sexta-feira, 3 de junho de 2016

Vida Pastoral, janeiro de 2015: Igreja e Sociedade: análise institucional e conversão institucional

IGREJA E SOCIEDADE - ANÁLISE INSTITUCIONAL E CONVERSÃO INSTITUCIONAL
Pe. Nicolau João Bakker, svd*

Introdução:
            Pela primeira vez nos seus 50 anos de história, a Campanha da Fraternidade de 2015 faz uma abordagem propositadamente global: qual a sociedade que temos, e qual a Igreja que queremos? Por isso voltamos ao tema da "análise institucional". Esse tema faz uma falta enorme, especialmente agora que a CNBB traz a proposta da "nova paróquia". Em 2013, nossos bispos, em Estudos da CNBB 104, publicaram, como resultado de sua 51ª Assembleia Geral, a proposta: "Comunidade de Comunidades - Uma Nova Paróquia", solicitando colaborações. Tendo sido longa a nossa experiência pastoral, sempre ligada à paróquia, tanto nas questões práticas quanto nas áreas de coordenação e professorado, resolvemos oferecer a nossa colaboração em forma de artigo (ver: REB 291/2013), com o título: "A 'Nova Paróquia' na 'análise institucional' da Igreja". Tomamos a liberdade de retomar agora tópicos diversos deste artigo, uma vez que sua importância apenas cresceu com a publicação do Documento 100 da CNBB  que oficializa a proposta. Nem o tema da Campanha da Fraternidade, nem a proposta da Nova Paróquia podem ser abordados de forma adequada sem recorrer ao conceito de análise institucional.
            Estamos hoje numa encruzilhada, sem saber com segurança qual rumo tomar. A euforia da renovação pós-conciliar e pós-Medellin arrefeceu com a assim denominada volta à grande disciplina. O novo rosto da Igreja com a teologia da libertação e a vitalidade das CEBs perdeu seu brilho original. Nos últimos vinte anos perdemos vinte milhões de católicos, quase sempre para alguma Igreja Evangélica. Desde Aparecida (2007), a grande esperança para reverter a situação foi colocada numa ampla "Missão Continental" (Doc. 88 da CNBB). Agora, no Doc. 100, os bispos constatam que a tão desejada "conversão pastoral" de Aparecida (DA 365-372) custa a se concretizar. Existem "estruturas caducas" impedindo a missão, e há até um certo desânimo no ar (7-8, 50, 200). Proposta de solução: a "Nova Paróquia" (50; cf. Evangelii Gaudium 28). O que pretendemos mostrar no presente artigo, é que a proposta da nova paróquia não vingará sem uma corajosa "análise institucional” da própria Igreja. No Estudo da CNBB 104 (191) esta proposta ainda é acolhida, mas no novo Documento 100, a questão é simplesmente deixada de lado. Por mais importante que seja a renovação da paróquia, a causa do mal não está apenas na estrutura paroquial (2; cf. EG 28), está na estrutura da Igreja como um todo. Ou se muda a instituição, ou nada de realmente significativo acontecerá. Qualquer que seja o tema abordado nas Campanhas da Fraternidade, sem uma "conversão" também institucional,  a sociedade que temos tende e não nos levar muito a sério.
I A religião como o oxigênio da sociedade
            Pare de respirar por um minuto e analise sua situação. Tal é a situação da sociedade quando ela sufoca a religião. As sociedades são muitas. Variam os costumes, a língua, a religiosidade, as formas de governo, as técnicas usadas, enfim, uma infinidade de traços culturais. Existe, porém, algo que é comum a todas elas e que constitui seu traço fundamental: a necessidade de sobreviver! Quando o renomado biólogo evolutivo da Inglaterra, Richard Dawkins, em 1976, publicou seu livro "O Gene Egoísta", ele ficou famoso porque comprovou, cientificamente, que não apenas nós, seres humanos, mas também todos os demais seres vivos, somos todos guiados tanto pelos genes egoístas quanto pelos genes altruístas. Uns nos impelem para a sobrevivência individual, a qualquer custo; os outros explicam nossa eterna busca pela paz e pela sobrevivência grupal. Os genes altruístas nos tornam cooperativos e prontos a assumir riscos quando a sobrevivência coletiva está ameaçada. A mística ou a religiosidade que caracteriza todos os povos se alimenta muito desta generosa carga genética que nos faz estar sempre em busca de vida, e vida em plenitude (Jo 10, 10).
