quarta-feira, 8 de junho de 2016

REB, julho de 2013: A "nova paróquia" na "análise institucional" da Igreja

A “NOVA PARÓQUIA” NA “ANÁLISE INSTITUCIONAL” DA IGREJA
Pe. Nicolau João Bakker, svd*
Introdução:
            A 51ª Assembleia Geral da CNBB, realizada em Aparecida, de 10 a 19 de abril de 2013, priorizou o objetivo da “Nova Paróquia”. O documento inicial, ainda provisório, traz como tema: “Comunidade de Comunidades: uma Nova Paróquia”. Afirma o documento 104 da CNBB: “Este é um texto de estudo que tem por finalidade suscitar reflexões, debates e revisões da prática pastoral. Quanto mais membros de nossas comunidades puderem conhecê-lo e adaptá-lo aos diferentes contextos, mais chance se terá de obter êxito no processo de construção da nova paróquia” (5).
            Nosso intuito é colaborar com a reflexão solicitada. Visando uma profunda e “urgente” mudança na realidade paroquial (3; 129-133; 153; 237), os bispos se dirigem, especificamente, aos párocos e a todos os demais responsáveis, sacerdotes ou leigos/as, envolvidos na ação pastoral. Embora tenhamos sido, por diversos anos, professor de teologia pastoral no instituto de teologia dos religiosos, em São Paulo (ITESP), cremos dever falar mais a partir da prática. Não nos interessa uma análise puramente acadêmica. Carregamos sobre os ombros, à plena carga, o dia a dia da vida paroquial, rural e urbana, na quase totalidade dos nossos 50 anos de vida sacerdotal. Fomos obrigados a refleti-la em maior profundidade devido a tarefas complementares como coordenação pastoral e professorado. Por opção dedicamos também um tempo parcial ao estudo das ciências sociais, e a uma longa militância na área da justiça e paz, dos direitos humanos, da ecologia e do campo político. Nunca aceitamos o título de “pároco”, e nunca tomamos posse de nada, mas também nunca deixamos de ter como objetivo principal: a “nova paróquia”.
            Lemos, portanto, com o maior dos interesses o novo documento da CNBB. Trata-se de um documento de fôlego. Como é costumeiro em textos eclesiais, baseia-se quase exclusivamente em documentos anteriores da própria Igreja, neste caso em especial no Documento de Aparecida (da V Conferência Geral) e nas últimas Diretrizes Gerais (DGAE 2011-2015). Sem dúvida estão aí as principais fontes da caminhada pastoral dos últimos anos. Desde Santo Domingo (1992), a grande aposta da Igreja da Am. Latina e do Caribe está depositada na “nova evangelização”. De lá para cá, de concreto, porém, nada de realmente novo trouxe maior ânimo ao contexto pastoral. Antes o contrário. A euforia da renovação pós-conciliar e pós-Medellin arrefeceu com a assim denominada volta à grande disciplina. O novo rosto da Igreja com a teologia da libertação e a vitalidade das CEB´s perdeu seu brilho original. Nos últimos vinte anos perdemos vinte milhões de católicos, quase sempre para alguma Igreja Evangélica. Desde Aparecida (2007), a grande esperança para reverter a situação foi colocada numa ampla “missão continental” (doc. 88 da CNBB), a partir de um renovado ardor missionário, voltado ao encontro pessoal com quem tudo iniciou: Jesus Cristo. Agora, no documento em análise, os bispos constatam que a tão desejada “conversão pastoral” de Aparecida (DAp 365-372) custa a se concretizar. Existem “estruturas obsoletas” impedindo a missão (1; 110-113; 191-199). Há até um certo “pessimismo” no ar (242). Proposta de solução: a “nova paróquia”.
            O que pretendemos mostrar neste artigo é que a proposta da nova paróquia não vingará sem uma corajosa “análise institucional” da própria Igreja. Por mais importante que seja a renovação da paróquia, a causa do mal não está na estrutura paroquial, está na estrutura da Igreja como um todo. Ou se muda a instituição, ou nada de realmente significativo acontecerá.
