sexta-feira, 24 de junho de 2016

Convergência, setembro de 2016: Sobre Marx, Piketty e os lírios do campo

Sobre Marx, Piketty e os lírios do campo

Pe. Nicolau João Bakker, svd*
Introdução:
                Marx dispensa apresentação, mas Piketty, para o público da Igreja em geral, ainda é um tanto desconhecido. Precisamos apresentá-lo brevemente. Trata-se de um economista francês que, em 2013, publicou o surpreendente livro O Capital no Século XXI que, imediatamente, tornou-se o best-seller do ano. "Um livro fantástico" observou o Prêmio Nobel americano, Paul Kruger. "Extraordinária pesquisa histórica" acrescentou o conhecido economista brasileiro, Antonio Delfim Netto. O famoso diário inglês, The Guardian, não deixou por menos: surgiu "o rock star da economia", sentenciou.
                E nós, religiosos, religiosas, padres, leigos ou leigas da Igreja, temos algo a ver com isso? Sim, muito. É a razão do nosso artigo. Assim como Karl Marx, economista do século XIX, teve grande influência sobre o pensar e o agir das diferentes sociedades, assim também Thomas Piketty terá forte influência sobre o pensar e o agir das sociedades nas próximas décadas. Nunca devemos esquecer que o sistema econômico de uma sociedade constitui o "eixo" a partir do qual as engrenagens sociais se movimentam. Todas as instituições de uma sociedade podem ser analisadas a partir deste eixo, inclusive a Igreja, a Vida Religiosa, e a Pastoral. Qual a ânsia mais profunda que habita os seres vivos na opinião dos biólogos evolucionistas? Simplesmente: viver, conviver e sobreviver da melhor forma possível! Quando Richard Dawkins escreveu seu livro O gene egoísta (1976), ele deixou claro que, em qualquer espécie viva, os genes egoístas e altruístas se articulam entre si para preservar a "Vida". Com base nesta ânsia biológica, as sociedades se organizam e "se institucionalizam" para obterem êxito. Hoje, a Economia e a Política são as expressões laicas deste anseio humano. As diferentes espiritualidades humanas e as instituições "eclesiais" são sua expressão religiosa. No Concílio Vaticano II, a Igreja se conformou com a direção laica do mundo, mas não deixou de afirmar que a Igreja está aí para indicar o rumo (GS 73-76).
                Também a Vida Religiosa está aí para oferecer "vida plena" ao mundo (Jo 10,10). Será que Piketty tem algo a contribuir? Logo mais o veremos. Quanto a Marx, todos sabemos que, fazendo da religião um ópio, ele se tornou, por muito tempo, o inimigo no 1 da Igreja. Hoje, um século e meio depois, o julgamento é, digamos, mais matizado. Não se pode negar que também Marx - como nós - sonhava com o que ele dizia ser o "Homem Novo". Também ele se batia por uma Nova Sociedade. Como, na época, as espiritualidades reinantes se voltavam quase que exclusivamente para o cuidado da alma ou do espírito, Marx tachou a Igreja de alienada... não sem um bocado de razão. Vivesse hoje, na América Latina, talvez pudesse ser um companheiro de caminhada. Sua análise econômica (e política), no entanto, foi muito perspicaz. Piketty mostrará alguns equívocos, mas não o supera. Veremos que a ambos faltou entender melhor porque os insignificantes lírios do campo se vestem tão bem.
I Qual a análise que Piketty faz do capitalismo?
                Durante quinze anos, com diferentes equipes altamente especializadas, Piketty pesquisou, passo a passo, a evolução do capitalismo dos últimos trezentos anos, utilizando para isso as fontes mundiais mais confiáveis. Traz todos os resultados em gráficos e tabelas que, além de muito didáticos, são também muito consistentes. É difícil contestar esses dados objetivos. Como aborda um amplo período histórico iremos nós também apresentar a tese de Piketty de acordo com fases históricas específicas, mas, antes, devemos, por algum momento, entrar na sala de aula e aprender com Piketty o que é "renda nacional". A renda nacional se divide, tradicionalmente, em "renda do capital" e "renda do trabalho". Quem tem um capital, seja uma terra produtiva, um imóvel, uma fábrica, um equipamento, ou então um capital meramente financeiro, como depósitos bancários, fundos de aposentadoria, ações, juros, títulos públicos ou privados, dividendos, etc., sempre terá a possibilidade de fazer o capital render alguma coisa. Somando a renda anual de todos os proprietários de capital de um país obteremos a "renda do capital" daquele país. Por outro lado, quem não vive de capital, vive de salário. Somando o valor de todos os trabalhos assalariados (incluindo trabalhos não assalariados), obteremos a "renda do trabalho" do país. Juntando capital e trabalho teremos a "renda nacional" (não incluímos a "renda externa líquida" por ser em geral insignificante). Muito bem. Vejamos agora o que nos mostram os gráficos de Piketty.
