O papa "que veio
de longe": da Laudato SI ao Ano da Misericórdia.
Rumo a uma nova espiritualidade
Nicolau João Bakker,
svd*
Introdução:
A Encíclica Laudato Si, do papa
Francisco, merece muito mais do que apenas uma leitura superficial. Trata-se de
uma das mais belas jóias da literatura cristã dos últimos tempos. Podemos
encontrar nela não somente a confirmação de uma nova antropologia1,
agora carinhosamente acolhida pela Igreja, mas também uma nova espiritualidade.
Quando nos arriscamos a falar em uma "nova" espiritualidade não
queremos afirmar que ela simplesmente vem substituir uma antiga. Devemos pensar
muito mais numa nova "filha" que nasce na grande família das
espiritualidades cristãs. Uma filha que vem com personalidade própria,
alegrando todos os demais membros da família.
Ao
assumir seu pontificado, o papa disse que "veio de longe".
Seguramente estava ciente de trazer algo novo para a Igreja, diferente da
postura tradicional dos últimos papas, muito focados na correta doutrina. O
foco principal do papa Francisco - a escolha do nome já diz muito - não está
primeiramente na doutrina, mas na prática correta da vida cristã. Ao fazer de
2016 o "Ano Jubilar da Misericórdia", o atual sucessor de Pedro
indica - juntamente com a Laudato Si - onde está a sua grande preocupação: a
Igreja deve ir ao encontro do próximo (e de todos os seres vivos da Criação) não
com a postura rígida de Simão, o fariseu (Lc 7, 36-50), mas com a atitude
misericordiosa de Jesus que acolhe, a quem quer que seja, com palavras de
conforto, compreensão e esperança. Simplesmente porque, para Jesus, Deus é
assim. Vejamos tudo isso mais de perto na "meditação" que segue.
I A novidade do Mestre
de Nazaré: bem-aventurados os misericordiosos!
Nas últimas décadas, tanto os teólogos como também os biblistas têm
insistido na necessidade de partir da concreta humanidade de Jesus se queremos captar
com maior fidelidade a sua mensagem. É impossível compreender Jesus sem
compreender melhor o contexto histórico em que Ele viveu. Em especial o
contexto espiritual, pois é a partir deste que surgirá a originalidade da
pessoa de Jesus. Existe uma pequena dificuldade no fato de os quatro
Evangelhos, mais do que oferecerem um retrato do Jesus real, nos oferecem um
retrato de como as primeiras gerações cristãs interpretaram a pessoa de Jesus.
Há um quase consenso que Jesus nunca atribuiu a si mesmo o título, digamos,
"oficial" de Filho de Deus, ou Messias. Apenas após a ressurreição
esta convicção se sedimenta cada vez
mais na consciência dos seus discípulos seguidores (com destaque especial para
algumas discípulas!). Algo como ocorreu também com nossos/as grandes santos/as,
ou mártires. Não foram eles ou elas que se imaginaram daquela forma. Nós os/as
vemos assim. O Jesus real da Galileia tinha que optar entre as diferentes
vertentes espirituais de sua época. Não eram poucas, nem pequenas as
diferenças.
Parece
haver forte probabilidade de Jesus ter feito parte dos discípulos de João
Batista. A vertente espiritual que este pregador do deserto representava não
deve ter sido pequena. "Multidões" iam ouvi-lo, até das regiões mais
distantes, diz Lucas (3,7-10). Ainda assim, com o passar do tempo, Jesus parece
ter tomado distância do grupo. Outra vertente espiritual significativa no tempo
de Jesus era a dos monges de Qumran, os essênios. Não há indicação de Jesus ter
pertencido a eles. Também não optou pela espiritualidade mais guerreira dos
zelotes. Nem no momento de sua prisão Jesus quis apelar às armas ou à
violência. Mandou guardar a espada na bainha (Mt 26,52). Muito menos Jesus
buscou proximidade com a espiritualidade e modo de pensar dos saduceus, ou da
casta sacerdotal. Jesus parece ter pressentido que era essa vertente
espiritual/teológica, muito subserviente a Roma e corrompida pelo apego ao
poder e ao dinheiro, que iria levá-lo à morte. É mais provável que Jesus -
apesar das fortes resistências relatadas pela comunidade de Mateus - tenha tido
alguma proximidade com a espiritualidade dos fariseus, judeus muito religiosos
e muito presentes no meio popular, tomando, no entanto, grande distância quanto
ao legalismo dos mesmos, fundamentado mais nas tradições orais do que nos
mandamentos originais da Torá. O judeu Geza Vermes, na opinião de Eduardo
Hoornaert "um dos maiores especialistas sobre o movimento de Jesus na
ótica dos judeus", encontra em Jesus, fortemente, a espiritualidade dos
"hassides". Estes constituíam o grupo religioso judaico que apoiou a
revolta dos Macabeus (168-142 a.C.) contra a helenização, a que também deu
origem aos grupos dos fariseus e dos essênios. Os hassides, muito populares, eram
tidos como milagreiros, santos, dedicados com seus semelhantes. O povo os
comparava com Abrahão, Moisés, Elias, Davi e Jeremias, como fizeram com Jesus. Para
Vermes, Jesus pode ser considerado o maior não somente dos hassides, mas também
do povo judeu (cf. G. Vermes, The
changing faces of Jesus, Record, Rio de Janeiro, 2000).