I Uma boa “análise institucional” faz parte de uma ação bem planejada
            Nem todos estão familiarizados com o conceito de análise institucional. Na nossa realidade eclesial, o conceito é quase inexistente ou, onde existe, é inoperante. Uma das razões é que o conceito tem sua origem “no mundo”, no caso, o mundo das empresas, da sociedade civil, e do campo político. Normalmente vem associado à ideia de planejamento estratégico.  Esta forma de planejamento criou grande destaque nas décadas de 1980 e 1990. Na área da política de esquerda, um dos grandes incentivadores foi o Ministro da Economia do Governo Allende (Chile), Carlos Matus. Na área empresarial teve grande influência a Fundação Getúlio Vargas que organizou, em São Paulo, o primeiro Curso de Administração de Empresas (1954). Em apoio às organizações não governamentais da Sociedade Civil, criou, em 1994, também os CETS, Centros de Estudo do Terceiro Setor. A partir desta “virada” na administração pública e privada, as boas organizações da sociedade, tanto as da esquerda quanto as da direita, hoje adotam a “análise institucional” como parte integrante do seu planejamento. Antes de subir a montanha, o alpinista verifica bem seu estado físico e seu equipamento para não falhar na empreitada.
            Nas bodas de ouro do Concílio Vaticano II seria bom lembrar: a Igreja, além de divina, é humana. A salvação de Deus chega ao nosso mundo sempre de forma encarnada. Diferentemente de qualquer outra instituição da terra que, autonomamente, pode definir a sua “missão” e os seus objetivos, a Igreja “recebe” uma missão, e seus objetivos, em certa medida, vem “dados”. Ainda assim, como qualquer outra instituição humana, a Igreja deve colocar-se, sempre de novo, as mesmas perguntas: como entender esta missão hoje, e quais os objetivos específicos mais adequados para o mundo atual em acelerado processo de transformação? Desde o Vat. II, a Igreja do Brasil tem sido exemplar em seus processos de planejamento1. Nas últimas Diretrizes Gerais (doc. 94 da CNBB), em boa hora, foram melhor explicitados os “passos metodológicos”. O último passo trata da “renovação das estruturas”. Diz o texto (137): “Se não renovamos as estruturas e a própria instituição, o processo de mudanças, ao qual as ações se propõem perseguir, estará prejudicado, quando não estagnado”. À luz de Aparecida, diz o documento, devem ser repensados os organismos de articulação, os mecanismos de coordenação, os principais responsáveis e suas respectivas funções, etc. Tudo tendo em vista a “renovação da paróquia”. É exatamente desta preocupação que surge agora o novo documento da 51ª Assembleia da CNBB. Tudo perfeito, sem dúvida, menos o ponto ao qual nós damos o nome de “o grande silêncio”.
II A grande “conversão institucional” de que ninguém quer falar
            O Concílio Vat. II trouxe uma nova (mas também muito antiga) concepção de Igreja, passando de uma visão preponderantemente hierárquica para uma visão preponderantemente, digamos, “comunitária”, no sentido de povo de batizados, unidos em comunidade. Igreja é “povo de Deus, unido no Pai, Filho e Espírito Santo”, diz Lumen Gentium 4. Teologicamente, em cada Igreja Particular, unida a Pedro, se encontra o todo da Igreja. Por extensão, em cada comunidade menor, quando unida ao bispo, também. Não é este o momento para aprofundar esta eclesiologia. O ponto que queremos ressaltar é que, institucionalmente, como instituição também humana, a Igreja Católica, passados os primeiros séculos, nunca teve a coragem de por em prática esta sua própria teologia. É voz corrente entre os teólogos que não faltaram ao Concílio Vaticano II teólogos e bispos insistindo na necessidade de uma corajosa renovação institucional, adaptando as estruturas eclesiásticas ao novo espírito eclesial. De modo especial os bispos do “Pacto das Catacumbas” fizeram ouvir sua voz profética. Infelizmente, o momento histórico não o permitiu. Faltou coragem. Neste ponto, o bloco da tradição venceu.