1.1 O capitalismo antes da Primeira Guerra Mundial (até 1914)
                Piketty mostra que, na época de Marx, e até a Primeira Guerra Mundial, a renda nacional estava extremamente concentrada nas mãos de poucos possuidores de capital. Na Europa em geral, em 1910, o estoque do capital nacional, a preço de mercado, valia a soma de seis a sete anos de renda nacional. Um patamar nunca mais visto. As rendas do capital (exclusivamente) representavam de 35 a 40% da renda nacional, e a renda do trabalho de 60 a 65%. O capital pode ser dividido entre público e privado. No caso, estamos apenas falando do capital privado. Marx não pôde fazer uma análise de longo prazo, mas via muito bem o fortalecimento do capitalismo industrial de seu tempo e o baixíssimo nível dos salários, então estagnados. Se olharmos para a riqueza em geral, incluindo também as heranças recebidas no passado, os 10% mais ricos da população possuíam até 90% da riqueza total do país (ficando 50 a 60% disto apenas para o centésimo - o "1%" - superior). Resumindo: não existia uma classe média, uma vez que a quase totalidade da riqueza estava nas mãos de poucos abastados.
1.2 O capitalismo no tempo das duas Guerras Mundiais (1914-1945)
                A partir da Primeira Guerra Mundial, o capitalismo europeu muda, significativamente, de fisionomia. O valor do estoque do capital privado nacional despenca, algo jamais imaginado por K. Marx. Se antes valia entre seis e sete anos de renda nacional, em 1945 valia apenas entre dois e três anos, dependendo do país. O patamar mais baixo da história. A renda do capital que antes representava em torno de 35 a 40% da renda nacional baixou para menos de 20%, e a renda do trabalho subiu de 60 a 65% para quase 80%. Olhando novamente para a riqueza em geral podemos observar que os 10% mais ricos da população que antes possuíam até 90% da riqueza total, agora possuem por volta de 75% (o centésimo superior, sozinho, 30%!). O que mais chama a atenção é o valor do estoque do capital nacional que baixou violentamente. O que aconteceu? Evidentemente, as duas guerras fizeram um grande estrago, mas não foi somente isso. A crise da bolsa, em 1929, baixou o valor das ações, a revolução bolchevique (1917) criou insegurança, e os sindicatos se tornaram mais fortes. O fator principal, porém, foi o fato de os países introduzirem, na primeira metade do século XX, um forte imposto progressivo sobre a renda. É preciso prestar atenção a este fato, porque é o que, até certo ponto, "controla" o capital (ou o capitalista) de forma permanente, sem interferência dos imprevistos históricos. Resumindo: o capital balançou e o trabalho mostra a cara.
