetivos operacionais globais se transformam em “prioridades” e as atividades-meio e atividades-fim se transformam em simples “atividades propostas”. A ideia de um plano nacional é abandonada para dar lugar a “diretrizes”. Nas Diretrizes Gerais de 1975/78 é ressaltado o caráter próprio do planejamento pastoral. A Igreja não se guia por uma “tecnocracia pastoral” impositiva, pois a eclesialidade requer participação e a abertura de todos/as ao Espírito.
A XVII Assembléia Geral da CNBB (1979) defende uma distinção mais clara entre os Planos Bienais dos organismos nacionais, que seguem uma “sistemática” mais técnica, e as Diretrizes Gerais (1979-1982) que oferecem uma fundamentação e orientação mais genéricas, levando-se, desta forma, às últimas conseqüências o princípio da subsidiariedade. Os Documentos de Medellin (1968), e Puebla (1979), como também a realidade pastoral das CEB´s, exercem forte influência. Em muitas dioceses houve um verdadeiro “boom de planejamento”. Fica cada vez mais clara, no entanto, a percepção da inutilidade de planejar “de cima para baixo”. O 5o Plano Bienal (1979-1980) aborda o novo Objetivo Geral e, em lugar das atividades propostas, surgem “diretrizes” para cada linha, adaptadas a Puebla (1979).
As Diretrizes Gerais 1983/86, como sempre fruto de uma Assembléia Geral da CNBB, mas elaboradas por uma Comissão Permanente, dão grande destaque a um novo Objetivo Geral. As seis linhas são transformadas em “dimensões” para ressaltar sua mútua interdependência e as prioridades se tornam meros “destaques”. O 7o Plano Bienal (1983-1984), seguindo a tradição, continua oferecendo “pistas” para ligar as diretrizes gerais ao planejamento local. Traz 11 “situações pastorais” consideradas mais urgentes. Dá maior importância às “atividades permanentes” para evitar uma exclusiva ênfase ao prioritário. Depois da Encíclica Laborem Exercens de J. Paulo II (1981), o mundo do trabalho se torna uma “chave” para as questões sociais.
1.3 A rotina retoma seu lugar
No 8o Plano Bienal (1985-1986), como sempre muito ligado às Diretrizes Gerais, há forte insistência com o “processo participativo” na confecção dos planos. Algo não anda bem. Há seis “destaques” e surgem três “programas conjuntos”, além de treze programas específicos, de acordo com as situações pastorais. Em 1985, em comemoração aos 20 anos do Conc. Vat. II, é realizado o II Sínodo Extraordinário dos Bispos. Neste Sínodo é questionado o “estatuto teológico” das Conferências Episcopais, como também o “princípio” da subsidiariedade. O documento final pede “um estudo que considere se o princípio da subsidiariedade, vigente na sociedade humana, se pode aplicar na Igreja, e em que grau e sentido se possa ou deva fazer tal aplicação”. Com isto colocou-se em cheque a própria legitimidade do planejamento continental, e até do diocesano. De fato, é a partir desta época que surge no país um forte “desânimo” – para dizer o mínimo – em termos de planejamento. As Diretrizes Gerais de 1987/90 já não empolgam muito. O Documento supera um certo dualismo teológico quando apresenta a sociedade justa e fraterna como “sinal” do Reino. Ressalta a importância das transformações políticas, mas dentro de uma “evangélica” opção pelos pobres. O 9o Plano Bienal (1987-1988) detecta na nova conjuntura eclesial uma “tendência espiritualista que deixa na sombra a realidade social” e o perigo de “separar perigosamente o processo de libertação e evangelização”. Tanto o 9o quanto o 10o Plano Bienal (1989-1990), em geral, seguem os planos anteriores fazendo uma abordagem sistemática dos diversos programas conjuntos e específicos. Em especial os específicos abrangem a quase totalidade dos projetos das diferentes e diversificadas pastorais dos organismos da CNBB.