            “O grande silêncio” surgiu poucos anos depois do Concílio. A “modernidade” que o Concílio assumiu derrubou muros e barreiras por toda parte. Roma se assustou com os novos ventos entrando pelas portas e janelas da Igreja. O papa Paulo VI já constatou que “a fumaça de Satanás” ainda estava presente. Também o papa João Paulo II andava desconfiado do que via nas suas andanças pelo mundo. Em 1985, no Sínodo em comemoração aos vinte anos do Concílio, a cúria romana, abertamente, puxou o freio de mão. Foi questionado o estatuto teológico das conferências episcopais, e, daí em diante, sua autonomia relativa – um dos grandes avanços do Concílio -, foi grandemente diminuída. Recentemente, o eminente teólogo brasileiro, Agenor Brighenti, em REB 288/2012, artigo ‘Sinodalidade eclesial e colegialidade episcopal – A relevância ofuscada das conferências episcopais nacionais’, demonstrou cabalmente o quanto esta nova postura da cúria não condiz com toda a história da Igreja. Não há dúvida que foram circunstâncias históricas muito desafiadoras que levaram Roma a uma fortíssima ação centralizadora, consagrada nos Concílios de Trento (1545-1563) e no Vaticano I (1869/70).
            No mesmo Sínodo de 1985, o futuro papa Bento XVI questionou o conceito “Igreja-Povo de Deus”, considerando-o de feição demasiadamente democrática. De fato, na Igreja, falando biblicamente, o poder não “emana do povo” – como se diz acontecer nas democracias -, mas de Deus. Ainda assim, o “poder” do Reino de Deus não se concretiza a não ser pelo serviço humilde e fraterno dos que se deixam guiar, livremente, por seu Espírito. Um dos grandes avanços do Concílio Vaticano II foi a recuperação teológica do “sensus fidelium” (LG 12 e 30). O Espírito Santo está presente e age, por igual, em todos os batizados (sem falar de sua presença fora dos limites eclesiais). Não dar vez à voz do conjunto dos fieis significa encarcerar o Espírito. Quando isto ocorre, a “des-graça” está por perto. Vejamos:
No início do segundo milênio, ainda em pleno predomínio da cultura imperial, Roma se fechou aos apelos por uma maior independência das Igrejas Orientais. A Igreja Católica (= Universal) então se dividiu, chaga até hoje não curada. No fim da Idade Média, mergulhada em vícios clericais de toda ordem, Roma, mais uma vez, se fechou aos apelos, desta vez, de poderosas forças espiritualistas presentes no interior da Igreja, clamando por maior autonomia leiga e fidelidade à Escritura. Como consequência, a Igreja Ocidental, gravemente desunida, lamenta até hoje o fato de não ter obedecido à vontade do Mestre, que rezou para que seus discípulos mantivessem a união. Agora, desde fins do segundo milênio, Roma, outra vez, passando por cima do Vat. II, se fecha aos apelos de incontáveis comunidades cristãs, católicas e protestantes, que clamam por maior autonomia local e maior abertura ao Espírito. Enquanto estas não vêm, as Igrejas Evangélicas (na verdade, Igrejas do Espírito) ocupam o espaço. O pentecostalismo, ainda em plena expansão, é o maior movimento missionário do último século.  