Talvez
nunca saberemos com precisão como Jesus se sentia diante de Deus. Aspectos das
diferentes espiritualidades parecem estar presentes na sua personalidade, algo
também comum às pessoas da Vida Religiosa Consagrada, e aos cristãos de modo
geral. Mas há um aspecto que distingue Jesus de todas as vertentes mencionadas:
Deus, para Jesus, é, antes de tudo, Pai, e um Pai misericordioso, sem limites.
A concepção de Deus como um Pai (ou uma Mãe), amoroso/a, não está ausente da
tradição religiosa do povo de Israel, mas o judaísmo do pós-éxílio dificultava
o desabrochar desta tradição. Voltando da Babilônia, os judeus se encontram sem
Terra, sem Templo e sem Lei (escrita). Os estrangeiros e os infiéis estão por
toda parte. Para recuperar sua identidade, os "retos de coração" se
agarram à Lei (reencontrada). Aos poucos surge uma nova cultura religiosa,
muita centrada na estrita observância desta Lei e na atitude obcecada de manter
a "pureza" dos costumes judaicos em meio a uma imaginária impureza
generalizada dentro e fora da terra de Israel. Os fariseus se tornaram símbolos
desta preservação dos bons costumes, e eles mesmos se consideravam puros diante
de Deus. Jesus, com firmeza, se opõe a essa espiritualidade legalista,
presunçosa e rigorosa. A impureza, para Jesus, ou vem do coração ou ela simplesmente
não existe (Lc 11,38-40). Grande parte da população, por pobreza,
desconhecimento, ou impossibilidade concreta, não tinha nem sequer a possibilidade
de cumprir tudo que estava prescrito. Jesus se rebelava contra esta postura
farisaica porque era apaixonado por um outro Deus, o Deus de Misericórdia, o mesmo
Deus que fez Aliança com os escravizados do Egito, o Deus que, como afirmavam
Isaías e outros profetas, veio trazer o "Ano das Graças" para todos
os espoliados da terra (Lc 4,18-19). E se Deus Pai é assim, todos os seus
filhos devem ser assim também. O evangelista que melhor retrata Jesus quanto a
esta particularidade é Lucas, às vezes chamado "o evangelista da misericórdia
divina".