1.4 A excelência das Diretrizes e dos Planos, isto é, da “teoria”
            Os bispos brasileiros, com uma fidelidade impressionante, continuam publicando, de quatro em quatro anos, suas Diretrizes Gerais e, de dois em dois anos, os Planos Bienais. Para qualquer Diocese, Paróquia ou Comunidade interessada uma orientação perfeita. A partir das Diretrizes 1991/94 entra o tema da “nova evangelização”, o grande apelo da Encíclica Redemptoris Missio (1990) de J. Paulo II, e também o novo tema da “inculturação”, fruto da Conferência Episcopal de Santo Domingos (1992). A “fé inculturada” é o grande “horizonte” para a ação evangelizadora. As Diretrizes 95/98 mudam a expressão “Diretrizes Gerais da Ação Pastoral” para “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora” (DGAE) para, assim, melhor enfatizar a missionariedade da Igreja e o público-alvo: os católicos não-praticantes da cultura urbana e moderna. Menos de 3% dos bispos pede uma reformulação das Diretrizes, mas insiste-se numa adequação à Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente (1994) do papa J. Paulo II. O grande horizonte é o terceiro milênio cristão. O Cap. IV traz, porém, uma reflexão teológica inovadora. As seis “linhas” tradicionais são, por assim dizer, “compactadas” em quatro “exigências intrínsecas” da ação evangelizadora: serviço (para a transformação da sociedade), diálogo, anúncio e testemunho de comunhão.
            Também as DGAE 1999/02 seguem a grande proposta da “nova evangelização”, agora já no clima do “grande jubileu” e da Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in America (1999). As quatro exigências intrínsecas são aprofundadas e aos “sujeitos” da ação evangelizadora se pede uma “espiritualidade missionária” renovada. Como sempre é feita também uma análise aprofundada da realidade sócio-cultural e política, tendo em vista a “sociedade justa e solidária, a caminho do Reino definitivo”. As DGAE 2003/06, já sob inspiração da Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2000), inovam, colocando em destaque os três eixos tradicionais da vida eclesial: os Ministérios da Palavra, da Liturgia e da Caridade, o assim chamado “tríplice múnus”. Igualmente inovadora é a proposta dos “três âmbitos”. As quatro exigências intrínsecas são adaptadas aos três destinatários (âmbitos) da evangelização: pessoa, comunidade e sociedade. Cientes do desânimo nas Comunidades em geral, os bispos insistem numa “recepção criativa” das Diretrizes. Também as DGAE 2008-11, inteiramente baseadas no documento de Aparecida (2007), usam como chave de leitura principal o tríplice múnus e, nas pistas de ação, os três âmbitos.
            Em especial os Planos Bienais dos bispos demonstram a “técnica de planejamento” que as bases da Igreja têm dificuldade em absorver. Apresentam os “programas globais” dos diversos organismos da CNBB e os “programas específicos” de cada setor ou área pastoral. Tudo dentro do mais perfeito figurino: diretrizes, objetivos e justificativas, mais os diversos projetos com todos os seus detalhes. As grandes decisões são sempre tomadas por ocasião das Assembléias Gerais anuais da CNBB. A 37ª (1999) aprova novos Estatutos e um novo Regimento. A 41ª (2003) cria dez “Comissões Pastorais Episcopais” e um “Conselho Episcopal Pastoral” (CONSEP), sob coordenação geral do Secretariado Nacional. Desta forma, diz o 17o PB (2004/05), “a Presidência e o CONSEP mantêm vigilância constante”. Preocupação sem dúvida fruto da nova conjuntura episcopal do país. No 20o PB (2009/11) são apresentados, em total, 197 projetos das, agora, onze Comissões Episcopais Pastorais, 15 projetos ligados ao Secretariado Geral, 5 projetos ligados à Campanha da Fraternidade e à Campanha para a Evangelização, mais 5 projetos relacionados às assessorias.
