PLANEJAMENTO PASTORAL: TRANSFORMAR
SONHOS EM REALIDADE
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Pe. Nicolau João Bakker, svd
I
O PLANEJAMENTO NA IGREJA
1.1
Um início bem animado
Os presbíteros da década de 1960 ainda devem se lembrar
do “Plano de Emergência” (1962-1965), o primeiro plano pastoral da Igreja
Católica do Brasil, lançado em pleno rebuliço do Conc. Vat. II. Animou
especialmente a nós, padres novos. Era preciso transformar a Paróquia e formar
autênticas “comunidades de fé, culto e caridade”. Depois do Concílio, com o fim
do que era considerado emergente, veio o que era considerado definitivo: o
“Plano Pastoral de Conjunto” (1966-1970). A Igreja toda se colocou um Objetivo
Geral, implementado por seis Objetivos Específicos, as famosas “linhas de
ação”, cada uma com sua justificativa, além de “atividades-meio” e
“atividades-fim”. O mundo todo vivia a
“era do planejamento” e a CNBB respondeu formando sua própria “tecnocracia
pastoral”. Fiel ao Concílio se ressalta a Igreja Particular (Diocese) e a
necessidade de um Plano Diocesano para transformar as Paróquias, tanto
internamente (fé / culto) quanto externamente (caridade).
1.2
A Igreja cai na real
A X Assembléia
Geral da CNBB (1969) mantém as mesmas “diretrizes” do PPC para o próximo
quadriênio e decide elaborar novas diretrizes “na medida das necessidades”. Já
surge uma preocupação com a “subsidiariedade”: os “de cima” não devem tolher a
autonomia dos “de baixo”. A Assembléia decide dar mais atenção aos programas da
própria CNBB, mediante Planos Bienais, e cria a “Comissão Episcopal Pastoral”.
Os Planos Bienais não seriam novos planos, mas “simples instrumentos de
operação dos organismos responsáveis pela sua execução”. Surge assim o 1o
Plano Bienal (1971-1972), seguido logo depois pelo 2o (1973-1974). Toma-se
consciência também do imperativo da “operacionalidade”: sair da teoria para a
prática, unindo objetivos teóricos e projetos concretos. O 2o Plano
Bienal acrescenta três “objetivos operacionais globais” para este fim. Também a
XIV Assembléia Geral da CNBB (1974) mantém os objetivos e as linhas de ação do
PPC por mais 4 anos. Os objetivos operacionais globais se transformam em
“prioridades” e as atividades-meio e atividades-fim se transformam em simples
“atividades propostas”. A ideia de um plano nacional é abandonada para dar
lugar a “diretrizes”. Nas Diretrizes Gerais de 1975/78 é ressaltado o caráter
próprio do planejamento pastoral. A Igreja não se guia por uma “tecnocracia
pastoral” impositiva, pois a eclesialidade requer participação e a abertura de
todos/as ao Espírito.
A
XVII Assembléia Geral da CNBB (1979) defende uma distinção mais clara entre os
Planos Bienais dos organismos nacionais, que seguem uma “sistemática” mais
técnica, e as Diretrizes Gerais (1979-1982) que oferecem uma fundamentação e
orientação mais genéricas, levando-se, desta forma, às últimas conseqüências o
princípio da subsidiariedade. Os Documentos de Medellin (1968), e Puebla
(1979), como também a realidade pastoral das CEB´s, exercem forte influência.
Em muitas dioceses houve um verdadeiro “boom de planejamento”. Fica cada vez
mais clara, no entanto, a percepção da inutilidade de planejar “de cima para
baixo”. O 5o Plano Bienal (1979-1980) aborda o novo Objetivo Geral
e, em lugar das atividades propostas, surgem “diretrizes” para cada linha,
adaptadas a Puebla (1979).
As
Diretrizes Gerais 1983/86, como sempre fruto de uma Assembléia Geral da CNBB, mas
elaboradas por uma Comissão Permanente, dão grande destaque a um novo Objetivo
Geral. As seis linhas são transformadas em “dimensões” para ressaltar sua mútua
interdependência e as prioridades se tornam meros “destaques”. O 7o Plano
Bienal (1983-1984), seguindo a tradição, continua oferecendo “pistas” para
ligar as diretrizes gerais ao planejamento local. Traz 11 “situações pastorais”
consideradas mais urgentes. Dá maior importância às “atividades permanentes”
para evitar uma exclusiva ênfase ao prioritário. Depois da Encíclica Laborem
Exercens de J. Paulo II (1981), o mundo do trabalho se torna uma “chave” para
as questões sociais.