Olhemos
este retrato de Lucas um pouco mais de perto: Maria anuncia a vinda do Deus da
Misericórdia (1,46-55); Zacarias faz o mesmo (1,67-79); Jesus, em nome do Deus
da Misericórdia, - contrariando gravemente as regras judaicas - "toca" no leproso e o
"purifica" (5,12-15); em nome do mesmo Deus, Jesus vem não para os
justos, mas para os pecadores (5,29-32); são bem-aventurados os pobres, os
famintos, os que choram, os odiados, rejeitados e insultados (6,20-22); Deus é
misericordioso até com os inimigos, os ingratos e os maus (6,27-35); por isso
todos devem ser misericordiosos como o Pai é misericordioso (6,36), e o discípulo
perfeito deve ser como o Mestre (6,40); João Batista deve saber que o Reino de Deus
(o Reino da Misericórdia) chegou porque "o Evangelho é anunciado aos pobres"
(7,22); Jesus distribui pão à multidão faminta "elevando os olhos para o
céu" (9,12-17); todos se maravilham com a "grandeza (da misericórdia)
de Deus" quando Jesus - "ao descerem do monte" - cura o
endemoninhado epilético (9,37-43); Jesus é misericordioso até com os
intolerantes samaritanos (9,54); no Julgamento haverá mais
"tolerância" para os de fora (Tiro e Sidônia) do que para os próprios
moradores de Cafarnaum (10,13-15); o Deus de Jesus é o Deus dos pequeninos
(10,21), e do samaritano desprezado, aquele "que usou de
misericórdia" (10,37); Deus é como o pai que sempre dá o melhor ao filho
(11,13); na opinião de Jesus, no coração de Deus há um lugarzinho até para os
pardais sobre o telhado (12,6), para as aves do céu (12,24) e para os lírios do
campo (12,27-28); quanto mais o Pai então sabe das "vossas
necessidades", pois é da misericórdia do Pai que virá o Reino (12,29-32); uma
"multidão inteira" se alegra porque o Deus de Jesus, embora em dia de
Sábado, curou a mulher encurvada (13,17); sim, no Reino de Deus, os últimos
serão os primeiros! (13,30), e serão os pobres e os estropiados que
participarão do banquete do Reino (14,21); o capítulo 15 é, por inteiro,
dedicado à misericórdia de Deus (parábolas da ovelha perdida, da dracma perdida
e do filho perdido); o Deus de Jesus faz justiça à viúva "muito em
breve" (18,8); o publicano é perdoado, o fariseu não (18,14); o Filho do
Homem veio salvar "o que estava perdido" (19,10); o Deus de Jesus o
faz perdoar até os que, ignorantemente, o crucificam (23,34), e oferecer o paraíso
ao criminoso que se rende à fé (23,43); Jesus morre sem entender, mas confiando
na misericórdia do Pai celestial em cujas mãos entrega seu espírito (23,46);
seus discípulos o reconhecerão presente cada vez que ocorrer a partilha do pão (24,31).
Porque Deus, nosso Deus, é um Deus de misericórdia. É esta a mensagem do
Evangelho de Lucas.
II Laudato SI: a
Misericórdia sem limites se estende a toda a Criação
Voltemos a nossa atenção agora à Encíclica, Laudato Si, do papa Francisco. Sob ponto de vista de
espiritualidade, qual a novidade? Bem, para a ciência em geral o papa não traz
grande novidade, mas para a Igreja a linguagem e o modo de entender que o papa
adota representam um grande avanço. Em que sentido? Tradicionalmente, a
Misericórdia de Deus (e a espiritualidade dos cristãos) se dirigia quase que
com exclusividade ao próximo, ao ser humano que sofre, ou que se encontra em
situação de pobreza, exclusão ou marginalização. Na Encíclica, porém, o papa -
na esteira de São Francisco! - lembra a todos nós que o ser humano não pode ser
visto como isolado dos demais seres vivos da Criação. Começa a impor-se,
lentamente, a nova cosmovisão ecológica da qual tratamos em outras
oportunidades.2 Como seres conscientes temos uma responsabilidade
maior, mas partilhamos com todos os seres vivos uma origem e destino comum (202).
Somos feitos da mesma estopa, somos todos "terra", diz o papa (2).
Durante
muitos séculos, afastada das ciências da vida, a Igreja imaginou a alma humana
como muito diferente, digamos, da alma das plantas ou dos animais. Uma alma inteiramente
"superior", colocada por Deus dentro do corpo no momento da
concepção. O papa não tira nada da vocação específica e única do ser humano,
mas não usa mais esta linguagem tradicional. Laudato Si talvez seja o primeiro documento explícito da Igreja
onde uma nova linguagem surge a partir de uma nova concepção sobre o ser
humano. Um ser humano não "acima" dos outros seres, mas
"irmanado" com eles, "irmão" e "irmã" até da
criatura mais humilde da Terra, como já dizia São Francisco. Que nova e
primorosa espiritualidade poderá surgir a partir deste novo modo de ver! A
ideia de uma alma imortal, separada do corpo, não veio de Jesus, mas dos
antigos filósofos gregos. Também alguns filósofos da Modernidade aprofundaram,
a seu modo, esta mesma visão e surgiu assim uma cultura religiosa muito
centrada na salvação da alma. Os judeus do tempo de Jesus não conheciam este
modo de pensar. Jesus não quis salvar almas, mas pessoas inteiras. O Reino de
Deus está começando, pensava Jesus. Deus, na sua infinita e ilimitada
Misericórdia, ressuscitará a todos, de corpo e alma. Não fosse assim, seria vã
a nossa fé, dirá São Paulo (1Cor 15, 17). Foi sempre essa a fé da Igreja.