1.5 A dificuldade dos Planos na execução, isto é, na “prática”
            Quem, nos últimos anos, confrontar a bela teoria das Diretrizes Gerais com a prática generalizada da Igreja “nas bases” (Comunidades, Paróquias e Dioceses) não pode deixar de constatar um desencontro que chega a ser gritante. A dificuldade não está na teoria, mas na prática. Não é possível desenvolver uma ação planejada sem um mínimo de “técnica de planejamento”. A formação dos padres, e dos agentes pastorais em geral, não levou isto na devida consideração. Durante séculos e mais séculos a Igreja se valeu quase que exclusivamente de sua formação e tradição doutrinárias. Ainda hoje, na maioria dos casos, cabe ao padre a tarefa de orientar, explicar, animar. O “fazer acontecer” é com os leigos e leigas que estão acostumados a arregaçar as mangas e botar a mão na massa. Porém, onde não houver sonhos, planos, vontade firme para mudar as coisas, a rotina e o desânimo se instalam.
1.6 Um novo recomeçar?
            A 49ª Assembléia Geral da CNBB (2011), na perspectiva das “bodas de ouro” do Conc. Vat. II, e atendendo ao apelo da “Missão Continental” de Aparecida (2007), decide elaborar novas Diretrizes para o período 2011 a 2015. No 1o Cap. recoloca, com convicção, J. Cristo como ponto de partida (fato, metodologicamente, bastante criticado)), gerando duas conseqüências importantes: alteridade e gratuidade. No 2o Cap. trata das “marcas do nosso tempo”. Entre muitos outros desafios é preciso “repensar o Estado” e, contra diversos tipos de “religiões ilusórias”, voltar a J. Cristo. No 3o Cap., muito eclesiocêntrico (outro ponto de fricção), indica as cinco maiores “urgências” do nosso tempo: 1) Igreja em estado permanente de missão; (preferência: forte consciência missionária e novas estruturas paroquiais) 2) Igreja: casa de iniciação à vida cristã; (preferência: o “estilo catecumenal”) 3) Igreja: lugar de animação bíblica de vida e de pastoral; (preferência: a “leitura orante”) 4) Igreja: comunidade de comunidades; (preferência: setorização da paróquia) 5) Igreja a serviço da vida plena para todos; (preferência: uma “Igreja Samaritana”).  Estas urgências somente poderão ser atendidas mediante a busca de “novos caminhos” e uma “conversão pastoral”. No 4o Cap. são apresentadas as “perspectivas de ação” para cada urgência. Há algumas insistências. Urgência 1: o “erro” de Comunidades que se fecham sobre si mesmas, sem inserção na sociedade. Urgência 2: incentivo à “catequese permanente”. Urgência 3: incentivo aos círculos bíblicos com a “leitura orante”. Urgência 4: saber articular as forças, e a forma privilegiada das CEB´s. Urgência 5: a família como “eixo transversal”, e uma pastoral social e ambiental “estruturada, orgânica e integral”.
No Cap. 5 vem o que há muito tempo se fazia necessário: os “passos metodológicos” para as Comunidades e Pastorais saírem da inoperância, da rotina e do desânimo. Nos últimos anos, os planejamentos paroquiais ficaram reduzidos à confecção de uma “agenda paroquial”. Nada mais ilusório do que isso.   Planejar não é ordenar eventos, mas transformar sonhos em realidade. As novas Diretrizes sugerem sete passos: 1) Ver onde estamos: avaliar a caminhada de acordo com os três âmbitos, na perspectiva social e religiosa (o “tríplice múnus”); 2) Ver onde deveríamos estar: também cf. os três âmbitos e o tríplice múnus; 3) Ver as urgências pastorais locais, na perspectiva das cinco urgências acima mencionadas; 4) Ver onde queremos chegar: nossos objetivos; 5) Ver “como” vamos agir: cf. as seis “dimensões” e as quatro “exigências” intrínsecas; 6) Ver o que, concretamente, queremos fazer: nossas metas concretas (os “projetos”: o que, por que, como, quando, responsáveis, recursos, destinatários, data e local, tudo de acordo com as necessidades); 7) Rever a “estrutura organizacional”: verificar se os serviços (equipes de animação, coordenação e administração, etc.) ainda funcionam a contento. O documento ainda lembra que as urgências devem ser assumidas em conjunto, pois “optar por algumas e postergar outras significa afetar o conjunto”. Lembra também que o “tríplice múnus” é “a vocação, o carisma e a missão de cada batizado”.