            Por serem tão essenciais à sobrevivência de todos nós, ambos, egoísmo e altruísmo, com o passar dos tempos, "se encarnam", ou "se institucionalizam", assumindo cores diferentes conforme a variedade das culturas. Por isso, mais importante do que perceber o lado bom ou o lado mau das pessoas é perceber como o egoísmo e o altruísmo vão se cristalizando nas relações coletivas, transformando-se em estruturas e instituições. Se queremos analisar uma sociedade devemos, acima de tudo, retratar suas "instituições de sobrevivência", em especial seu sistema econômico. Oscilará sempre em torno de apenas dois modelos: ou dará maior espaço aos genes egoístas, ou então aos altruístas. Daí porque também os sistemas políticos das sociedades giram em torno de apenas duas alternativas básicas: o mercado livre ou o mercado controlado. Será sempre um pêndulo entre egoísmo e altruísmo. A verdade seja dita: anjos e demônios povoam a nossa mente. O bem e o mal se misturam nas nossas ações. Moisés já dizia que cabe-nos escolher entre a bênção e a maldição (Dt 11, 26-28), e o próprio Jesus nos alertou: podemos agir como cabritos ou ovelhas (Mt 25, 31-46). Sem os genes altruístas da paz e da cooperação, do amor e da compreensão, o mundo está fadado a fracassar. Uma "nova terra" nos aguarda, diz o Apocalipse (21, 1-4). É este o propósito de todas as religiões. Por isso, tirar a fé religiosa do coração de uma pessoa é dar-lhe uma morte antecipada. O oxigênio que mantém vivas as sociedades é a religião.
II A "análise institucional" na nossa Igreja
            As religiões, portanto, constituem "o sacrário" da humanidade. Mesmo as pessoas que se declaram sem religião, ou sem Igreja, defendem com ardor, às vezes até fundamentalisticamente, suas ideias mais profundas. Não adianta tentar, ninguém consegue livrar-se dos seus genes altruístas! Quem deve tomar cuidado são as "instituições" religiosas. Estas, sim, podem perder sua vitalidade, especialmente no nosso mundo globalizado onde se convive permanentemente com a diversidade, e onde as mudanças ocorrem de forma cada vez mais rápida. Seres humanos não pensam sempre de forma igual. Em cada cultura, os modos de pensar e sentir, falar e agir, etc., mudam de acordo com as novas circunstâncias. Nosso cérebro, desde o início do processo evolutivo, reage ao meio ambiente físico e cultural. Em especial nossa escolaridade e nossa inserção (profissional e emocional) no mundo em que vivemos, afetam profundamente nosso "viver", tanto o individual quanto o coletivo. Qualquer instituição, religiosa ou laica, que se aferra ao passado e não encarna as novas compreensões e linguagens, corre sério risco de perder a adesão das pessoas. Perde, assim, sua possibilidade de contribuir com a "Vida" no planeta Terra. O Espírito que, desde a origem, "pairava sobre as águas" (Gn 1, 2), se extinguirá e a pomba da paz não encontrará lugar para depositar seus ramos (Gn 8, 9). Por isso, não dando atenção à análise institucional, a Igreja, chamada a dar "vida em abundância", pode, sem querer, gerar morte em vez de vida.