Quando falamos de um “grande silêncio” falamos do fato de pouca gente da Igreja fazer, corretamente, uma “analise institucional a partir de Roma”. Os teólogos (não tanto os da Am. Latina) até que falam, mas os bispos não. Contudo, são estes que, na atual estrutura institucional, têm o real poder de “tocar as trombetas”. Em Aparecida, os bispos falam da necessidade de “reformas...também institucionais” (367), mas não as explicitam. Nenhum documento eclesiástico fala a respeito. No novo documento, a CNBB pede estas reformas “com firmeza e rapidez” (191; cf. DGAE 34), mas limita-as à paróquia (191-199). Em nenhum momento os bispos se auto-avaliam como representantes primeiros da instituição. Falta coragem profética. Numa análise institucional, da forma como os especialistas entendem, uma das primeiras perguntas é a seguinte: a Direção da Instituição tem consciência e clareza das mudanças institucionais a serem feitas para que a Instituição continue fiel à sua Missão e seus Objetivos? Se a cúria romana se mantiver fiel à teologia clássica onde, tanto a doutrina revelada como também sua formulação temporária e sua concretização cultural, constituem verdades eternas e imutáveis, é evidente que nada pode mudar. Dispensa-se qualquer auto-avaliação. A estabilidade se impõe. Se, caso contrário, a cúria se abrir ao Vat. II e adotar o princípio de que existe “progressão” na compreensão da Palavra (DV 8) e que “uma coisa é a doutrina, outra a sua formulação” (cf. papa João XXIII na sessão inaugural do Conc. Vat. II), e, além do mais, adotar o princípio conciliar de que as autônomas realidades terrestres contêm “sinais do tempo” a serem interpretados por uma adequada hermenêutica teológica (GS 4), de tal modo que cada comunidade local, a qualquer tempo e em qualquer lugar, possa acolher alegremente a autêntica tradição cristã, então sim, a cúria, confiantemente, se abrirá ao Espírito e as coisas podem começar a andar. Uma correta análise institucional irá demonstrar quais as estruturas obsoletas que impedem os avanços a serem feitos.
Não pode haver dúvida que a estrutura mais obsoleta e asfixiante da Igreja é o sistema eleitoral do papa e dos bispos. Ela surgiu e está como está exatamente para nada mudar. Se o Espírito está verdadeiramente presente e ativo em todos os batizados, como justificar que eles não têm nenhuma influência sobre a escolha do seu Pastor, o Bispo Diocesano, aquele que exatamente expressa a unidade dos cristãos na Igreja Particular? Há algo ainda mais estranho. Como justificar que nem o conjunto dos agentes pastorais, nem o conjunto dos ministros ordenados, nem sequer o Conselho de Presbíteros, tem qualquer influência? E, se alguma consulta esporádica for feita, como justificar que o sacerdote consultado, “sub grave”, deve manter silêncio? Para a escolha do papa, idêntica reflexão pode ser feita. Em tudo reina o mais absoluto “corporativismo”. Transparência zero; colegialidade zero; confiança no Espírito zero. Uma flagrante discrepância entre teoria e prática eclesiais. Em termos de análise institucional, poucos exemplos podem ser mais significativos.
A esta altura da nossa reflexão gostaríamos de acrescentar uma ressalva. Não nos consideramos um “rebelde sem causa” na seara do Mestre. Temos perfeita consciência da necessidade de Roma manter certos cuidados. O processo cultural da Modernidade, no nosso entender, ainda não se esgotou. Não há dúvida que existe nele uma forte tendência para uma relativização sem critério. Intelectualmente, o ser humano não é o que pensa ser. O cérebro humano não foi feito para descobrir “verdades”. De fato, um prolongado contexto cultural o leva facilmente a grandes equívocos. Evolutivamente, o cérebro se desenvolveu como mecanismo de adaptação ao meio ambiente, a sobreviver da melhor forma, biológica, social e espiritualmente. Seria idolátrico o magistério (a qualquer nível de Igreja) colocar-se no lugar de Deus, proclamando verdades eternas. Cabe-lhe, isto sim, confrontar o novo com a riquíssima tradição cristã do passado. Sem anátemas ou inquisições, pois ninguém é dono ou dona do Espírito. O que está em jogo é a própria “Vida”. Sem adaptação ao novo, a vida morre.
