quarta-feira, 8 de junho de 2016

REB, outubro de 2010: Fé e política na ação pastoral da Igreja hoje

FÉ E POLÍTICA NA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA HOJE
Pelo Pe. Nicolau João Bakker, svd*
           
            Síntese: Uma das características da ação pastoral concreta da Igreja Latino-americana, nas últimas décadas, tem sido o refluxo na relação entre fé e política. Este mesmo refluxo, no entanto, não pode ser observado na reflexão teológica do continente. No intuito de superar um hiato crescente entre o crer e o agir, este artigo analisa as relações entre fé e política na perspectiva das cosmovisões teológica e antropológica do passado para ressaltar sua alta significância para o contexto atual da Igreja. Esta se vê confrontada hoje com uma nova cosmovisão, a “ecológica”. As lições do passado, o agir histórico de Jesus e a nova cosmovisão iluminam os passos a serem dados no presente.
            Abstract: The concrete pastoral action of the latin-american church, in the last decades, has been characterized by a diminishing of the relationship between faith and politics. The same can not be observed, however, in the theological reflection of the continent. To overcome the growing lap between faith and action, this article analyzes the relations between faith and politics in the theological and anthropological cosmovisions of the past in order to enhance their high significance for the actual context of the church. The church, nowadays, is facing a new “ecological” cosmovision. The lessons of the past, the historical action of Jesus and this new cosmovision illuminate the steps for the present.
INTRODUÇÃO:
        Vale a pena voltar ao assunto do compromisso político na ação pastoral da Igreja? Cremos que sim. Nas duas últimas décadas observamos, na ação pastoral concreta da Igreja Latino-americana, um lento, mas persistente, refluxo na relação entre fé e política. O que chama a atenção, no entanto, é que o mesmo não se deu na teologia do continente. Ainda que nos centros de formação teológica a efervescência do tema tenha diminuído bastante, não vemos, por parte dos nossos teólogos e teólogas, argumantação significativa a favor de uma separação mais radical entre fé e política. Quando o hiato entre o crer e o agir se aprofunda temos, pastoralmente, um problema. A reflexão teológica não tem um fim em si mesma. Ela busca luzes para o agir concreto da Igreja num mundo em permanente mudança. Também a ação pastoral concreta da Igreja não tem vida independente. Ela sempre pretende ser uma resposta ao Deus da Revelação. Uma Revelação histórica que se atualiza permanentemente através dos mais diversos “sinais”. A teologia interpreta estes sinais e aponta caminhos. O caminhar concreto constitui o âmbito da Pastoral. Enveredar pastoralmente por caminhos não iluminados é o que mais compromete uma Pastoral sadia, além de prejudicar gravemente a credibilidade da Igreja. O objetivo deste artigo é relacionar fé e política na perspectiva do seu amadurecimento histórico. As lições do passado iluminam o agir concreto deste importante campo da Pastoral hoje.