            As diretrizes pastorais da Igreja do Brasil sempre foram boas. Nas últimas Diretrizes (Doc. 94 da CNBB), em boa hora, foram melhor explicitados os “passos metodológicos” (126-138). O último passo trata da “renovação das estruturas”. Diz o texto com muita propriedade: “Se não renovamos as estruturas e a própria instituição, o processo de mudanças ao qual as ações se propõem perseguir, estará prejudicado, quando não estagnado” (137). Numa correta análise institucional, o foco principal está sempre na missão a cumprir. Em cada planejamento, a instituição se auto-avalia para verificar em que ponto deve mudar para que a Missão se fortaleça. À luz de Aparecida, dizem as Diretrizes, devem ser repensados "os organismos de articulação, os mecanismos de coordenação, os primeiros responsáveis (bispo, pároco, coordenadores) e suas respectivas funções" (138; cf. EG 32), etc. Tudo tendo em vista a “renovação da paróquia”. É exatamente desta preocupação que surge agora o novo Doc. 100 da 52ª Assembleia da CNBB. Tudo perfeito, sem dúvida, menos o ponto ao qual nós damos o nome de “o grande silêncio”.
III A grande "conversão institucional" da qual ninguém quer falar
            Quando falamos de um “grande silêncio” falamos do fato de pouca gente da Igreja fazer, corretamente, uma “analise institucional a partir de Roma”. Os teólogos (não tanto os da Am. Latina) até que falam, mas os bispos não. Contudo, são estes que, na atual estrutura institucional, têm o real poder de “tocar as trombetas” (Js 6, 16). Em Aparecida, os bispos falam da necessidade de “reformas...também institucionais” (DA 367), mas não as explicitam. Nenhum documento eclesiástico fala a respeito. Como já assinalamos, também o último documento sobre a "nova paróquia" simplesmente se cala. A CNBB pede estas reformas “com firmeza e rapidez” (DGAE 34; cf. DA 370), mas limita-as à paróquia. Comparando o atual Doc. 100 da CNBB (45-50) com o anterior Estudo 104 (191-199), tratando das estruturas, vemos mais involução do que evolução. Quando trata explicitamente das 'tarefas' dos bispos (195-198), nenhuma palavra a respeito. Em nenhum momento os bispos se auto-avaliam como representantes primeiros da instituição. Falta coragem profética. Quem teve coragem de abordar o assunto foi o papa Francisco, em Evangelii Gaudium 32.
            Numa análise institucional, da forma como os especialistas entendem, uma das primeiras perguntas é a seguinte: a Direção da Instituição tem consciência e clareza das mudanças institucionais a serem feitas para que ela, a Instituição, continue fiel à sua Missão e seus Objetivos? Se os bispos e a Cúria Romana se mantiverem fieis à teologia clássica onde, tanto a compreensão da doutrina revelada como também sua formulação temporária e sua concretização cultural, constituem verdades eternas e imutáveis, é evidente que nada pode mudar. Dispensa-se qualquer auto-avaliação. A estabilidade se impõe. Se, caso contrário, a Cúria se abrir ao Vat. II e adotar o princípio de que existe “progressão” na compreensão da Palavra (DV 8) e que “uma coisa é a doutrina, outra a sua formulação” (cf. papa João XXIII na sessão inaugural do Conc. Vat. II), e, além do mais, adotar o princípio conciliar de que as autônomas realidades terrestres contêm “sinais do tempo” a serem interpretados por uma adequada hermenêutica teológica (GS 4, 11, 44), então sim as cúrias, confiantemente, se abrirão ao Espírito e as coisas podem começar a andar. Uma correta análise institucional irá demonstrar quais as estruturas obsoletas que impedem os avanços a serem feitos.
            “O grande silêncio” surgiu poucos anos depois do Concílio. O papa Paulo VI já constatou que “a fumaça de Satanás” ainda estava presente. Em 1985, no Sínodo em comemoração aos vinte anos do Concílio, a Cúria Romana, abertamente, puxou o freio de mão. Foi questionado o estatuto teológico das conferências episcopais, e, daí em diante, sua autonomia relativa – um dos grandes avanços do Concílio -, foi grandemente diminuída. Recentemente, o eminente teólogo brasileiro, Agenor Brighenti, em REB 288/2012, artigo ‘Sinodalidade eclesial e colegialidade episcopal – A relevância ofuscada das conferências episcopais nacionais’, demonstrou cabalmente o quanto esta nova postura da Cúria não condiz com toda a história da Igreja.