Uma nova
espiritualidade em nada tira a beleza de uma antiga. E como foi bela e forte a
espiritualidade dos cristãos (e cristãs!) nos primeiros séculos do
cristianismo, no tempo dos "Santos Padres" (e das "Santas
Madres"!). Em absoluta fidelidade ao Deus da Misericórdia pregado por
Jesus, os primeiros séculos cristãos dão atenção preferencial aos inúmeros
pobres e espoliados presentes nos mais diversos cantos do Império Romano. Lembremos
apenas o exemplo da Igreja de Roma. Diz Franco Pierini (cf. Curso de história da Igreja - Idade Antiga, São
Paulo: Paulus, 1998, p. 99): "O papa Cornélio (151-153), em carta ao bispo
de Antioquia, informa que a Igreja de Roma (então com aproximadamente 30.000
cristãos) compreende 46 presbíteros, 7 diáconos, 7 subdiáconos, 42 acólitos, 52
exorcistas, leitores e hostiários, e mais de 1500 viúvas e indigentes
oficialmente assistidos." E ouçamos
a pregação de São Basílio (†379), bispo de Cesareia, da Capadócia, pai da vida
monástica na Igreja Oriental: "E tu que vais ocultando todos os teus bens
nas obras de uma avareza insaciável, julgas não prejudicar ninguém, deixando na
privação tantos infelizes? Quem é o avarento? Uma pessoa que não se contenta
com o que é necessário. Quem é o ladrão? Uma pessoa que tira de alguém aquilo
que lhe pertence. E, porventura, não és um avarento? Não és um ladrão?
Monopolizastes os bens cuja gestão te foi confiada. Aquele que despoja o homem
de suas vestes receberá o nome de saqueador. E aquele que, podendo fazê-lo, não
veste a nudez de um mendigo merecerá acaso outro nome? Ao faminto pertence o
pão que guardas. Ao homem nu, o manto que guardas nos teus cofres. Ao que anda
descalço, o calçado que apodrece em tua casa. Ao miserável, o dinheiro que
guardas escondido. É assim que vives oprimindo tanta gente que poderias
ajudar." Diz A.G. Hamman (citado por R. Cavalcante, em Espiritualidade Cristã na História, São
Paulo: Paulus, 2007, p. 249): "Talvez o que mais chama a atenção na
espiritualidade de Basílio seja o caráter engajado e comprometido socialmente
de seu ministério episcopal. Dedicou-se a erradicar a miséria de sua cidade,
construindo diversas obras no setor mais carente: instituições de socorro aos
marginalizados e estrangeiros; albergue e abrigo para idosos; hospital, com
área reservada às doenças contagiosas; igreja; e, mais tarde, alojamentos para
empregados e operários. A obra transformou-se em uma verdadeira cidade operária
(a assim chamada 'basilíade')."
Esta mesma
espiritualidade dos primeiros séculos se fará presente, ora mais ora menos, na
história da Igreja. No final da Idade Média, quando a riqueza comercial faz
surgir a nova vida urbana, com o empobrecimento e abandono de grandes faixas da
população, São Francisco de Assis (†1226) e seus companheiros - logo seguidos
por Santa Clara (†1253) e companheiras - retomam a vida itinerante de Jesus
indo em busca dos mais esquecidos. Na imagem do crucifixo, Francisco encontra,
a seu modo, o rosto do Deus da Misericórdia. Séculos depois também São Vicente
(†1660) e muitos outros. Renasceu e renascerá sempre de novo a mesma fé de
Jesus no Pai de infinita Misericórdia.
Recentemente, no Brasil (e no mundo), surgiram as Comunidades Eclesiais de Base
(CEBs) e as Pastorais Sociais com base nesta mesma espiritualidade, adotando,
porém, um caráter menos exclusivamente assistencial e mais sócio-transformador,
visando mudanças na estrutura social geradora da "injustiça... e violência
institucionalizada" (cf. Medellin 16).