1.3 O capitalismo nos "Trinta Anos Gloriosos" (1945-1975)
                Durante quase dois séculos, os economistas (e os políticos) se posicionavam em dois campos opostos: ou se era um liberal ou se era um marxista. Deu na "guerra fria" da qual os mais idosos, ou idosas, entre nós ainda se lembram. Não que não houvessem vozes divergentes, mas elas eram pouco ouvidas. Depois da Segunda Guerra Mundial, porém, entre 1945 e 1975, surgiram na Europa - para facilitar a compreensão ficamos com o exemplo europeu, embora Piketty mostre muitas outras realidades - os assim denominados "Trinta Gloriosos" que deram aos países europeus um novo rosto. Foi quando o capitalismo industrial realmente se generalizou, criando raízes profundas. Se o crescimento anual médio da economia por habitante, normalmente, não passava de 1 ou 2%, nos Trinta Gloriosos alcançou de 3 a 4% (1950-1970). Essa pequenina diferença nos números representa, no longo prazo, uma enormidade em recursos a mais para os países em questão. Novas tecnologias e uma educação generalizada geraram um aumento constante na produtividade, o que possibilitou uma melhor distribuição dos lucros, também fruto de um operariado mais aguerrido. Já vimos que a crise da bolsa de Nova York e as duas guerras mundiais, entre outros, ensinaram aos países o caminho do imposto progressivo sobre as rendas. Além do mais, a forte inflação engoliu boa parte das imensas dívidas públicas do pós-guerra. Tudo colaborou para o surgimento do tão falado Well-fare State (Sociedade do Bem-Estar social) europeu. Para muitos, o capitalismo se tornou, definitivamente, a única proposta séria. Com um pouco de presença do Estado (alguma estatização, impostos progressivos, e apoio bancário especial nas crises), tudo estaria resolvido da melhor forma para sempre.
                Vejamos o que nos mostram os gráficos de Piketty sobre este período: o valor do capital privado subiu de 2 anos de renda nacional para 2,5 anos de renda nacional; a renda exclusiva do capital na renda nacional sobe para 21% e a renda do trabalho desce para 79%. O décimo superior das altas rendas detinha 75% da riqueza total do país em 1945 e um pouco mais de 60% em 1975. Aparentemente oscilações modestas. Qual então a grande novidade? A novidade é que, neste período, mesmo mantendo-se a renda do trabalho perto dos 80%, houve uma forte diminuição da desigualdade entre os trabalhadores. Veja isto melhor no próximo tópico.
1.4 A evolução recente do capitalismo (1975 até hoje)
                O capitalismo mundial passou por uma grande "virada" a partir da década de 1970. A Europa em geral entrou num longo processo de estagflação (estagnação + inflação), convencendo muitos economistas (e políticos) que algo estava errado. Criou-se forte ojeriza à presença do Estado na economia. Os governos Thatcher/Reagan introduziram a nova onda neoliberal, com forte redução de impostos e uma liberalização generalizada das restrições ao capital (em especial ao capital financeiro globalizado). Os gráficos de Piketty mostram que, neste novo período, o valor do capital privado sobe de 2,5 para 4 a 6 anos de renda nacional, dependendo do país, com clara tendência de subir ainda mais nas próximas décadas. Nos países desenvolvidos em geral, a renda do capital se estabiliza agora em 30% da renda nacional e a renda do trabalho em 70%. Observa Piketty: "O desenvolvimento de uma verdadeira 'classe média patrimonial' constitui a principal transformação estrutural da distribuição da riqueza nos países desenvolvidos no século XX". E: "Estamos assistindo à volta triunfal do capital privado nos países ricos desde os anos 1970, ou, mais do que isso, ao ressurgimento de um novo capitalismo patrimonial." Se em 1910 os 10% mais ricos da Europa detinham a quase totalidade da riqueza nacional (até 90%), em 2010, o décimo superior possuía 60% da riqueza total (o centésimo superior, sozinho, 25%!), o grupo do meio quase 35%, e os 50% mais pobres algo pouco acima de 5%. Diz Piketty: "A metade inferior da população dos países desenvolvidos é tão pobre hoje quanto era no passado." Nos Estados Unidos, a desigualdade é ainda maior, ficando os 50% mais pobres com miseráveis 2% (o décimo superior com 72%!).
                Falando somente da renda do trabalho, Piketty faz distinção entre desigualdade baixa, média e alta. Como exemplo de desigualdade baixa cita o caso dos países escandinavos de 1970-1980, para desigualdade média a Europa (2010), e para desigualdade alta os EUA (2010). Os resultados são os seguintes: os 10% mais ricos dos países escandinavos recebem  20% da renda do trabalho (o 1% mais rico 5% e os 9% seguintes 15%); na Europa, os 10% mais ricos recebem 25% (o 1% mais rico 7% e os 9% seguintes 18%); nos EUA, os 10% mais ricos recebem 35% (o 1% mais rico 12% e os 9% seguintes 23%). Os 40% do meio recebem 45% nos países escandinavos, 45% na Europa e 40% nos EUA. Os 50% mais pobres recebem 35% nos países escandinavos, 30% na Europa e 25% nos EUA.