Não pode haver dúvida que a estrutura mais obsoleta e asfixiante da Igreja é o sistema eleitoral do papa e dos bispos. Ela surgiu e está como está exatamente para nada mudar. Se o Espírito está verdadeiramente presente e ativo em todos os batizados, como justificar que eles não têm nenhuma influência sobre a escolha do seu Pastor, o Bispo Diocesano, aquele que exatamente expressa a unidade dos cristãos na Igreja Particular? Há algo ainda mais estranho. Como justificar que nem o conjunto dos agentes pastorais, nem o conjunto dos ministros ordenados, nem sequer o Conselho de Presbíteros, tem qualquer influência? E, se alguma consulta esporádica for feita, como justificar que o sacerdote consultado, “sub grave”, deve manter silêncio? Para a escolha do papa, idêntica reflexão pode ser feita. Em tudo reina o mais absoluto “corporativismo”. Transparência zero; colegialidade zero; confiança no Espírito zero. Uma flagrante discrepância entre teoria e prática eclesiais. Em termos de análise institucional, poucos exemplos podem ser mais significativos.
            A esta altura da nossa reflexão gostaríamos de acrescentar uma ressalva. Não nos consideramos um “rebelde sem causa” na seara do Mestre. Temos perfeita consciência da necessidade de Roma manter certos cuidados. O processo cultural da Modernidade, no nosso entender, ainda não se esgotou. Não há dúvida que existe nele uma forte tendência para relativizações sem critério. De fato, um prolongado contexto cultural leva o ser humano facilmente a grandes equívocos. Evolutivamente, o cérebro se desenvolveu como mecanismo de adaptação ao meio ambiente, a sobreviver da melhor forma, biológica, social e espiritualmente. Seria idolátrico o magistério (a qualquer nível de Igreja) colocar-se no lugar de Deus, proclamando verdades eternas. Cabe-lhe, isto sim, confrontar o novo com a riquíssima tradição cristã do passado. Sem anátemas ou inquisições, pois ninguém é dono ou dona do Espírito. O que está em jogo é a própria “Vida”. Sem adaptação ao novo, a vida morre.
IV A "Nova Paróquia" na perspectiva da análise institucional
            Continuemos a nossa análise institucional, olhando agora mais de perto para a "nova paróquia". A Campanha da Fraternidade deste ano pede uma ação pastoral de acordo com as demandas da sociedade. Quase tudo deve concretizar-se a nível de paróquia. O Documento de Estudo 104 dizia: “Conhecer a realidade das comunidades paroquiais é determinante para identificar caminhos possíveis para a renovação paroquial e a consequente revitalização das comunidades cristãs” (89). O novo Documento 100 afirma: "Isso supõe mudanças de estruturas e métodos eclesiais, mas, principalmente, exige uma nova atitude dos pastores e dos agentes de pastoral e dos membros das associações de fieis e movimentos eclesiais" (51). No novo documento, as mudanças estruturais perdem importância diante das atitudes subjetivas. Mas ambas são necessárias ao mesmo tempo! Mesmo bons pastores estão de mãos atadas diante de "estruturas obsoletas" quando estas não são removidas. Ao se calarem, os próprios bispos se eximem da responsabilidade de remover estas estruturas inadequadas. Na comunhão (comum-união) eclesial não são eles os primeiros responsáveis?