1.3
A rotina retoma seu lugar
No
8o Plano Bienal (1985-1986), como sempre muito ligado às Diretrizes
Gerais, há forte insistência com o “processo participativo” na confecção dos
planos. Algo não anda bem. Há seis “destaques” e surgem três “programas
conjuntos”, além de treze programas específicos, de acordo com as situações
pastorais. Em 1985, em comemoração aos 20 anos do Conc. Vat. II, é realizado o
II Sínodo Extraordinário dos Bispos. Neste Sínodo é questionado o “estatuto
teológico” das Conferências Episcopais, como também o “princípio” da
subsidiariedade. O documento final pede “um estudo que considere se o princípio
da subsidiariedade, vigente na sociedade humana, se pode aplicar na Igreja, e
em que grau e sentido se possa ou deva fazer tal aplicação”. Com isto colocou-se
em cheque a própria legitimidade do planejamento continental, e até do
diocesano. De fato, é a partir desta época que surge no país um forte
“desânimo” – para dizer o mínimo – em termos de planejamento. As Diretrizes
Gerais de 1987/90 já não empolgam muito. O Documento supera um certo dualismo
teológico quando apresenta a sociedade justa e fraterna como “sinal” do Reino.
Ressalta a importância das transformações políticas, mas dentro de uma
“evangélica” opção pelos pobres. O 9o Plano Bienal (1987-1988) detecta
na nova conjuntura eclesial uma “tendência espiritualista que deixa na sombra a
realidade social” e o perigo de “separar perigosamente o processo de libertação
e evangelização”. Tanto o 9o quanto o 10o Plano Bienal (1989-1990),
em geral, seguem os planos anteriores fazendo uma abordagem sistemática dos
diversos programas conjuntos e específicos. Em especial os específicos abrangem
a quase totalidade dos projetos das diferentes e diversificadas pastorais dos
organismos da CNBB.
1.4
A excelência das Diretrizes e dos Planos, isto é, da “teoria”
Os bispos brasileiros, com uma fidelidade impressionante,
continuam publicando, de quatro em quatro anos, suas Diretrizes Gerais e, de
dois em dois anos, os Planos Bienais. Para qualquer Diocese, Paróquia ou Comunidade
interessada uma orientação perfeita. A partir das Diretrizes 1991/94 entra o
tema da “nova evangelização”, o grande apelo da Encíclica Redemptoris Missio (1990)
de J. Paulo II, e também o novo tema da “inculturação”, fruto da Conferência
Episcopal de Santo Domingos (1992). A “fé inculturada” é o grande “horizonte”
para a ação evangelizadora. As Diretrizes 95/98 mudam a expressão “Diretrizes
Gerais da Ação Pastoral” para “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora” (DGAE)
para, assim, melhor enfatizar a missionariedade da Igreja e o público-alvo: os
católicos não-praticantes da cultura urbana e moderna. Menos de 3% dos bispos
pede uma reformulação das Diretrizes, mas insiste-se numa adequação à Carta
Apostólica Tertio Millennio Adveniente (1994) do papa J. Paulo II. O grande
horizonte é o terceiro milênio cristão. O Cap. IV traz, porém, uma reflexão
teológica inovadora. As seis “linhas” tradicionais são, por assim dizer,
“compactadas” em quatro “exigências intrínsecas” da ação evangelizadora:
serviço (para a transformação da sociedade), diálogo, anúncio e testemunho de
comunhão.
Também as DGAE 1999/02 seguem a grande proposta da “nova
evangelização”, agora já no clima do “grande jubileu” e da Exortação Apostólica
pós-sinodal Ecclesia in America (1999). As quatro exigências intrínsecas são
aprofundadas e aos “sujeitos” da ação evangelizadora se pede uma
“espiritualidade missionária” renovada. Como sempre é feita também uma análise
aprofundada da realidade sócio-cultural e política, tendo em vista a “sociedade
justa e solidária, a caminho do Reino definitivo”. As DGAE 2003/06, já sob
inspiração da Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2000), inovam, colocando
em destaque os três eixos tradicionais da vida eclesial: os Ministérios da
Palavra, da Liturgia e da Caridade, o assim chamado “tríplice múnus”.