                Um/a observador/a menos atento/a poderia pensar: se os capitalistas (em geral) ficam com 30% da renda nacional, ainda sobram 70% para quem vive do trabalho. Nada mal! Na verdade, nada mais enganador do que isso. Trata-se sempre de um pequenino grupo de capitalistas que enriquece muito, em oposição a uma imensa maioria que apenas vê o navio passar. Piketty tem o grande mérito de mostrar, com dados convincentes, a grande e crescente disparidade entre os possuidores do capital, como também entre os possuidores dos salários. Em 1987, os bilionários eram cinco em cada cem milhões de habitantes adultos do mundo; em 2013 eram trinta. Estão sentados sobre pilhas e pilhas de dinheiro, investidas frequentemente em especulação financeira sem nenhuma relação com qualquer produção significativa. Nos EUA, um grande grupo, publicamente, fez um apelo ao Presidente Obama para aumentar seus impostos, sinal evidente da anormalidade da situação. No mundo do trabalho, o centésimo ou milésimo superior, em geral executivos das grandes corporações ou "experts" de grandes fundos de investimento, chegam a ganhar facilmente cem vezes mais do que a média salarial do país. Isto sem relação alguma com um suposto (ou alegado) aumento de produtividade útil. O sistema "enlouqueceu", diz Piketty. A perspectiva de futuro é especialmente alarmante se levarmos em conta que, de 1987 a 2013, as maiores riquezas mundiais cresceram, em média, já descontada a inflação, 6-7% ao ano, contra 2,1% ao ano para a riqueza média mundial por habitante adulto.
II Entre Marx e Piketty, com quem ficamos?
                No século XIX, o século de Karl Marx, o capitalismo industrial se espalhou por toda a Europa, dando altos lucros aos capitalistas, enquanto os salários, extremamente baixos, ficaram estagnados. Não é preciso entrar em detalhes, todos sabemos das péssimas condições de trabalho na época. Marx, observador atento da situação, chegou à seguinte conclusão: os capitalistas estão criando os seus próprios coveiros! A concorrência entre os proprietários do capital os obriga a procurar os mais altos lucros possíveis, e o caminho mais óbvio é baixar os salários o mais que puderem. O resultado final de tudo isso só pode ser um grande confronto entre proprietários e trabalhadores. Mais cedo mais tarde ocorrerá a revolução operária, e então surgirá uma Nova Sociedade, sem exploração do ser humano. Marx não teve o mesmo privilégio de Piketty de poder fazer uma análise de longo prazo, nem teve às mãos a mesma quantidade de dados objetivos. Percebeu o processo permanente de acumulação do capital mediante os lucros, mas não podia imaginar o aumento permanente da produtividade com sua possibilidade de distribuir os lucros entre faixas cada vez mais amplas da população operária. Marx também não podia prever o surgimento de um Estado Social mediante a aplicação sistemática de impostos progressivos sobre as rendas e a criação de políticas públicas generalizadas.
                Em O Capital no Século XXI, Piketty reúne uma quantidade impressionante de dados históricos e elabora uma proposta diferente de Marx. Diz, explicitamente, que muito cedo foi vacinado contra a falácia dos economistas marxistas que, ao invés de partir de dados objetivos, se prendem à ideologia. Não questiona os eventuais altos lucros, nem o mercado livre. Pelo contrário, saúda-os como necessários e indispensáveis. Até as desigualdades sociais são bem-vindas, desde que "fundadas na utilidade comum", conforme a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa (1789). Para o autor, o Iluminismo e a Modernidade deram ao mundo ocidental os valores da democracia (em especial a democracia "meritocrática") e da  justiça social que devem ser prestigiados. Mas como harmonizar o mercado livre e a justiça social no contexto de uma "acumulação infinita" do capital? Esse é o ponto central do livro. Piketty observa que Marx errou ao falar dos coveiros, uma vez que o capitalismo não entrou em colapso. Muito pelo contrário, está hoje mais forte do que nunca. Mas Marx acertou, ele diz, quando afirma que o capital tende a uma acumulação sem limites. Diversas vezes Piketty faz questão de observar que não existem mecanismos naturais dentro do sistema capitalista que vão na direção de uma superação espontânea das desigualdades. Em seus gráficos encontramos a presença constante de uma "linha em forma de U": antes da Primeira Guerra Mundial, uma linha reta, lá nas alturas, quando o capital alcança sete anos de renda nacional; em seguida uma forte queda com a vinda da crise da Bolsa, das guerras, do estatismo e dos impostos altamente progressivos; e a partir de 1950 uma nova tendência ascendente com a linha agora já beirando os seis anos de renda nacional. Só existem forças "externas" para controlar a voracidade do capital, afirma Piketty.