Será que as DGAE 2011/15 significam um novo recomeçar para um efetivo planejamento pastoral? Pode ser que sim, mas também pode muito bem ser que não. Não depende apenas da boa vontade dos bispos e dos padres. Olhando para trás podemos perceber uma fase muito animada. O Vat. II, Medellin e o clima geral das décadas 1960/70 trouxeram a animação de “algo novo”. Uma nova mística envolvente. Um sonho que se transformava em realidade, tendo como seu instrumento mais eficaz o planejamento pastoral. Depois, a rotina voltou a operar, e até um certo desânimo. Como vimos, o sonho se desfez. Às últimas Diretrizes falta um maior rigor científico na análise da realidade. Faz-se, basicamente, uma leitura “culturalista”, marginalizando o papel avassalador e central do modelo econômico. Esta abordagem reducionista, sob ponto de vista teológico-pastoral, não é inconsequente. As DGAE 2011-2015 manifestam uma ênfase pastoral perigosamente eclesiocêntrica, marginalizando a proposta cristológica do Reino de Deus.  Com isto volta à pastoral de mera “conservação ou manutenção” (DGAE 26; 34) que pretende superar. Existe algum novo sonho no nosso horizonte? Pessoalmente acreditamos que um novo sonho somente poderá surgir com uma “reforma institucional” da nossa Igreja, o “arremate” que faltou ao Vat. II. A “conversão pastoral” que o Documento de Aparecida pede não acontecerá sem uma “conversão institucional”.
Ainda assim, as novas Diretrizes oferecem um instrumento preciosíssimo que estava faltando: os “passos metodológicos”. As Diretrizes e Planos da CNBB sempre foram excelentes. Acompanharam, inclusive, o que existe de melhor em termos de técnica de planejamento nas atuais ciências sociais. O problema é: como descer de uma boa teoria para uma boa prática? Nos níveis mais altos da Igreja nunca houve muita dificuldade. Fizemos questão de trazer o exemplo dos Planos Bienais exatamente para melhor acompanhar a evolução “técnica” do planejamento pastoral. Porém, a nível das Paróquias e das Comunidades (e mesmo das dioceses), sejamos mais simples e mais humildes. Onde houver “vida”, há evolução, mas, mesmo entre seres humanos, mudanças reais levam centenas, milhares ou milhões de anos. Nossas comunidades e nossas pastorais, em geral, necessitam de uma ferramenta muito simples para que possa ser usada por elas mesmas.
É preciso estabelecer uma distinção clara entre “animadores” e “executores”. O animador, normalmente, não executa o plano. Ele apenas incentiva e orienta. Quanto melhor seu domínio sobre a teoria (as “diretrizes” e a “técnica”), melhor. Tanto o Documento de Aparecida quanto as novas Diretrizes falam da necessidade de “setorizar” a Paróquia: dar uma nova vida – uma nova “missão” – às comunidades, aos grupos e às pastorais. É ali que estão os “executores”. A este nível, na “base”, as coisas só vão andar quando há duas presenças: o Espírito Santo e uma ferramenta simples. Os passos metodológicos das novas Diretrizes vêm muito ao encontro desta necessidade. Voltaremos a isto mais adiante. Antes ainda vale a pena perceber que também na vida pública e civil o aprendizado do “processo de planejamento” não foi nada fácil. E temos muito a aprender com o mesmo.
II O PLANEJAMENTO NA VIDA EMPRESARIAL, CIVIL, E PÚBLICA
2.1 No mundo empresarial
            Em especial na primeira metade do século passado, o mundo capitalista percebeu que, com um processo de produção bem planejado, a concorrência perde a dianteira e os lucros tendem a ser mais garantidos. Aos poucos, as ciências sociais embutiram o fator “planejamento” nos seus currículos. Diante das desgraças do planejamento privado do capitalismo, Marx viu como única opção viável o planejamento centralizado nas mãos do poder público. Os “planos qüinqüenais” de Stalin (†1953) ficaram famosos. No Brasil, Jucelino Kubitschek (†1976) também lançou seu “plano (qüinqüenal) de metas”.