Igualmente inovadora é a proposta dos “três âmbitos”. As quatro exigências
intrínsecas são adaptadas aos três destinatários (âmbitos) da evangelização:
pessoa, comunidade e sociedade. Cientes do desânimo nas Comunidades em geral,
os bispos insistem numa “recepção criativa” das Diretrizes. Também as DGAE
2008-11, inteiramente baseadas no documento de Aparecida (2007), usam como
chave de leitura principal o tríplice múnus e, nas pistas de ação, os três
âmbitos.
Em especial os Planos Bienais dos bispos demonstram a
“técnica de planejamento” que as bases da Igreja têm dificuldade em absorver. Apresentam
os “programas globais” dos diversos organismos da CNBB e os “programas
específicos” de cada setor ou área pastoral. Tudo dentro do mais perfeito
figurino: diretrizes, objetivos e justificativas, mais os diversos projetos com
todos os seus detalhes. As grandes decisões são sempre tomadas por ocasião das
Assembléias Gerais anuais da CNBB. A 37ª (1999) aprova novos Estatutos e um
novo Regimento. A 41ª (2003) cria dez “Comissões Pastorais Episcopais” e um
“Conselho Episcopal Pastoral” (CONSEP), sob coordenação geral do Secretariado
Nacional. Desta forma, diz o 17o PB (2004/05), “a Presidência e o
CONSEP mantêm vigilância constante”. Preocupação sem dúvida fruto da nova
conjuntura episcopal do país. No 20o PB (2009/11) são apresentados,
em total, 197 projetos das, agora, onze Comissões Episcopais Pastorais, 15
projetos ligados ao Secretariado Geral, 5 projetos ligados à Campanha da
Fraternidade e à Campanha para a Evangelização, mais 5 projetos relacionados às
assessorias.
1.5
A dificuldade dos Planos na execução, isto é, na “prática”
Quem, nos
últimos anos, confrontar a bela teoria das Diretrizes Gerais com a prática
generalizada da Igreja “nas bases” (Comunidades, Paróquias e Dioceses) não pode
deixar de constatar um desencontro que chega a ser gritante. A dificuldade não
está na teoria, mas na prática. Não é possível desenvolver uma ação planejada
sem um mínimo de “técnica de planejamento”. A formação dos padres, e dos
agentes pastorais em geral, não levou isto na devida consideração. Durante
séculos e mais séculos a Igreja se valeu quase que exclusivamente de sua
formação e tradição doutrinárias. Ainda hoje, na maioria dos casos, cabe ao
padre a tarefa de orientar, explicar, animar. O “fazer acontecer” é com os
leigos e leigas que estão acostumados a arregaçar as mangas e botar a mão na
massa. Porém, onde não houver sonhos, planos, vontade firme para mudar as
coisas, a rotina e o desânimo se instalam.
1.6
Um novo recomeçar?
A 49ª Assembléia
Geral da CNBB (2011), na perspectiva das “bodas de ouro” do Conc. Vat. II, e
atendendo ao apelo da “Missão Continental” de Aparecida (2007), decide elaborar
novas Diretrizes para o período 2011 a 2015. No 1o Cap. recoloca,
com convicção, J. Cristo como ponto de partida (fato, metodologicamente,
bastante criticado)), gerando duas conseqüências importantes: alteridade e
gratuidade. No 2o Cap. trata das “marcas do nosso tempo”. Entre
muitos outros desafios é preciso “repensar o Estado” e, contra diversos tipos
de “religiões ilusórias”, voltar a J. Cristo. No 3o Cap., muito
eclesiocêntrico (outro ponto de fricção), indica as cinco maiores “urgências”
do nosso tempo: 1) Igreja em estado permanente de missão; (preferência: forte
consciência missionária e novas estruturas paroquiais) 2) Igreja: casa de
iniciação à vida cristã; (preferência: o “estilo catecumenal”) 3) Igreja: lugar
de animação bíblica de vida e de pastoral; (preferência: a “leitura orante”) 4)
Igreja: comunidade de comunidades; (preferência: setorização da paróquia) 5)
Igreja a serviço da vida plena para todos; (preferência: uma “Igreja
Samaritana”). Estas urgências somente
poderão ser atendidas mediante a busca de “novos caminhos” e uma “conversão
pastoral”. No 4o Cap. são apresentadas as “perspectivas de ação”
para cada urgência. Há algumas insistências. Urgência 1: o “erro” de
Comunidades que se fecham sobre si mesmas, sem inserção na sociedade. Urgência
2: incentivo à “catequese permanente”. Urgência 3: incentivo aos círculos
bíblicos com a “leitura orante”. Urgência 4: saber articular as forças, e a
forma privilegiada das CEB´s. Urgência 5: a família como “eixo transversal”, e
uma pastoral social e ambiental “estruturada, orgânica e integral”.