                É justamente aí que entra sua proposta central de um "imposto progressivo sobre o capital". O autor lamenta o atual "extremismo meritocrático" e o abandono dos pesados impostos progressivos sobre a renda a partir da introdução da economia neoliberal. Especialmente nos países anglo-saxões, esses impostos chegaram a 90%, justamente os países que agora mais os rejeitam. Além do imposto progressivo sobre as rendas, o autor insiste no aperfeiçoamento do imposto sobre a herança. Particularmente no contexto de uma quase estagnação do crescimento populacional, as heranças recebidas (contra o espírito da democracia meritocrática que valoriza o fruto do trabalho) representam parte crescente da riqueza nacional. Mas Piketty insiste especialmente no imposto progressivo sobre o próprio capital, a fim de impor controle sobre sua acumulação sem fim. O autor reconhece a grande dificuldade de sua aplicação concreta, uma vez que a maior parte do capital não é mais constituída, como antes, de capital imobiliário, mas de um capital financeiro que não obedece a limites geográficos. Uma pesquisa recente indica que em torno de 10% destes ativos se encontram em paraísos fiscais, fora da legalidade. Por isso, Piketty insiste na imperiosa necessidade de uma legislação mundial (ou ao menos leis continentais), com um cadastro fidedigno das riquezas individuais e declarações de renda dentro da realidade. Tudo isso requer um avanço enorme em gestão democrática, com total transparência, inclusive governamental e bancária.  
                Quais os dados objetivos que, na opinião do autor, comprovam a acumulação infinita do capital, algo que Marx também defendeu, embora de forma mais intuitiva? Entremos na sala de aula de Piketty mais uma vez. Seu argumento mais comum é definido como ”r > g", onde r representa a taxa média do "rendimento" (ou retorno) do capital (antes dos impostos) e g a taxa média de crescimento econômico por habitante. Cada vez que a taxa média de rendimento do capital num determinado país é maior que a taxa média de crescimento econômico por habitante, o capital daquele país se acumula nas mãos dos capitalistas. Pode haver enorme diversidade no rendimento dos diferentes proprietários (e até prejuízos), mas o conjunto dos capitalistas, em média e a longo prazo, aufere uma parte cada vez maior da renda nacional. Qual a força das pesquisas de Piketty? Elas demonstram que, em todos os países e em qualquer época, as taxas médias de rendimento do capital, mesmo descontados os impostos, sempre foram maiores do que as taxas médias do crescimento econômico. Portanto, apenas fatores externos e impostos podem impor um controle  ao sistema. O controle mais eficaz, para Piketty, é um imposto progressivo sobre o capital de qualquer origem.   
III Sobre Jesus e os lírios dos campos.
                Depois de dialogar exaustivamente com Marx e Piketty, vem agora a incômoda pergunta: e nós com isso? Qual a mensagem que estes autores trazem para a Vida Religiosa, a Igreja, a Pastoral? Iniciemos pelo seguinte ponto: se nossa missão principal, de fato, é "dar vida" ao mundo, e "vida em abundância" como Jesus afirmava, então devemos em primeiro lugar entender o nosso mundo. É preciso saber como ele funciona, o que o faz prosperar, e também o que pode causar-lhe dano. Mais acima já falamos que a economia é o "eixo" do mundo. Não conhecemos o mundo se não conhecemos o eixo que o faz girar. Tudo isso é mais importante ainda se queremos realmente "dar rumo" ao nosso mundo. É o que a Igreja, no seguimento de Jesus,  sempre pretendeu fazer, e é o que o Vaticano II pede explicitamente à Igreja e à Vida Religiosa. Na verdade, não somos nós que escolhemos o rumo. Quem dá o rumo é o próprio Jesus Cristo, mediante sua Palavra e seu Espírito.