As faculdades brasileiras, nas décadas de 1960/70, ensinaram um método de planejamento que ficou famoso por ser aplicado nos grandes projetos intercontinentais do Pentágono e nas empresas multinacionais: o “PERT” (Program Evaluation and Review Technique). Apenas a título de ilustração, talvez seja interessante retratá-lo. Façamos de conta que somos a Diretoria de uma grande indústria automobilística e queremos lançar no mercado o nosso “fusca”. Evidentemente é preciso chegar antes da concorrência. O lançamento tem hora marcada e um rol grande de atividades interconectadas deve ser deslanchado antes disto. Façamos então uma descrição detalhada de cada atividade de produção do fusca e vejamos quem melhor pode realizá-las, da forma mais eficiente possível, com os menores custos e o menor prazo. O plano pode então ser “desenhado” da seguinte forma:
I
N
Í
C
I
O

No desenho, os círculos representam datas exatas e as linhas as diversas atividades, todas interdependentes, umas antecipando-se às outras de acordo com o planejamento do processo. Exatamente na data final nosso fusca será apresentado na televisão com a famosa cena do pano que sobe revelando o novo milagre da produção industrial. Palmas para a Diretoria (já que os demais “fatores de produção” não interessam).
            É evidente que, nas nossas Comunidades e Pastorais, não podemos planejar desta forma. Ainda assim podemos aprender algumas lições: 1) No mundo dos “bens materiais”, sonhos se tornam realidade mediante planos bem feitos. Quem não planeja continua andando em seu velho carrinho até este cair em pedaços; 2) Os “animadores” do plano conhecem muito bem o “projeto” e sabem exatamente aonde os “executores” devem chegar; 3) Os “executores” têm suas atividades – “missões” – próprias, mas apenas “em conjunto” chegam ao resultado desejado; 4) Existe uma “expectativa” geral que empolga animadores e executores: celebrar a festa da conquista, a obtenção do produto final, a “hora da foto” onde ninguém fica de fora; 5) A empresa, com o resultado alcançado, não é mais a mesma e adquire um novo ”status” e uma nova credibilidade. Não dá para perceber que a Igreja, sob muitos pontos de vista, também é uma “empresa”, e que vale a pena “vender tudo para comprar aquele campo” (Mt 13,44)?
            No mundo empresarial as coisas andaram evoluindo rapidamente. O velho PERT foi substituído por outros instrumentos muito mais sofisticados. As empresas mais bem intencionadas – as que adotaram os critérios de “qualidade total”, e, depois, de “sustentabilidade social e ambiental” – costumam usar alguma forma de “planejamento estratégico” onde todos os ângulos da questão são muito bem analisados: problemas, viabilidades, adversários, parceiros, etc. Cada empresa define, com muito cuidado, a sua “Missão”. Geralmente é este mesmo o nome usado para definir o Objetivo Geral da empresa. É muito engraçado perceber que o fator “lucro” nunca faz parte da tal “Missão”. É substituído por algum outro elemento que contenha dentro de si a idéia de “salvação” (das pessoas e/ou do mundo). Para um observador muito atento é possível perceber que também no mundo dito “não-religioso” as “sementes” do Reino estão presentes. O sopro do Espírito age em meio a todas as ambigüidades deste mundo.