No
Cap. 5 vem o que há muito tempo se fazia necessário: os “passos metodológicos”
para as Comunidades e Pastorais saírem da inoperância, da rotina e do desânimo.
Nos últimos anos, os planejamentos paroquiais ficaram reduzidos à confecção de
uma “agenda paroquial”. Nada mais ilusório do que isso. Planejar não é ordenar eventos, mas
transformar sonhos em realidade. As novas Diretrizes sugerem sete passos: 1)
Ver onde estamos: avaliar a caminhada de acordo com os três âmbitos, na
perspectiva social e religiosa (o “tríplice múnus”); 2) Ver onde deveríamos
estar: também cf. os três âmbitos e o tríplice múnus; 3) Ver as urgências
pastorais locais, na perspectiva das cinco urgências acima mencionadas; 4) Ver onde
queremos chegar: nossos objetivos; 5) Ver “como” vamos agir: cf. as seis “dimensões”
e as quatro “exigências” intrínsecas; 6) Ver o que, concretamente, queremos
fazer: nossas metas concretas (os “projetos”: o que, por que, como, quando,
responsáveis, recursos, destinatários, data e local, tudo de acordo com as
necessidades); 7) Rever a “estrutura organizacional”: verificar se os serviços
(equipes de animação, coordenação e administração, etc.) ainda funcionam a
contento. O documento ainda lembra que as urgências devem ser assumidas em
conjunto, pois “optar por algumas e postergar outras significa afetar o
conjunto”. Lembra também que o “tríplice múnus” é “a vocação, o carisma e a
missão de cada batizado”.
Será
que as DGAE 2011/15 significam um novo recomeçar para um efetivo planejamento
pastoral? Pode ser que sim, mas também pode muito bem ser que não. Não depende
apenas da boa vontade dos bispos e dos padres. Olhando para trás podemos
perceber uma fase muito animada. O Vat. II, Medellin e o clima geral das
décadas 1960/70 trouxeram a animação de “algo novo”. Uma nova mística
envolvente. Um sonho que se transformava em realidade, tendo como seu
instrumento mais eficaz o planejamento pastoral. Depois, a rotina voltou a
operar, e até um certo desânimo. Como vimos, o sonho se desfez. Às últimas
Diretrizes falta um maior rigor científico na análise da realidade. Faz-se,
basicamente, uma leitura “culturalista”, marginalizando o papel avassalador e
central do modelo econômico. Esta abordagem reducionista, sob ponto de vista
teológico-pastoral, não é inconsequente. As DGAE 2011-2015 manifestam uma
ênfase pastoral perigosamente eclesiocêntrica, marginalizando a proposta
cristológica do Reino de Deus. Com isto
volta à pastoral de mera “conservação ou manutenção” (DGAE 26; 34) que pretende
superar. Existe algum novo sonho no nosso horizonte? Pessoalmente acreditamos
que um novo sonho somente poderá surgir com uma “reforma institucional” da
nossa Igreja, o “arremate” que faltou ao Vat. II. A “conversão pastoral” que o
Documento de Aparecida pede não acontecerá sem uma “conversão institucional”.
Ainda
assim, as novas Diretrizes oferecem um instrumento preciosíssimo que estava
faltando: os “passos metodológicos”. As Diretrizes e Planos da CNBB sempre
foram excelentes. Acompanharam, inclusive, o que existe de melhor em termos de
técnica de planejamento nas atuais ciências sociais. O problema é: como descer
de uma boa teoria para uma boa prática? Nos níveis mais altos da Igreja nunca
houve muita dificuldade. Fizemos questão de trazer o exemplo dos Planos Bienais
exatamente para melhor acompanhar a evolução “técnica” do planejamento
pastoral. Porém, a nível das Paróquias e das Comunidades (e mesmo das
dioceses), sejamos mais simples e mais humildes. Onde houver “vida”, há
evolução, mas, mesmo entre seres humanos, mudanças reais levam centenas,
milhares ou milhões de anos. Nossas comunidades e nossas pastorais, em geral, necessitam
de uma ferramenta muito simples para que possa ser usada por elas mesmas.