            Quando os bispos, p. ex., afirmam que os leigos devem assumir "maior espaço de decisão" (Doc. 100: 32), mas em nenhum momento falam em reformular o ministério ordenado, a proposta fica solta no ar. É impossível esperar grandes resultados sem uma mexida corajosa nos ministérios da Igreja. A experiência eclesial dos ministérios leigos na tradição latino-americana tem sido rica, mas “a instituição” impõe limites severos. As exortações episcopais (32, 49, 128, 210-214, 219-220, 273, 306-308, 319f) são generosas. Ainda assim, diante do ministério ordenado, todos os demais ministérios leigos não ultrapassam muito o grau de “coroinha”. Há ainda a desigualdade prática entre homem e mulher (ocultada em 74b, 93 e 219-220), além de proibições canônicas e litúrgicas que contrariam o bom senso pastoral. O documento comenta o “direito à Eucaristia” das comunidades (125, 181-182, 277). Haja celebrante! Em muitas comunidades entre nós, nem na Páscoa! Não existem impedimentos teológicos ou pastorais para que este sonho se torne realidade. Nas nossas comunidades (ou paróquias) são milhares as pessoas disponíveis (leigos e leigas) e qualificadas (ou a serem qualificadas). Basta a direção da Igreja (nos diversos níveis) perder o medo e confiar no Espírito! Como fez Jesus. É tão simples assim. Uma das perguntas tradicionais da análise institucional é esta: a Direção da Instituição fornece as condições e os recursos para que os diferentes níveis da instituição possam cumprir adequadamente a sua parte na missão proposta? Devemos ser sinceros: infelizmente não!
            A nova paróquia, diz o Documento 100, exige, antes de tudo, uma autêntica "conversão pastoral" (5, 8, 30, 51-57, 137, 150, 194-195, 302, 325). Sem ela, a remoção das "estruturas obsoletas" (37, 45-50, 57-59, 137; cf. DA 172-173 e 365; Estudos da CNBB 104: 191; DGAE 100) não acontece. Acerca da vital "setorização" da paróquia observa: "Basicamente, a conversão pastoral da paróquia consiste em ampliar a formação de pequenas comunidades..." (8). As principais condições são: 1) uma percepção mais clara da índole comunitária da Igreja, tendo em vista a sua "revitalização" (3, 8-9, 27, 30, 34, 36, 38-44, 56, 103-105, 113, 126, 135, 139, 154, 168-173, 178, 256, 259, 289, 321-322); 2) uma pastoral mais voltada para uma decidida adesão pessoal à pessoa de Jesus e sua Palavra (30, 52, 61-62, 180, 185-189, 192, 269-271, 304, 319a e b); 3) uma espiritualidade verdadeiramente missionária (29, 31, 46, 50, 58-61, 151, 157, 165, 185-189, 194, 247, 254, 261, 297, 317-318, 319m, 323, 328; cf.DA 173). O que deve ser evitado, acima de tudo, é a paróquia "burocratizada" (37, 41, 48, 245, 262, 320). Evidentemente, todos estes fatores estão presentes e merecem ser colocados, mas eles não abordam a causa principal. Esta é de ordem institucional e não pessoal. De modo geral, os/as agentes pastorais que atuam nas paróquias têm trabalhado com muita competência e dedicação, fato reconhecido pela CNBB (32; Estudo 104: 179).
            O novo documento insiste numa tecla central: "setorizar" a paróquia, fazendo dela uma comunidade de comunidades. Convém lembrar aqui que, após Medellin (1968), o Brasil viveu um processo pastoral maravilhoso com a criação de dezenas de milhares de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Roma, porém, e parte dos nossos bispos, as combateram. Desde a década de 1980, o processo foi interrompido. O documento em análise, além de pouco falar do papel transformador das pastorais sociais, nitidamente evita a palavra CEBs e dedica a elas um espaço muito limitado (133, 228-230). Vê novamente a paróquia (com seus grupos) e não as CEBs como "célula inicial" da Igreja (124-128, 138, 152-153, 159-160, 165, 168-173, 177, 319; cf. AA 10; ChL 26; CDC 1917, cânon 215ss e CDC 1983, cânon 515; CIgC 2179; DA 170). Os documentos oficiais, hoje, as colocam em pé de igualdade com os movimentos e as pequenas e novas comunidades que foram surgindo nas últimas décadas (132-134, 231-236, 244-256; cf. DP 111 e 644; SD 58; DA 178-180; EG 29). No nosso entender uma postura equivocada. Num momento de reestruturação das paróquias é da maior importância estabelecer distinções muito claras. Por não haver espaço para isto neste artigo pretendemos fazer isso numa próxima oportunidade.