III A “Nova Paróquia” na perspectiva da análise institucional
            Continuemos a nossa análise institucional, olhando agora mais de perto para a nova paróquia. O documento da CNBB inicia com dois capítulos que a colocam na perspectiva bíblica e na perspectiva teológica. Estranhamos um pouco a metodologia muito questionada de iniciar com a doutrina (5; cf. DGAE 4). Os documentos episcopais que mais animação trouxeram à Igreja foram os documentos de Medellin (1968) e Puebla (1979), que partiram da realidade. O assunto já foi bastante discutido. Nós entendemos que, de certa forma, a doutrina sempre se antecipa à prática. Mas, se o Concílio está certo em afirmar que é na realidade que descobrimos os sinais de Deus, não olhar atentamente para ela levará facilmente a práticas eclesiais equivocadas. Por isso, o documento em análise diz: “Conhecer a realidade das comunidades paroquiais é determinante para identificar caminhos possíveis para a renovação paroquial e a consequente revitalização das comunidades cristãs” (89). Em Aparecida tentou-se partir da realidade, mas uma mão misteriosa fez precedê-la por um capítulo doutrinal. Não podemos afirmá-lo, pois também aí falta transparência, mas desconfiamos que seja imposição de Roma. Desde Santo Domingo vemos a mesma tendência. Nas últimas Diretrizes Gerais, a metodologia doutrinal é evidente. No nosso entender, a maior desvantagem dela é que tende a perpetuar concepções e formulações que são, na verdade, temporárias, deixando de captar o que é realmente essencial e prioritário na vivência do Reino. Ou então, encontra as prioridades apenas dentro da própria instituição. As últimas Diretrizes e todas as suas “urgências”, de fato, pela primeira vez, são todas elas extremamente eclesiocêntricas! Numa correta análise institucional, o foco principal está sempre na missão a cumprir. Em cada planejamento, a instituição se auto-avalia para verificar em que ponto (coordenação, formação, gerenciamento, clima de satisfação, delegação de responsabilidades, etc.) deve mudar para que a Missão se fortaleça. Um dos fatores que deve ser analisado com especial carinho é a integração entre os diferentes níveis de organização na instituição. Todos dependem uns dos outros.
            Não é diferente numa instituição de amplitude mundial como é a Igreja. Cada Igreja Particular, sem dúvida, tem certa margem de manobra, podendo desenvolver planos diocesanos perfeitamente factíveis e úteis. O que não terá condição de fazer é mudar, sozinha, as estruturas que sustentam o todo da instituição. Ainda mais quando estas estruturas estão solidamente codificadas num Direito Canônico de pretensão universal. Infelizmente, a reforma canônica de 1983 foi apenas cosmética. O documento da CNBB sobre a “nova paróquia” insiste na remoção de suas “estruturas obsoletas” (1; 69-70; 109-113; 191-199; cf. DAp 172-173; DGAE 100). Não fica muito claro em que existe exatamente o obsoletismo da mesma, mas insiste-se, ao longo de todo o documento, na transformação da paróquia em “comunidade de comunidades”, mediante uma melhor “setorização”, uma maior “integração” entre comunidades, movimentos e grupos (paroquiais ou supraparoquiais), e por uma “revitalização” do espírito comunitário (2-4; 65-72; 83-87; 111-112; 153-170; 174; 176; 184; cf. SD 58; DAp 170-177 e 309; DGAE 98-105). Palmas! Perfeito! Mas qual a novidade? É exatamente o que nós, agentes pastorais comuns (leigas/os, religiosas/os e sacerdotes) estamos fazendo desde que a CNBB lançou o primeiro “Plano de Emergência” (1962/65), pedindo para transformar a paróquia em “comunidades de fé, culto e caridade”. Tivemos o privilégio, na época, de trabalhar no Vale do Ribeira (estado de São Paulo), hoje Diocese de Registro. Talvez tenha sido a primeira Diocese brasileira que, já na década de 1960, adotou uma estrutura inicial de CEB´s, e isto em todas as suas paróquias. De lá para cá não conhecemos outra realidade. Atualmente trabalhamos numa paróquia recém-instalada da Diocese de S. André SP. Não tem nem sequer igreja-matriz. Apenas sete comunidades de bairro, uma ainda na tradicional fase de “garagem”.