É
preciso estabelecer uma distinção clara entre “animadores” e “executores”. O
animador, normalmente, não executa o plano. Ele apenas incentiva e orienta.
Quanto melhor seu domínio sobre a teoria (as “diretrizes” e a “técnica”),
melhor. Tanto o Documento de Aparecida quanto as novas Diretrizes falam da
necessidade de “setorizar” a Paróquia: dar uma nova vida – uma nova “missão” –
às comunidades, aos grupos e às pastorais. É ali que estão os “executores”. A
este nível, na “base”, as coisas só vão andar quando há duas presenças: o
Espírito Santo e uma ferramenta simples. Os passos metodológicos das novas
Diretrizes vêm muito ao encontro desta necessidade. Voltaremos a isto mais
adiante. Antes ainda vale a pena perceber que também na vida pública e civil o
aprendizado do “processo de planejamento” não foi nada fácil. E temos muito a
aprender com o mesmo.
II
O PLANEJAMENTO NA VIDA EMPRESARIAL, CIVIL, E PÚBLICA
2.1
No mundo empresarial
Em especial na
primeira metade do século passado, o mundo capitalista percebeu que, com um
processo de produção bem planejado, a concorrência perde a dianteira e os
lucros tendem a ser mais garantidos. Aos poucos, as ciências sociais embutiram
o fator “planejamento” nos seus currículos. Diante das desgraças do
planejamento privado do capitalismo, Marx viu como única opção viável o
planejamento centralizado nas mãos do poder público. Os “planos qüinqüenais” de
Stalin (†1953) ficaram famosos. No Brasil, Jucelino Kubitschek (†1976) também
lançou seu “plano (qüinqüenal) de metas”.
As
faculdades brasileiras, nas décadas de 1960/70, ensinaram um método de
planejamento que ficou famoso por ser aplicado nos grandes projetos intercontinentais
do Pentágono e nas empresas multinacionais: o “PERT” (Program Evaluation and
Review Technique). Apenas a título de ilustração, talvez seja interessante
retratá-lo. Façamos de conta que somos a Diretoria de uma grande indústria
automobilística e queremos lançar no mercado o nosso “fusca”. Evidentemente é
preciso chegar antes da concorrência. O lançamento tem hora marcada e um rol grande
de atividades interconectadas deve ser deslanchado antes disto. Façamos então
uma descrição detalhada de cada atividade de produção do fusca e vejamos quem
melhor pode realizá-las, da forma mais eficiente possível, com os menores
custos e o menor prazo. O plano pode então ser “desenhado” da seguinte forma:
No
desenho, os círculos representam datas exatas e as linhas as diversas atividades,
todas interdependentes, umas antecipando-se às outras de acordo com o
planejamento do processo. Exatamente na data final nosso fusca será apresentado
na televisão com a famosa cena do pano que sobe revelando o novo milagre da
produção industrial. Palmas para a Diretoria (já que os demais “fatores de
produção” não interessam).
É evidente que, nas nossas Comunidades e Pastorais, não
podemos planejar desta forma. Ainda assim podemos aprender algumas lições: 1)
No mundo dos “bens materiais”, sonhos se tornam realidade mediante planos bem
feitos. Quem não planeja continua andando em seu velho carrinho até este cair
em pedaços; 2) Os “animadores” do plano conhecem muito bem o “projeto” e sabem
exatamente aonde os “executores” devem chegar; 3) Os “executores” têm suas
atividades – “missões” – próprias, mas apenas “em conjunto” chegam ao resultado
desejado; 4) Existe uma “expectativa” geral que empolga animadores e
executores: celebrar a festa da conquista, a obtenção do produto final, a “hora
da foto” onde ninguém fica de fora; 5) A empresa, com o resultado alcançado,
não é mais a mesma e adquire um novo ”status” e uma nova credibilidade. Não dá
para perceber que a Igreja, sob muitos pontos de vista, também é uma “empresa”,
e que vale a pena “vender tudo para comprar aquele campo” (Mt 13,44)?
No mundo empresarial as coisas andaram evoluindo
rapidamente. O velho PERT foi substituído por outros instrumentos muito mais
sofisticados. As empresas mais bem intencionadas – as que adotaram os critérios
de “qualidade total”, e, depois, de “sustentabilidade social e ambiental” –
costumam usar alguma forma de “planejamento estratégico” onde todos os ângulos
da questão são muito bem analisados: problemas, viabilidades, adversários,
parceiros, etc. Cada empresa define, com muito cuidado, a sua “Missão”.