2.2 Na Sociedade Civil
            Contudo, é muito mais na sociedade civil não-empresarial ou não-capitalista - ali onde se sonha com a alternativa do “outro mundo possível” - que se desenvolveu um outro tipo de planejamento estratégico, o assim denominado “planejamento participativo”. Grande influência, na América Latina, teve o Ministro de Planejamento do Presidente chileno Salvador Allende, Carlos Matus. Guiado pelo “princípio socialista”, este desenvolveu o “Planejamento Estratégico Situacional” (PES). Também no Brasil este método foi adotado por muitas ONG´s, Movimentos Sociais e Sindicatos, comprometidos com uma transformação mais profunda da sociedade. Na década de 1980, estas forças sociais, em conjunto, criaram, em S. Paulo, o “Instituto Cajamar” onde estes cursos de planejamento foram oferecidos regularmente. Um dos seus esteios era a “árvore explicativa” dos problemas. Descobrir o “nó crítico” do conjunto de problemas e, a partir daí, construir as perspectivas ou “pistas de ação”, com “projetos” bem elaborados e acompanhados.1 Durante muitos anos, como membro de uma ONG comprometida com os Direitos Humanos, pudemos constatar a importância de um bom planejamento, e porque é tão difícil, hoje, obter financiamento (interno ou externo) quando uma Entidade não possa “dar razão” de sua existência mediante planos bem conduzidos e “auditorados”.
2.3 No poder público
Para membros da Igreja é muito útil perceber que o poder público, hoje, por lei, também está submetido a um rigoroso processo de planejamento. Tendo sido vereador, por oito anos, de um pequeno município no interior do estado de São Paulo, pudemos constatar de perto que uma rigorosa legislação brasileira não permite às Prefeituras gastar um único centavo sem que este tenha sido registrado em algum código contábil que mostre exatamente os “modos” e os “porquês”. Existe um “plano diretor” que prevê o futuro da cidade, um “plano plurianual” que prevê todos os programas de ação nos quatro anos do novo mandatário (ou mandatária) municipal. E existe a “lei orçamentária anual” que prevê cada centavo a ser gasto em “atividades permanentes” ou em “projetos novos” de investimento. Ocorrem, infelizmente, muitos furos, deslealdades, ou tentativas de burla, mas, em princípio, cada cidadão ou cidadã pode traçar o itinerário de qualquer gasto público. Para cada gasto existe um projeto detalhado que, por sua vez, faz parte de um programa. Para cada gasto existem diretrizes, definição de objetivos, justificativas, prazos e responsabilidades. Nada (em princípio) escapa ao rigor da lei e do princípio da transparência.
Comparando este mundo da vida empresarial, civil e pública, com a vida da Igreja e das nossas dioceses ou paróquias, muitas vezes dá vontade de chorar. Chamamos a isso de “pastoral autista”. Comportamo-nos como crianças autistas que não conseguem sair de seu pequeno mundo pessoal e repetem sempre os mesmos gestos. Onde o sonho morre impera a rotina. No entanto, a Igreja é, na sua essência, um sonho. O sonho da humanidade, ou, como disse Jesus, o sonho do Reino de Deus. Para nós, cristãos/ãs, não há outra opção: ou sonhamos, planejando o futuro, ou continuaremos andando no nosso velho fusquinha, percorrendo sempre a mesma estrada ..... até alguma roda cair e ficarmos parados à beira do caminho. Especialmente a nível das paróquias e das pequenas comunidades ou pastorais, o que ainda assusta um bocado é a “técnica”. Será que existe um modo de planejar que seja realmente acessível a este nível? Não temos dúvida sobre isso e é o que as novas Diretrizes Gerais esperam alcançar com a apresentação dos “passos metodológicos”.
III OS “PASSOS METODOLÓGICOS” A NÍVEL POPULAR
3.1 O papel dos animadores
            Mais do que nos níveis superiores, é no nível popular que vemos a importância do que já foi chamado o “ministério da animação”. Falaremos, daqui para frente, de “comunidades”, a célula básica da vida da Igreja na ótica do Documento de Aparecida e das novas Diretrizes Gerais. O mesmo valerá, no entanto, para o “processo de planejamento” de qualquer grupo, movimento ou pastoral. Seres vivos, sejam plantas, animais ou seres humanos, não sobrevivem sem uma fonte permanente de energia. Numa Comunidade da Igreja, como dissemos acima, duas fontes de energia devem estar permanentemente presentes: o Espírito Santo (que nunca falha) e uma pessoa (ou equipe) que anima (e que pode falhar). É bom que a Comunidade eleja seu animador ou animadora. E cremos que é bom também que tenha um “mandato” mais longo do que dos demais coordenadores da Comunidade. A animação é o esteio da Comunidade. Não é estranho as dioceses terem tantos ministros ou ministras da comunhão e nenhum/a para o Ministério da animação?