                Mas, será que são realmente os economistas que entendem o nosso mundo? Marx, sem dúvida, foi um economista perspicaz que percebeu muito bem com quantos paus se faz uma canoa. Percebeu, principalmente, que quem não tem a madeira não faz canoa alguma. Mas a visão de Marx estava limitada ao olhar do tempo. Piketty mostra alguns dos seus equívocos. Piketty cita também outros economistas que tiveram grande influência. Simon Kuznets (†1985), filho dos "Trinta Gloriosos", em Shares of Upper Income Groups in Income and Savings (1953), defendia que bastava ter paciência e esperar que o crescimento econômico beneficiasse a todos (Dizia-se: "growth is a rising tide that lifts all the boats" - Crescimento econômico é a maré que levanta todos os barcos). Também o Nobel de Economia, Robert Solow, na mesma época, defendia um processo natural de "crescimento equilibrado": o aperfeiçoamento tecnológico, espontaneamente, acabaria  beneficiando todos os segmentos da sociedade. E o mais do que afamado professor Paul Samuelson (†2009), ou John Maynard Keynes (†1946)? Piketty, com a grande quantidade de dados históricos que traz, põe todos em seu devido lugar. Será ele o novo papa da teoria econômica? Para nós, da Igreja, não importa muito. Importa muito, isto sim, conhecê-los e aproveitar de suas contribuições para conhecer cada vez melhor o mundo em que vivemos, mas nenhum economista nos dá a palavra final. Afinal, o foco de todos os economistas é apenas este: crescimento econômico! O noticiário de rádio e tv, o discurso dos governantes, a elite acadêmica mundial, a música, sem exceção, é feita de uma nota só: sem crescimento não há salvação. A lógica do mundo que nos governa é apenas esta: quando os celeiros estão cheios é preciso aumentá-los!
                Jesus conhecia bem este mundo. O capitalismo é tão antigo quanto o próprio ser humano. Já lembramos dos genes egoístas e altruístas de Richard Dawkins. A "Vida" precisa de ambos para florescer, mas facilmente os genes egoístas atropelam os altruístas. A tradição judaico-cristã começa com a advertência de Moisés: é preciso escolher entre a bênção e a maldição (Dt 11, 26-28). Jesus complementa: nesta terra há cabritos e ovelhas. Apenas às ovelhas - os "benditos do Pai" - é oferecida a herança do Reino (Mt 25, 31-46). Os lírios do campo estão aí, pequenos e insignificantes, mas, se Deus veste tão bem o que é insignificante, pra quê se preocupar tanto? Apenas "os gentios deste mundo" têm mania de destruir celeiros e construir maiores. "Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino" (Lc 12, 13-32).
                É vital para nós - e para o mundo - perceber que Jesus não é o único a levantar esta mensagem. Ele mesmo segue as pegadas dos profetas que O antecederam. As tradições judaica, islâmica e cristã, todas bebem da mesma fonte. Talvez não seja por acaso que ela surgiu quando as primeiras civilizações humanas acumularam riquezas, construindo pirâmides, e torres de Babel. Bem cedo Moisés alertou os hebreus para não recaírem nesta maldição. Sim, havia a saudade das cebolas do Egito, mas pra quê se preocupar tanto e encher a dispensa se Deus manda o maná da terra todas as manhãs para cada um/a colher à vontade? E a longa lista dos profetas, não estavam todos preocupados com os altares erguidos a deuses estranhos? Javé apenas quer misericórdia, e não sacrifícios. Tomemos a mística judaica, sufi, ou cristã, o rumo apontado é um só: a felicidade humana não depende do tamanho do bolso. Melhor nem levar duas túnicas, nem sequer andar de mula, como aconselhava São Francisco. Aliás, todas as místicas do mundo bebem da mesma grande fonte que é a inerente contingência e miserabilidade humanas. Só existe um lugar onde o coração humano pode descansar: em Deus (cf. S. Agostinho). Para aqueles (ou aquelas) que se alimentam de uma fé já mais secularizada poderíamos dizer também: todo ser humano, mesmo o que pensa ter deixado sua fé para trás, busca, às vezes desesperadamente, um sentido mais profundo para sua existência. Este sentido nunca está ao alcance da mão. Nesta terra são encontradas apenas "vaidades" (Ecl 1, 1-18). O melhor está sempre no "além", no Outro, na alteridade. Esta mesma espiritualidade "humana" encontramos também nos mais belos pensamentos de Lao Tse, mestre original do taoísmo (do "Caminho") chinês, ou nas diferentes vertentes budistas. Religiosidade não é um privilégio cristão, é o oxigênio que mantém vivas as sociedades.1