Geralmente é este mesmo o nome usado para definir o Objetivo Geral da empresa.
É muito engraçado perceber que o fator “lucro” nunca faz parte da tal “Missão”.
É substituído por algum outro elemento que contenha dentro de si a idéia de
“salvação” (das pessoas e/ou do mundo). Para um observador muito atento é
possível perceber que também no mundo dito “não-religioso” as “sementes” do
Reino estão presentes. O sopro do Espírito age em meio a todas as ambigüidades
deste mundo.
2.2
Na Sociedade Civil
Contudo, é muito mais na sociedade civil não-empresarial
ou não-capitalista - ali onde se sonha com a alternativa do “outro mundo
possível” - que se desenvolveu um outro tipo de planejamento estratégico, o
assim denominado “planejamento participativo”. Grande influência, na América
Latina, teve o Ministro de Planejamento do Presidente chileno Salvador Allende,
Carlos Matus. Guiado pelo “princípio socialista”, este desenvolveu o
“Planejamento Estratégico Situacional” (PES). Também no Brasil este método foi
adotado por muitas ONG´s, Movimentos Sociais e Sindicatos, comprometidos com
uma transformação mais profunda da sociedade. Na década de 1980, estas forças
sociais, em conjunto, criaram, em S. Paulo, o “Instituto Cajamar” onde estes cursos
de planejamento foram oferecidos regularmente. Um dos seus esteios era a
“árvore explicativa” dos problemas. Descobrir o “nó crítico” do conjunto de
problemas e, a partir daí, construir as perspectivas ou “pistas de ação”, com
“projetos” bem elaborados e acompanhados.1 Durante muitos anos, como
membro de uma ONG comprometida com os Direitos Humanos, pudemos constatar a
importância de um bom planejamento, e porque é tão difícil, hoje, obter
financiamento (interno ou externo) quando uma Entidade não possa “dar razão” de
sua existência mediante planos bem conduzidos e “auditorados”.
2.3
No poder público
Para
membros da Igreja é muito útil perceber que o poder público, hoje, por lei, também
está submetido a um rigoroso processo de planejamento. Tendo sido vereador, por
oito anos, de um pequeno município no interior do estado de São Paulo, pudemos
constatar de perto que uma rigorosa legislação brasileira não permite às
Prefeituras gastar um único centavo sem que este tenha sido registrado em algum
código contábil que mostre exatamente os “modos” e os “porquês”. Existe um
“plano diretor” que prevê o futuro da cidade, um “plano plurianual” que prevê
todos os programas de ação nos quatro anos do novo mandatário (ou mandatária)
municipal. E existe a “lei orçamentária anual” que prevê cada centavo a ser
gasto em “atividades permanentes” ou em “projetos novos” de investimento.
Ocorrem, infelizmente, muitos furos, deslealdades, ou tentativas de burla, mas,
em princípio, cada cidadão ou cidadã pode traçar o itinerário de qualquer gasto
público. Para cada gasto existe um projeto detalhado que, por sua vez, faz
parte de um programa. Para cada gasto existem diretrizes, definição de
objetivos, justificativas, prazos e responsabilidades. Nada (em princípio) escapa
ao rigor da lei e do princípio da transparência.
Comparando
este mundo da vida empresarial, civil e pública, com a vida da Igreja e das
nossas dioceses ou paróquias, muitas vezes dá vontade de chorar. Chamamos a isso
de “pastoral autista”. Comportamo-nos como crianças autistas que não conseguem
sair de seu pequeno mundo pessoal e repetem sempre os mesmos gestos. Onde o
sonho morre impera a rotina. No entanto, a Igreja é, na sua essência, um sonho.
O sonho da humanidade, ou, como disse Jesus, o sonho do Reino de Deus. Para nós,
cristãos/ãs, não há outra opção: ou sonhamos, planejando o futuro, ou continuaremos
andando no nosso velho fusquinha, percorrendo sempre a mesma estrada ..... até alguma
roda cair e ficarmos parados à beira do caminho. Especialmente a nível das
paróquias e das pequenas comunidades ou pastorais, o que ainda assusta um
bocado é a “técnica”. Será que existe um modo de planejar que seja realmente acessível
a este nível? Não temos dúvida sobre isso e é o que as novas Diretrizes Gerais esperam
alcançar com a apresentação dos “passos metodológicos”.