            Cabe aos animadores “de cima” cuidarem dos animadores “de baixo”. Numa Paróquia, este é, normalmente, o papel dos padres, das religiosas ou de seminaristas, se houver. Em algum caso muito especial pode ser um leigo ou uma leiga. Nada o impede. Na Igreja de Jesus – como bem sabemos - não existem “graus hierárquicos”, escadinhas clericais para subir e descer, mas apenas “graus de serviço”. As capacidades e responsabilidades são diferentes, mas o Espírito Santo é o mesmo. A equipe de animação da Paróquia também recebe animação “de cima”. As Diretrizes Gerais dos nossos bispos cumprem perfeitamente este papel. Por sua vez os bispos se inspiram, como muito bem ressaltado nas DGAE 2011/15, nos documentos continentais e pontifícios. Não é questão de “hierarquia”, mas de “ajuda mútua”.
3.2 O papel dos executores
            Na “Assembléia de Planejamento” da Comunidade, que deve contar com a maior participação possível, reservando o tempo mínimo de uma manhã ou uma tarde, é importante iniciar com uma reflexão sobre o contexto atual da Igreja e da Sociedade.  As DGAE da CNBB dão todas as dicas para o conteúdo: a opção por J. Cristo; os documentos mais relevantes da época; o Objetivo Geral e as quatro “dimensões” da Igreja do Brasil; os maiores desafios e as maiores “urgências” do nosso tempo; as “pistas de ação” que cada urgência levanta (tendo como pano de fundo a realidade da comunidade); os “três âmbitos” da evangelização (pessoa, comunidade e sociedade) e o “tríplice múnus” (fé, culto e caridade); devem entrar também as grandes preocupações que marcam a Diocese, a Paróquia e (principalmente) a própria Comunidade. Podemos chamar este primeiro momento da Assembléia de “o momento teórico”. Cuidado, nada de grandiloqüência, discursos acadêmicos, ou esquemas complicados. Tudo muito simples e dinâmico. O resto é com o Espírito Santo (que nunca falha).
            Depois do almoço comunitário, ou o tradicional cafezinho, vem “o momento prático”. Simplificando ainda mais os passos metodológicos das DGAE 2011/15, sugerimos que a Comunidade responda a, ao máximo, cinco perguntas: 1) O que deu certo, ou não, no nosso plano anterior? Esta primeira pergunta, evidentemente, é só para o caso de ter havido algum plano. 2) Diante (desta avaliação e...) do exposto no momento teórico, quais os principais problemas ou deficiências que a Comunidade está enfrentando hoje? Os principais são sempre poucos. Havendo tempo pode-se até ver o “nó crítico”. 3) Diante dos principais problemas da Comunidade (eventualmente Paróquia), qual deve ser o nosso “Objetivo Geral” (o nosso grande “sonho”!) até a próxima Assembléia (normalmente anual, mas não necessariamente)? 4) Entre as diversas metas possíveis, quais as principais metas concretas que, todos juntos, queremos alcançar? Não tenham medo de metas extremamente simples se a Comunidade assim desejar! 5) O que, ou como, fazer para alcançar cada meta (definindo os detalhes indispensáveis)?