                Piketty é um economista generoso, com um bocado de genes altruístas. Propõe um forte imposto progressivo sobre o capital e a riqueza, tendo em vista o fortalecimento de um Estado Social e uma Democracia Meritocrática onde a desigualdade social é tolerada apenas quando considerada "justa", isto é, quando "útil" à coletividade e ao sistema. Não interfere na lógica do sistema: o capitalismo é bom porque permite ampliar os celeiros, havendo então mais trigo a distribuir. Muitos membros da Igreja podem encontrar em Piketty uma proposta de justiça social mais ao encontro da tradicional Doutrina Social católica. O autor, no entanto, passa ao largo de muitas preocupações latino-americanas: como superar a "dependência" das economias periféricas dos comandos centrais?; como superar o fortíssimo controle político do "1%" sobre a massa popular impotente (os "99%" do movimento Occupy, ou dos Indignados espanhóis...ou brasileiros)?; um "outro mundo" é possível?; se é preciso apostar na democracia, em qual delas devemos investir?; onde ficam os excluídos numa "democracia meritocrática"?; e como fazer tudo isso com pleno emprego e respeito ambiental? Marx foi mais incisivo, colocando no centro a questão do poder. Piketty, na verdade, apenas propõe um capitalismo mais decente. Entregar, porém, o controle da sociedade ao capital é sempre colocar a raposa no galinheiro.
                Nossa opinião é que Piketty abre perspectivas importantes que podem até reverter a irracionalidade do atual sistema neoliberal, mas ele não compreende a linguagem narrativo-simbólica do Evangelho. Não entende porque os lírios do campo se vestem tão bem. O mundo ocidental, seja periférico ou central, deixou à margem as religiões, a espiritualidade. Quem cria o mundo, todos os dias, é Deus, e Deus faz isto através do seu Espírito, presente na religiosidade humana (de todas as religiões). Jesus o intuiu muito bem: os frágeis lírios do campo continuarão florescendo apenas quando o mundo abre espaço para o Reinado de Deus. O Capital no Século XXI nos remeteu à década de 1970, quando, no quarto ano de Ciências Sociais, fizemos nossa pré-especialização em economia, escrevendo uma tese sobre "o PIB e a FIB": o Produto Interno Bruto é meio; a Felicidade Interna Bruta é fim. Um fim que deve ser respeitado também no decorrer do processo para que as mais profundas utopias humanas (sempre religiosas), um dia, possam tornar-se realidade.

* Pe. Nicolau João Bakker é missionário verbita (svd), formado em filosofia, teologia e ciências sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Representa a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita SP). Atualmente atua na Paróquia S. Arnaldo Janssen, em Diadema SP. Além de cartilhas populares, publicou diversos artigos pastorais em: REB, Vida Pastoral, Verbum, Grande Sinal e Convergência.
Endereço do autor:
R. Juruá, 798 - Jd. Paineiras
09932-220 Diadema SP.
E-mail: nijlbakker@hotmail.com
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>

1. Aprofundamos alguns aspectos desta "mística antropológica" em Convergência Nos 468 e 470/2014.

Questões para ajudar a leitura individual ou o debate em Comunidade:
1. Diz o texto que a economia é o "eixo" da vida social. Como você vê esta questão pessoalmente?
2. Piketty faz uma forte crítica ao neoliberalismo econômico. Qual o ponto central de sua argumentação?
3. Para a Igreja em geral, e a Vida Religiosa em particular, qual a mensagem que deve ser priorizada?



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