III
OS “PASSOS METODOLÓGICOS” A NÍVEL POPULAR
3.1
O papel dos animadores
Mais do que nos níveis superiores, é no nível popular que
vemos a importância do que já foi chamado o “ministério da animação”.
Falaremos, daqui para frente, de “comunidades”, a célula básica da vida da
Igreja na ótica do Documento de Aparecida e das novas Diretrizes Gerais. O
mesmo valerá, no entanto, para o “processo de planejamento” de qualquer grupo,
movimento ou pastoral. Seres vivos, sejam plantas, animais ou seres humanos,
não sobrevivem sem uma fonte permanente de energia. Numa Comunidade da Igreja,
como dissemos acima, duas fontes de energia devem estar permanentemente
presentes: o Espírito Santo (que nunca falha) e uma pessoa (ou equipe) que
anima (e que pode falhar). É bom que a Comunidade eleja seu animador ou
animadora. E cremos que é bom também que tenha um “mandato” mais longo do que
dos demais coordenadores da Comunidade. A animação é o esteio da Comunidade.
Não é estranho as dioceses terem tantos ministros ou ministras da comunhão e nenhum/a
para o Ministério da animação?
Cabe aos animadores “de cima” cuidarem dos animadores “de
baixo”. Numa Paróquia, este é, normalmente, o papel dos padres, das religiosas
ou de seminaristas, se houver. Em algum caso muito especial pode ser um leigo ou
uma leiga. Nada o impede. Na Igreja de Jesus – como bem sabemos - não existem
“graus hierárquicos”, escadinhas clericais para subir e descer, mas apenas
“graus de serviço”. As capacidades e responsabilidades são diferentes, mas o
Espírito Santo é o mesmo. A equipe de animação da Paróquia também recebe
animação “de cima”. As Diretrizes Gerais dos nossos bispos cumprem
perfeitamente este papel. Por sua vez os bispos se inspiram, como muito bem
ressaltado nas DGAE 2011/15, nos documentos continentais e pontifícios. Não é
questão de “hierarquia”, mas de “ajuda mútua”.
3.2
O papel dos executores
Na “Assembléia de Planejamento” da Comunidade, que deve
contar com a maior participação possível, reservando o tempo mínimo de uma
manhã ou uma tarde, é importante iniciar com uma reflexão sobre o contexto
atual da Igreja e da Sociedade. As DGAE da
CNBB dão todas as dicas para o conteúdo: a opção por J. Cristo; os documentos
mais relevantes da época; o Objetivo Geral e as quatro “dimensões” da Igreja do
Brasil; os maiores desafios e as maiores “urgências” do nosso tempo; as “pistas
de ação” que cada urgência levanta (tendo como pano de fundo a realidade da
comunidade); os “três âmbitos” da evangelização (pessoa, comunidade e
sociedade) e o “tríplice múnus” (fé, culto e caridade); devem entrar também as
grandes preocupações que marcam a Diocese, a Paróquia e (principalmente) a
própria Comunidade. Podemos chamar este primeiro momento da Assembléia de “o momento
teórico”. Cuidado, nada de grandiloqüência, discursos acadêmicos, ou esquemas
complicados. Tudo muito simples e dinâmico. O resto é com o Espírito Santo (que
nunca falha).
Depois do almoço comunitário, ou o tradicional cafezinho,
vem “o momento prático”. Simplificando ainda mais os passos metodológicos das DGAE
2011/15, sugerimos que a Comunidade responda a, ao máximo, cinco perguntas: 1) O
que deu certo, ou não, no nosso plano anterior? Esta primeira pergunta,
evidentemente, é só para o caso de ter havido algum plano. 2) Diante (desta
avaliação e...) do exposto no momento teórico, quais os principais problemas ou
deficiências que a Comunidade está enfrentando hoje? Os principais são sempre
poucos. Havendo tempo pode-se até ver o “nó crítico”. 3) Diante dos principais
problemas da Comunidade (eventualmente Paróquia), qual deve ser o nosso
“Objetivo Geral” (o nosso grande “sonho”!) até a próxima Assembléia
(normalmente anual, mas não necessariamente)? 4) Entre as diversas metas
possíveis, quais as principais metas concretas que, todos juntos, queremos
alcançar? Não tenham medo de metas extremamente simples se a Comunidade assim
desejar! 5) O que, ou como, fazer para alcançar cada meta (definindo os
detalhes indispensáveis)?