V O limite institucional das Campanhas de Fraternidade
            Pessoalmente temos participado intensivamente de todas as Campanhas de Fraternidade, desde o seu início em 1964. A relação "Igreja X Sociedade" sempre foi uma prioridade nossa. Teologicamente (e biblicamente) não há como sustentar uma Igreja voltada para si própria. Jesus, seguramente, via o Reino de Deus como um fermento que permeia todas as realidades. Quem sabe, agora que a Campanha adota o tema "Igreja/Sociedade" em sua globalidade, os limites institucionais da Campanha fiquem mais evidentes. Quais limites são estes?
5.1 O limite macroecumênico
            As Campanhas da Fraternidade nasceram com o espírito renovador do Concílio Vaticano II. O papa João XXIII acalentava o sonho de seu tempo: unir novamente todos os cristãos! Um cristianismo desunido (não-"católico") é uma contradição nos termos. Por isso, os textos-base das Campanhas sempre insistiram num esforço conjunto entre a Igreja Católica e as demais Igrejas (num espírito cada vez mais macroecumênico). Será que houve avanço? Na maioria dos lugares, nenhum! O mais comum é encontrar a simples desistência de perseguir o objetivo. Nas esferas mais altas, especialmente nos encontros de teologia e espiritualidade, tem havido avanço, mas Roma tem levantado sérias barreiras institucionais, e o movimento ecumênico, falando genericamente, parou. A nível local, nosso desafio real maior, hoje, é encontrar meios para atuar em conjunto com as Igrejas Evangélicas, mas haja criatividade! Aqui, na Região Norte Diadema, temos priorizado um "Fórum de Entidades" do qual participam, de forma inteiramente supra-partidária e supra-religiosa, os representantes das mais diversas entidades, religiosas ou não. Com a adesão de aproximadamente trinta entidades - das quais quinze são comunidades católicas - o êxito tem sido surpreendente. Além de uma caminhada ecológica anual, de conscientização popular, temos feito seminários significativos nas áreas de saúde, segurança e educação, com forte pressão sobre autoridades locais, metropolitanas e estaduais. Temos boa relação com alguns pastores evangélicos e fomos convidados para apresentar nossa proposta no Conselho Municipal dos Pastores  (são mais de cem somente na nossa área!). Mas apenas uma Igreja Evangélica participa do Fórum e está muito difícil avançar. Em princípio há boa vontade. O que impede os avanços são os limites institucionais: doutrinas demasiadamente rígidas, o estilo clerical do catolicismo, e um certo ar de superioridade que impede um diálogo efetivo.
5.2 O limite do clericalismo
            Nossa Igreja, com o passar dos séculos, se clericalizou de forma exagerada. Não foi assim na sua origem. Jesus, leigo, teve grande dificuldade com "os clérigos" do  seu tempo. Preferiu formar sua Igreja a partir de leigos comuns, confiando plenamente na força do Espírito em suas vidas. As primeiras comunidades cristãs tinham de fato este caráter. Os apóstolos, sem dúvida, constituíam os grandes símbolos da unidade entre os cristãos, mas, com o rápido crescimento das comunidades, muito cedo sua direção foi entregue a homens e mulheres "de boa reputação, e repletos do Espírito e de sabedoria" (Atos 6,3 e 13,1; 1Cor. 12). 
            Diversos fatores históricos explicam porque o magistério oficial da Igreja até hoje mantém uma separação muito radical entre os diversos ministérios leigos e o ministério ordenado. A distância entre "ser padre" e "ser leigo/a" é enorme.  O Vat. II, com a igualdade básica dos cristãos a partir do Batismo, abriu espaço para uma renovação na teologia dos ministérios, mas a Cúria Romana "não abre mão". De fato, observando a grande desunião e o "vale tudo" entre nossos irmãos separados, não podemos dizer que se trata de uma questão fácil de resolver.