Porém, algo deve ser dito: o processo de criação de comunidades (e seus inúmeros subgrupos), desde as décadas de 1980/90, estancou. E não por falta de boa vontade dos leigos/as, religiosos/as ou padres. No documento em análise, os bispos percebem causas que têm a ver com uma inadequada formação teológica e uma insatisfatória espiritualidade nos/as agentes pastorais paroquiais. Estariam faltando: 1) uma percepção mais clara da índole comunitária da Igreja (6-10; 19-20; 36; 43; 54; 58-72; 92; 104; 134-141; 158; 169; 213-215; 238-239; cf. DAp 154-163; DGAE 56-64; 98-105); 2) uma pastoral mais voltada para uma decidida adesão pessoal à pessoa de Jesus e sua Palavra (3; 42; 54; 115; 137; 142-145; 169; 172-174; 178; 210; 221; 236; cf. DAp 129-148; DGAE 4); 3)  e uma espiritualidade verdadeiramente missionária (1; 21-26; 37-38; 54; 90-91; 174; 176-178; 195; 198-199; 202; 205-206; 237; cf. DAp 201-204; 209-215; 284-285; DGAE 26). Haveria, portanto, necessidade de uma autêntica “conversão pastoral” (1; 92; 113; 129; 168; 170-190; 192; 242; cf. DAp 365-372; DGAE 370). Evidentemente, todos estes fatores estão presentes e merecem ser colocados, mas eles não abordam a causa principal. Esta é de ordem institucional e não pessoal. De modo geral, os/as agentes pastorais que atuam nas paróquias têm trabalhado com muita competência e dedicação, fato reconhecido pelo próprio documento (179).
Vale a pena recordar aqui o que o Pe. Edênio dos Reis Valle, svd, conhecido psicólogo e ex-presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), escreveu a respeito em Convergência 437/2010, artigo Estresse ou fadiga de compaixão nos(as) religiosos(as) de hoje? Uma pesquisa, ele relata, realizada pela International Stress Management Association (ISMA-Br), de Porto Alegre, revelou que, entre as categorias profissionais sujeitas a um estresse permanente, os padres e as freiras estão no topo da lista. Chega a 25%, logo acima dos policiais que enfrentam bandidos na rua (23%)! Somando todas as (inúmeras) tarefas que o documento coloca sobre os ombros dos poucos padres e irmãs disponíveis, a porcentagem deverá subir. É preciso que o “andar de cima” na instituição se dê conta do fato.
É impossível esperar grandes resultados sem uma mexida corajosa nos ministérios da Igreja. A experiência eclesial dos ministérios leigos na tradição latino-americana tem sido muito rica, mas “a instituição” impõe limites severos. As exortações episcopais (112; 156; 187-190; 216-220; 237) são generosas. Ainda assim, diante do ministério ordenado, todos os demais ministérios leigos não ultrapassam muito o grau de “coroinha”. Há ainda a desigualdade (muito pouco evangélica) entre homem e mulher (218), além de proibições canônicas e litúrgicas que contrariam o bom senso pastoral. O documento comenta o “direito à Eucaristia” das comunidades (146-149). Haja celebrante! Em muitos locais entre nós, nem na Páscoa! Não há impedimento teológico, nem pastoral, para que este sonho se torne realidade. Nas nossas comunidades (ou paróquias) são milhares as pessoas disponíveis (leigos e leigas) e qualificadas (ou a serem qualificadas). Basta a direção da Igreja (nos diversos níveis) perder o medo e confiar no Espírito! Como fez Jesus. É tão simples assim. Uma das perguntas tradicionais da análise institucional é esta: a Direção da Instituição fornece as condições e os recursos para que os diferentes níveis da instituição possam cumprir adequadamente a sua parte na missão proposta? Devemos ser sinceros: infelizmente não!