Mais a turma não vai agüentar. Crie um clima de leveza,
alegria comunitária e espiritualidade. As DGAE sugerem: “conversão pastoral”;
coragem para “novos caminhos”; integração do compromisso “interno” (comunidade)
com o “externo” (sociedade); confiança no Espírito. Caso muita gente participe
da Assembléia pode haver, no momento oportuno, alguma divisão em grupos, mas
com a mesma tarefa, a ser “unificada” depois pela animação. É importante que “a
secretaria” faça uma descrição clara do Objetivo Geral, das Metas concretas, e
também de “como” alcançá-las (os detalhes estritamente necessários). A animação
da Comunidade tem aí seu “mandato” para cuidar com carinho. E que tal fazer um único
cartaz com o essencial? Pode ficar à vista de todos/as na igreja o ano todo.
Pode ser apresentado na Assembléia Paroquial ou Diocesana, etc. Cada grupo ou
pastoral da Comunidade pode (na verdade deve!), a partir do cartaz, elaborar
seu próprio “plano específico” numa reunião especial. É o que as Diretrizes
chamam de “programas específicos”.
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Paróquia: .........................................
Comunidade:
...................................
Nosso ‘Sonho”:
...............................
........................................................
Meta 1:
...........................................
Meta 2: ...........................................
Meta 3:
...........................................
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Uma
das maiores conquistas da história do planejamento participativo é a
consciência de que não adiante planejar “de cima para baixo”. Planos impostos
são deixados de lado com a maior facilidade. Na Igreja temos um motivo a mais:
todos os batizados são guiados pelo mesmo Espírito e consagrados à mesma missão
do Reino (o tríplice munus). Para haver um eficaz elo-de-ligação no processo de
planejamento “de baixo para cima”, uma última pergunta deve ser feita na
Assembléia da Comunidade: qual a “anima-ação” mais importante que esperamos da
Paróquia? A animação paroquial deve levar muito a sério as solicitações que vêm
das Comunidades. Constitui a essência do seu serviço. Da mesma forma, as
Paróquias devem passar sua solicitação para a animação regional ou diocesana.
Não faz nenhum sentido querer fazer um processo inverso. Será sempre
“imposição” e não “serviço”. É melhor não planejar do que planejar de forma
errada. Uma vez feito um plano cabe à animação e à coordenação dos grupos
“acompanhar” sua execução, sem fazer do plano uma camisa-de-força, mas
incentivando permanentemente.
Encerremos. Nos últimos anos, as Diretrizes Gerais da
Igreja do Brasil redescobriram a centralidade do “tríplice munus”. Lembrem do
primeiro “Plano de Emergência” (1962/65) acima citado? Não dizia que era
preciso fazer da Paróquia “comunidades de fé, culto e caridade”? Deslanchar uma
“Missão Continental”, colocar a Igreja em “estado permanente de missão” é
exatamente isto: levar todas as pessoas a uma vida de fé, culto e caridade. O
planejamento da Comunidade já tem aí um perfeito esboço para seu plano de ação.
Um modelo simples e viável, em linguagem popular. O tríplice munus é o tripé
que sustenta a vida cristã. Fé na pessoa e na proposta de Jesus (o Reino);
celebrar em comunidade, na liturgia, a vinda do Reino, a nossa Páscoa; e
vivenciar tudo isso mediante uma fraternidade (sororidade) real, voltada para a
sociedade. O papa Bento XVI, na sua recente Encíclica Caritas in Veritate,
lembra que a caridade cristã não pode ser vivida de forma paternalista (Nos
57 e 58), pois deve estar voltada para uma nova sociedade, a conquista de “um
novo céu e uma nova terra” (Apoc 21,1).
1) Quem quiser conhecer
um exemplo prático desta análise pode consultar o artigo As CEB´s na “estação da seca”, REB, fasc. 225, março, 1997.
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>
*Missionário
do Verbo Divino, svd, sacerdote, formado em filosofia, teologia e ciências
sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Em São Paulo SP
atuou como educador no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo
Limpo (CDHEP/CL), coordenando o programa de formação de lideranças eclesiais e
o de combate à violência urbana. Lecionou Teologia Pastoral no ITESP (Instituto
de Teologia de São Paulo). De 2000 a 2008 foi auxiliar na pastoral e vereador,
pelo PT, no município de Holambra SP. Representa a CRB no Conselho Estadual de
Proteção a Testemunhas (Provita/SP). Atualmente atua na pastoral paroquial de
Diadema SP. Além de cartilhas populares publicou artigos na REB e na Vida
Pastoral.
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