Laudato Si não está alheia a esta espiritualidade, mas, a exemplo de
Francisco, estende a Misericórdia do Pai, para além do ser humano abandonado, a
todos os seres vivos que, hoje, sofrem grande ameaça. Em qual fundamento o papa
se baseia para tomar esta tão firme posição? Para responder a esta pergunta
devemos, por algum momento, prestar atenção ao que a Ciência, hoje, nos diz
sobre a origem e a evolução da "Vida" no planeta Terra.
III A "Vida",
como ela é
Já pararam para ver a estonteante beleza da Vida? E sua extraordinária
complexidade? Tomemos como exemplo o nosso sangue. O sangue, seja dos peixes,
dos animais ou dos seres humanos, é feito de moléculas de
"hemoglobina" (uma típica molécula de "proteína"; o corpo é
feito de diferentes tipos de proteínas). Numa única grande molécula de
hemoglobina existem 574 pequeninas moléculas de aminoácidos. Cada
pequeniníssimo aminoácido, por sua vez, é feito de apenas algumas dúzias de
átomos, arranjados numa estrutura precisa. Quantas moléculas de hemoglobina
existem num corpo humano? Bem, não se assustem com os números: 6 mil
quintilhões!, todas perfeitamente idênticas. O mais impressionante, no entanto,
não é o número, mas o "modo de vida": as hemoglobinas se renovam
permanentemente. Elas se "auto-replicam", dizem os entendidos, quer
dizer, elas tiram cópias perfeitas de si mesmas, o tempo todo. A que
velocidade? Novamente, não se assustem: 400 trilhões, por segundo! É um morrer
e renascer sem fim (cf. R. Dawkins, O
gene egoísta, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 56). E esta é a característica essencial não apenas
das células de hemoglobina, mas de todas as células do nosso corpo! E assim também
do "corpo" de todos os seres vivos, sejam animais, plantas, árvores, micróbios,
algas do mar, ou, o que for. Quem quer definir a "Vida", dizem os
entendidos (e há consenso sobre isto), deve dizer: "auto-replicação".
Outros falam em "autopoiese", palavra que tem a mesma raiz grega de
poema, poesia. É mais bonito. A vida é mesmo uma grande poesia.
Mas quem
comanda esta máquina de fazer cópias de si mesma? Nós, religiosos/as, queremos
logo responder: é Deus! Mas vamos devagar com isto. Não percebem o sorriso
maroto dos cientistas? Já faz mais de um século que descobriram que cada célula
é feita e refeita de acordo com o código genético - o tal do "DNA" -
que existe dentro dela. O "replicador" de verdade é ele. Assim como
as moléculas das proteínas são cadeias de aminoácidos, as moléculas de DNA são
cadeias de "nucleotídeos" (os ácidos nucléicos que formam as bases
estruturais dos nossos - aproximadamente - 30.000 "genes"). O DNA
consiste num par, interconectado, de cadeias de nucleotídeos, uma torcida sobre
a outra, numa espiral elegante, a "dupla hélice" ou a "espiral
imortal" (os seres vivos morrem, mas seus genes, sempre idênticos, são
passados adiante, possivelmente por milhões de anos). Existem apenas quatro
tipos de nucleotídeos: adenina, citosina, guanina e timina. São iguais em todos
os seres vivos, sejam bactérias, plantas ou animais (daí já dá para desconfiar de uma origem
comum!). O que varia é a ordem em que os nucleotídeos se alinham na longa
sequência da dupla hélice (que vem "aninhada" no longo fio dos - nos
seres humanos - 46 cromossomos, dos quais 23 provenientes do pai e 23 provenientes
da mãe). A "sequência" não é só diferente entre, por exemplo, um
homem e um caramujo, como também é diferente - mas em um grau menor - entre um
homem e outro homem. Daí porque não existem seres vivos iguais sobre a face da
Terra. Cada ser vivo é único, em qualquer ponto do planeta. Pare um pouco e
pense nisto.
Como
todas as formas de vida, em qualquer ponto do planeta, da simples bactéria ao
elefante, da humilde violeta à imponente jatobá, possuem a mesma característica
da permanente renovação das células, e sabendo que as diferentes formas de vida
evoluíram sobre a face da Terra indo das mais simples às mais complexas, os
cientistas da vida chegaram à conclusão que, em algum lugar e tempo, este
processo deve ter tido um início. Embora nem tudo ainda esteja esclarecido, há
um consenso que isto, de fato, aconteceu, aproximadamente 3,7 bilhões de anos
atrás. Pelas leis da física, os diversos elementos químicos se atraem entre si.