            Mais a turma não vai agüentar. Crie um clima de leveza, alegria comunitária e espiritualidade. As DGAE sugerem: “conversão pastoral”; coragem para “novos caminhos”; integração do compromisso “interno” (comunidade) com o “externo” (sociedade); confiança no Espírito. Caso muita gente participe da Assembléia pode haver, no momento oportuno, alguma divisão em grupos, mas com a mesma tarefa, a ser “unificada” depois pela animação. É importante que “a secretaria” faça uma descrição clara do Objetivo Geral, das Metas concretas, e também de “como” alcançá-las (os detalhes estritamente necessários). A animação da Comunidade tem aí seu “mandato” para cuidar com carinho. E que tal fazer um único cartaz com o essencial? Pode ficar à vista de todos/as na igreja o ano todo. Pode ser apresentado na Assembléia Paroquial ou Diocesana, etc. Cada grupo ou pastoral da Comunidade pode (na verdade deve!), a partir do cartaz, elaborar seu próprio “plano específico” numa reunião especial. É o que as Diretrizes chamam de “programas específicos”.

Paróquia: .........................................
Comunidade: ...................................
Nosso ‘Sonho”: ...............................
........................................................
Meta 1: ...........................................
Meta 2: ...........................................
Meta 3: ...........................................
 


           





Uma das maiores conquistas da história do planejamento participativo é a consciência de que não adiante planejar “de cima para baixo”. Planos impostos são deixados de lado com a maior facilidade. Na Igreja temos um motivo a mais: todos os batizados são guiados pelo mesmo Espírito e consagrados à mesma missão do Reino (o tríplice munus). Para haver um eficaz elo-de-ligação no processo de planejamento “de baixo para cima”, uma última pergunta deve ser feita na Assembléia da Comunidade: qual a “anima-ação” mais importante que esperamos da Paróquia? A animação paroquial deve levar muito a sério as solicitações que vêm das Comunidades. Constitui a essência do seu serviço. Da mesma forma, as Paróquias devem passar sua solicitação para a animação regional ou diocesana. Não faz nenhum sentido querer fazer um processo inverso. Será sempre “imposição” e não “serviço”. É melhor não planejar do que planejar de forma errada. Uma vez feito um plano cabe à animação e à coordenação dos grupos “acompanhar” sua execução, sem fazer do plano uma camisa-de-força, mas incentivando permanentemente.
            Encerremos. Nos últimos anos, as Diretrizes Gerais da Igreja do Brasil redescobriram a centralidade do “tríplice munus”. Lembrem do primeiro “Plano de Emergência” (1962/65) acima citado? Não dizia que era preciso fazer da Paróquia “comunidades de fé, culto e caridade”? Deslanchar uma “Missão Continental”, colocar a Igreja em “estado permanente de missão” é exatamente isto: levar todas as pessoas a uma vida de fé, culto e caridade. O planejamento da Comunidade já tem aí um perfeito esboço para seu plano de ação. Um modelo simples e viável, em linguagem popular. O tríplice munus é o tripé que sustenta a vida cristã. Fé na pessoa e na proposta de Jesus (o Reino); celebrar em comunidade, na liturgia, a vinda do Reino, a nossa Páscoa; e vivenciar tudo isso mediante uma fraternidade (sororidade) real, voltada para a sociedade. O papa Bento XVI, na sua recente Encíclica Caritas in Veritate, lembra que a caridade cristã não pode ser vivida de forma paternalista (Nos 57 e 58), pois deve estar voltada para uma nova sociedade, a conquista de “um novo céu e uma nova terra” (Apoc 21,1).
1) Quem quiser conhecer um exemplo prático desta análise pode consultar o artigo As CEB´s na “estação da seca”, REB, fasc. 225, março, 1997.
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>
*Missionário do Verbo Divino, svd, sacerdote, formado em filosofia, teologia e ciências sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Em São Paulo SP atuou como educador no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP/CL), coordenando o programa de formação de lideranças eclesiais e o de combate à violência urbana. Lecionou Teologia Pastoral no ITESP (Instituto de Teologia de São Paulo). De 2000 a 2008 foi auxiliar na pastoral e vereador, pelo PT, no município de Holambra SP. Representa a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita/SP). Atualmente atua na pastoral paroquial de Diadema SP. Além de cartilhas populares publicou artigos na REB e na Vida Pastoral.



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