            Seja como for, o exagerado clericalismo atual é um obstáculo sério para Campanhas de Fraternidade mais eficazes. Não havendo maior "espaço de decisão" para os/as leigos/as, como pedem os bispos, todas as iniciativas pastorais, não na teoria mas na prática, acabam dependendo dos padres. E os padres estão "superatarefados" com as questões internas da paróquia. Como desenvolver e articular uma pastoral voltada para a sociedade, quando quem decide não vive na sociedade, mas "no templo"? Falta muitíssimo para os/as leigos/as terem uma real "autonomia decisória". O clericalismo é um dos maiores entraves, também para o sucesso das nossas Campanhas de Fraternidade.
VI Bata na porta, e ela será aberta!
            O papa Francisco assumiu a Direção da Igreja num momento histórico particularmente delicado. Por toda parte surgem vozes (grupos de teólogos, párocos e leigos/as) que vão na direção de um rompimento com a instituição. A nível mundial, duas tendências são dominantes. Uma parte do mundo cristão desanimou da Igreja e entrou num processo mais radical de secularização. No norte europeu, igrejas católicas e protestantes são colocadas à venda às centenas. Outra parte também desanimou da Igreja Católica e, considerando-a por demais clerical e burocratizada, vai em busca de outra Igreja qualquer onde se sente, de forma mais explícita, a presença viva do Espírito. Ambas as tendências são fruto de uma Igreja-Instituição que não percebe suas próprias deficiências, ou, quando as percebe, tem medo. Ambas as tendências revelam também a profunda necessidade do ser humano de encontrar (em algum lugar) um “sentido além” para o seu viver. Afirma repetidamente o Documento 100 que a conversão pastoral da paróquia, mais do que novas estruturas, exige "uma nova atitude dos pastores, dos agentes de pastoral e dos membros das associações de fieis e movimentos eclesiais" (51, 54-55, 150, 204, 242, 260, 323). Na perspectiva de uma corajosa análise institucional, nos perguntamos: não será necessária também uma nova atitude dos nossos bispos?
Apesar de tudo, nós vemos o futuro com extremo otimismo. Não apenas a partir da “nova paróquia”, mas, antes, a partir da “nova instituição” que, a qualquer momento, pode surgir. Basta dar início à “reforma também institucional” de que falam tanto o Documento de Aparecida (367) quanto o Estudo da CNBB 104 (191) e a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (32). Dizem os entendidos que todas as reais mudanças vêm “de baixo”. Sociologicamente, sem dúvida. Mas, na Igreja, uma mudança real deve vir, antes de tudo, “de cima”.
            Nós não acreditamos na necessidade de rompimentos. Muito pelo contrário. Num espírito verdadeiramente eclesial e evangélico, ou mudamos juntos, ou é melhor aguardar o momento certo. Contudo, é preciso ter proposta e buscar o diálogo. No nosso entendimento, o ideal seria que a CNBB, ou, de preferência, a CELAM, convocasse um congresso de teólogos para discutir, fraternalmente, quais as reformas institucionais mais importantes para a Igreja hoje. As propostas receberiam a ratificação dos bispos, com as emendas consideradas necessárias. Sendo possível, a proposta poderia ser submetida ainda à apreciação dos diversos organismos eclesiais das Igrejas Particulares. Se todos os continentes fizessem o mesmo, o que seria conveniente, o papa Francisco teria em suas mãos um “sinal dos tempos” mais do que evidente. Quem sabe, a Cúria Romana possa, assim, ser sensível ao vento e ao fogo do Espírito, e abrir para a Igreja um futuro novo. Cremos que, em tempo surpreendentemente curto, o mundo inteiro captaria os sinais da “Nova Jerusalém” (Ap 21, 2). As autênticas forças espirituais do mundo inteiro – até do mundo secularizado! - receberiam de bom grado o apelo a uma maior unidade e, desde que respeitada a riqueza da diversidade, a semente do Reino daria frutos, cem por um. A “nova paróquia” só será possível nesse contexto institucional.

Endereço do autor: R. Juruá, 798 – Jd. Paineiras; 09932-220 Diadema SP; Email: nijlbakker@hotmail.com
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>

* Missionário do Verbo Divino, svd, formado em filosofia, teologia e ciências sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana.


            

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