Logo que o meio ambiente do planeta o permitiu, os primeiros replicadores
bioquímicos se constituíram, comandados por um, digamos, "DNAzinho"
ainda bem rudimentar. Esta máquina de fazer cópias de si mesma, ocasionalmente,
comete uma pequena "falha", uma "mutação" dizem os
entendidos. Se ela, por inaptidão, enfraquece a vida, ela não vingará nas
próximas gerações. Se ela der certo, irá prosperar, passando de geração em
geração. E assim a "Vida" veio evoluindo, passando dos seres vivos
unicelulares para os multicelulares, depois das humildes algas do mar às
primeiras plantas rasteiras na costa da terra, e dos pequenos e primitivos
animais aquáticos aos primeiros anfíbios praianos. A seguir vieram os répteis,
os mamíferos, e uma infinidade de outras formas vivas como as florestas, os
pássaros e as flores das quais gostamos tanto. Sim, porque, depois dos
mamíferos e dos primatas, surgiram também os seres humanos. E aí tudo complicou
porque, como diz a Bíblia, o ser humano criou consciência do bem e do mal. E
Jesus afirmou que podemos agir como cabritos ou ovelhas. Pela primeira vez
surgiu na Terra um ser capaz de fazer a Vida prosperar ainda mais.... ou de
acabar com tudo que existe. E está aí a razão pela qual o papa Francisco
escreveu a Encíclica Laudato Si.
IV Laudato Si: apenas uma nova espiritualidade pode salvar o planeta
A Encíclica Laudato Si faz uso
regular de um conceito-chave em ecologia: "tudo está interligado".
Fala deste conceito, de forma explícita, mais de trinta vezes (4; 5; 6; 16; 20;
22; 34; 41; 42; 46; 48; 52; 66; 68; 70; 79; 86; 91; 92; 111; 117; 120; 137;
138; 139; 140; 141; 142; 155; 164; 220; 240). Coloca também, como causa
principal de uma eventual "catástrofe ecológica" (4), o atual
paradigma tecno-científico, visto por todos os governos como o único caminho de
enfrentamento e superação. Aponta até quarenta vezes para a falsa exclusividade
desta proposta (4; 6; 15; 16; 20; 26; 31; 36; 48; 54; 56; 104; 106; 108; 109;
110; 111; 113; 127; 128; 136; 144; 161; 166; 167; 169; 173; 175; 177; 179; 183;
189; 190; 191; 193; 194; 195; 196; 203). Finalmente, após analisar todos os
lados da questão, o papa reserva o último capítulo - "Educação e
espiritualidade ecológicas" - para falar do que lhe vai no coração: não é
o "antropocentrismo despótico" (68), que vê o ser humano
"acima" dos demais seres vivos, que irá salvar o planeta, mas apenas uma
nova espiritualidade, a que assume a "ecologia integral" (10; 62;
124; 137) que vê o ser humano irmanado com seus irmãos e irmãs, e com os demais
seres da natureza. "A cultura ecológica", diz o papa, ...
"deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa
educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao
avanço do paradigma tecnocrático (111)."
Laudato
Si não faz uso explícito da linguagem lucana centrada na Misericordia. O
conteúdo, no entanto, é idêntico. Ter misericórdia é saber cuidar: "Não se trata tanto de propor ideias, como sobretudo
falar das motivações que derivam da espiritualidade para alimentar uma paixão
pelo cuidado do mundo. Com efeito, não é possível empenhar-se em coisas grandes
apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima (216)." "Isto
impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós... As diretrizes
para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza,
devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza
(139)." "O cuidado dos ecossistemas requer uma perspectiva que se
estenda para além do imediato, porque, quando se busca apenas um crescimento
econômico rápido e fácil, já ninguém se importa realmente com a sua preservação
(36)." Por isso, nos passos do ecoteólogo Leonardo Boff, o papa afirma que
"uma verdadeira abordagem ecológica... ouve tanto o clamor da terra como o
clamor dos pobres (49)." Ter misericórdia é preocupar-se: "Essa falta de capacidade para pensar seriamente
nas futuras gerações está ligada com a nossa incapacidade de ampliar o
horizonte das nossas preocupações (162)." "Exige-se uma preocupação
pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um
compromisso constante com os problemas da sociedade" (91)." "A
lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação com o meio ambiente é
a mesma em que não encontra espaço a preocupação por integrar os mais frágeis
(196)." Ter misericórdia é responsabilizar-se:
"Enquanto a ordem mundial existente se revela impotente para assumir
responsabilidades, a instância local pode fazer a diferença. Com efeito, aqui é
possível gerar... uma especial capacidade de solicitude e... um amor apaixonado
pela própria terra (179)." "Crescemos pensando que éramos seus (da
Terra) proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la (2)... mas a
interpretação correta do conceito de ser humano como senhor do universo é
entendê-lo no sentido de administrador responsável (116)."