IV Bata na porta, e ela será aberta!
            O novo papa Francisco assume a Direção da Igreja num momento histórico particularmente delicado. Por toda parte surgem vozes (grupos de teólogos, párocos e leigos/as) que vão na direção de um rompimento com a instituição. A nível mundial, duas tendências são dominantes. Uma parte do mundo cristão desanimou da Igreja e entrou num processo mais radical de secularização. No norte europeu, igrejas católicas e protestantes são colocadas à venda às centenas. Outra parte também desanimou da Igreja Católica e, considerando-a por demais clerical e burocratizada, vai em busca de outra Igreja qualquer onde se sente, de forma mais explícita, a presença viva do Espírito. Ambas as tendências são fruto de uma Igreja-Instituição que não percebe suas próprias deficiências, ou, quando as percebe, tem medo. Ambas as tendências revelam também a profunda necessidade do ser humano de encontrar um “sentido além” para o seu viver.
Apesar de tudo, nós vemos o futuro com extremo otimismo. Não apenas a partir da “nova paróquia”, mas, antes, a partir da “nova instituição” que, a qualquer momento, pode surgir. Basta dar início à “reforma também institucional” de que falam tanto o documento de Aparecida (367) quanto o novo documento da CNBB (191). Dizem os entendidos que todas as reais mudanças vêm “de baixo”. Sociologicamente, sem dúvida. Mas, na Igreja, uma mudança real deve vir, antes de tudo, “de cima”.
            Nós não acreditamos na necessidade de rompimentos. Muito pelo contrário. Num espírito verdadeiramente eclesial e evangélico, ou mudamos juntos, ou é melhor aguardar o momento certo. Contudo, é preciso ter proposta e buscar o diálogo. No nosso entendimento, o ideal seria que a CNBB, ou, de preferência, a CELAM, convocasse um congresso de teólogos para discutir, fraternalmente, quais as reformas institucionais mais importantes para a Igreja hoje. As propostas receberiam a ratificação dos bispos, com as emendas consideradas necessárias. Sendo possível, a proposta poderia ser submetida ainda à apreciação dos diversos organismos eclesiais das Igrejas Particulares. Se todos os continentes fizessem o mesmo, o que seria conveniente, o papa Francisco teria em suas mãos um “sinal dos tempos” mais do que evidente. Quem sabe, a cúria romana possa, assim, ser sensível ao vento e ao fogo do Espírito, e abrir para a Igreja um futuro novo. Cremos que, em tempo surpreendentemente curto, o mundo inteiro captaria os sinais da “nova Jerusalém” (Apoc 21, 2). As autênticas forças espirituais do mundo inteiro – até do mundo secularizado! - receberiam de bom grado o apelo a uma maior unidade e, desde que respeitada a riqueza da diversidade, a semente do Reino daria frutos, cem por um. A “nova paróquia” só será possível nesse contexto institucional.
Pentecostes 2013

1) Apresentamos um esboço geral deste processo em REB 287/2012, artigo Planejamento pastoral: transformar sonhos em realidade.

Endereço do autor: R. Juruá, 798 – Jd. Paineiras; 09932-220 Diadema SP; Email: nijlbakker@hotmail.com
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>

* Missionário do Verbo Divino, svd, sacerdote, formado em filosofia, teologia e ciências sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Em São Paulo atuou também como educador no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP/CL), coordenando o programa de formação de lideranças eclesiais e o de combate à violência urbana. Lecionou Teologia Pastoral no ITESP (Instituto de Teologia / SP). De 2000 a 2008 foi auxiliar na pastoral e vereador, pelo PT, no município de Holambra SP. Representa a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita/SP). Atualmente atua na pastoral paroquial de Diadema SP. Além de cartilhas populares publicou diversos artigos pastorais em REB, Verbum, Vida Pastoral e Grande Sinal.


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