Tudo
isso, lembra o papa, requer uma "mudança de hábito" (209): "É a
humanidade que precisa mudar. Falta a consciência de uma origem comum, de uma
recíproca pertença e de um futuro partilhado por todos. Essa consciência
basilar permitiria o desenvolvimento de... novos estilos de vida (202)."
Esta permitiria por fim ao "consumismo compulsivo" (203), romper com
a "consciência isolada" (208), e, como pede a Carta da Terra (ano 2000),
"deixar para trás a etapa de autodestruição e... procurar um novo início
(207)." Impõe-se, portanto, a
autêntica educação ambiental que deve predispor-nos para "dar esse salto
para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais
profundo." (210). "A cidadania
ecológica se constrói valorizando as pequenas
ações diárias (211). É "o exercício desses comportamentos... que
permite-nos experimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo
(212)."
Permitam-nos
encerrar com um pequeno alerta para a Vida Religiosa Consagrada. Também ela
precisa muito de "conversão ecológica" (214; 216-221). A longa
tradição eclesial de preocupar-nos mais com a alma do que com o corpo, a
profunda espiritualidade samaritana que habituou-nos a procurar em primeiro
lugar o próximo deitado à beira do caminho, e o fato de o nosso dia a dia estar
muito voltado para evangelização, catequese, ensino e pregação, tudo nos leva à
fácil adoção de um discurso (ambiental) sem prática. Nas últimas décadas,
grande parte da Vida Religiosa Consagrada entrou num forte processo de
secularização, conformando-se com estilos de vida que correspondem mais à
lógica do capital do que à lógica do Reino. Ainda é comum o/a religioso/a sair
do quarto sem apagar a luz, deixar a água correr à vontade ao lavar os pratos,
deixar aparelhos ligados ao sair de casa, não separar ao menos o lixo orgânico
do lixo seco (ainda que a Prefeitura não o colete), preferir o transporte
particular ao coletivo, e estocar no quarto os livros que poderia partilhar.
Prefere deixar "aos outros", ou às ONGs, a urgente tarefa da
preservação da natureza. Mas, o papa diz: "Compete à política e às varias
associações um esforço de formação das consciências da população." Mas...
"naturalmente compete também à Igreja. Todas as comunidades cristãs têm um
papel importante a desempenhar nessa educação (214)."
Questões para ajudar a leitura individual ou o debate em
comunidade:
1. Muitos/as afirmam que, para nós, religiosos/as, salvar os
excluídos e marginalizados, é mais importante do que salvar as florestas. Está
correto colocar a questão desta forma?
2. Quais podem ter sido as razões pelas quais o evangelista
Lucas (ou a Comunidade Lucana) fez do conceito de "misericórdia" um
dos conceitos centrais do seu Evangelho?
3. Quais as boas práticas ecológicas que, na sua opinião,
devem ser mais incentivadas na Vida Religiosa Consagrada?
* Pe. Nicolau João Bakker
é missionário do Verbo Divino, svd, sacerdote formado em Filosofia,
Teologia e Ciências Sociais. Atuou sempre na Pastoral Prática, Rural e Urbana.
Representa, atualmente, a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas
(Provita/SP) e atua na Pastoral Paroquial de Diadema/SP. Além de cartilhas
populares, publicou diversos artigos na REB,
Vida Pastoral, Verbum, Convergência e
Grande Sinal. Endereço do autor:
Rua Juruá, 798, Jd. Paineiras, 09932-220, Diadema SP. E-mail: <nijlbakker@hotmail.com>
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>
1. Cf. artigo a ser publicado na REB, no primeiro semestre de 2016.
2. Ver em: Vida
Pastoral 278/2011; 279/2011; 281/2011; 282/2012.
Nenhum comentário:
Postar um comentário