I LIÇÕES DO PASSADO
1.1  As raízes materiais e biológicas do ser humano
Nossa cosmovisão, hoje, isto é, nosso modo de pensar sobre Deus, o mundo e a nossa própria existência individual e coletiva, é significativamente diferente das cosmovisões do passado. Nem por isso o pensar e o agir de hoje deixam de ser fruto dos passos feitos no passado. O que mais profundamente caracteriza o ser humano não é sua capacidade intelectual, como muitas vezes se pensa. Fosse apenas a racionalidade o motor do comportamento humano, em princípio este poderia ir em qualquer direção. Não há limite à criatividade intelectual. O agir humano, no entanto, não vai em qualquer direção, pois está preso às suas raízes mais profundas que são materiais e biológicas. Animais não se desviam do contexto de sua natureza animal. Por isso o normal é encontrar-se em equilíbrio ecológico. Seres humanos, ao contrário, caiem, com muita facilidade, nas “ilusões da mente”: criam um mundo de fantasias irreais que podem ser perseguidas por séculos. Cada vez que a mente humana persegue um sonho irreal, um mundo que não corresponde às suas raízes materiais e biológicas, o desencontro é fatal e da crise nascerá a busca por um novo rumo.
Não temos condições de traçar, neste artigo, um quadro mais completo das raízes antropológicas do ser humano. A teologia o faz com crescente desenvoltura, mas a clássica separação entre ciência teológica e ciências naturais ainda não está plenamente superada. Não podemos perder de vista que o ser humano é feito do “pó da terra”. Em qualquer lugar do universo este pó possui as mesmas características. Sua lei mais profunda é a da coerência entre atração e rejeição. Seu comportamento padrão é o da interdependência e cooperação. A atração gera a comunidade, a rejeição garante a individualidade. Neste momento a coqueluche do mundo científico é o grande colisor de hádrons, construído a um custo de dez bilhões de dólares na divisa entre a França e a Suiça. Sua finalidade é desvendar os “últimos” segredos da matéria. Os átomos do universo, cada um conforme sua “espécie”, são perfeitamente idênticos. Internamente, porém, constituem coletividades feitas de “individualidades” em constante transformação e movimento. Os átomos se atraem entre si e, sem perderem sua individualidade, formam conjuntos. Os conjuntos, historicamente, deram origem não apenas ao atual universo e às belíssimas paisagens do nosso mundo inorgânico, mas também ao fantástico mundo orgânico da vida biológica. Atraindo-se entre si, os átomos formaram moléculas. Estas, por sua vez, se relacionaram constituindo células auto-replicativas ou auto-organizativas, dando origem à vida. Na evolução da vida biológica, não obstante sua especificidade própria, as mesmas leis da matéria são preservadas. A vida unicelular evolui para a vida multicelular. Esta, por sua vez, evolui, de um lado, para o plâncton e as algas do mar que, em seguida, dão origem às plantas verdes do planeta Terra e, por outro, para os conjuntos celulares maravilhosamente interconectados chamados “blástulas”. São estas que, há 750 milhões de anos, deram origem à vida animal – primeiramente “aqüestre” e depois terrestre - da qual descendemos.
1.2  Fé e Política na cosmovisão teológica
Durante muitos milênios os seres humanos vagaram pela superfície terrestre como coletores e caçadores. Vivem em pequenos agrupamentos numa dependência quase total do meio ambiente que os envolve. Não se sentem donos do seu próprio destino. É o mundo das divindades superiores que configura seu comportamento do dia a dia. Sua visão de mundo, sua cosmovisão, é tipicamente “teológica”: as divindades ou os espíritos superiores são a causa explicativa de todos os eventos. Reina a “teocracia”: tanto o crer quanto o agir do ser humano é decidido pelo poder dos deuses. Esta mesma cosmovisão teológica cria uma nova concepção do exercício do poder quando, 8.000 anos A.C., com a invenção da agricultura e da domesticação de animais, e mais ainda depois com a invenção da irrigação, os agrupamentos humanos “se estabelecem” e surgem as clássicas civilizações em volta do Mediterrâneo. Configuram-se os “reinados” e os reis irão governar “em nome dos deuses” ou seguindo “as leis dos deuses” – como, há 4.000 anos, disse, p. ex., o rei Ur-Engur, de Ur da Mesopotâmia -, o que dá origem a uma nova concepção política, a “hierocrática”. Em ambas as concepções, tanto na teocrática quanto na hierocrática, a “fé” é a mesma: quem, em última instância, governa, são os deuses.
 No último milênio antes de Cristo, os gregos darão um passo à frente. Inventarão a palavra “política” para significar o auto-governo do povo sobre sua “polis”, a cidade de Atenas. Não se trata de uma autonomia plena. Os deuses continuam onipresentes e onipotentes, mas, agora, o mundo espiritual, divino, é separado rigorosamente do mundo material, humano. Uma centelha deste mundo divino, no entanto, se abriga no corpo humano. Esta “razão humana” é, portanto, espiritual e, como tal, deve guiar a conduta humana. A centelha divina não é exclusividade dos reis, pois ela se manifesta em todas as pessoas que fazem uso da razão, isto é, nos “cidadãos”. Impõe-se, portanto, a “democracia” dos cidadãos, uma democracia de concepção limitada, própria da cultura grega. A cosmovisão de fundo permanece teológica. A fé ou a crença básica é a mesma: o mundo espiritual governa sobre o mundo material mediante políticas de caráter teológico, hierocrático ou democrático.
Jesus ocupa um lugar muito específico nesta cosmovisão teológica. Falaremos dele logo depois. No intuito de segui-lo fielmente, a Igreja nem sempre conseguiu implementar sua inspiração profética. Pressionada pela sempre poderosa influência do contexto cultural histórico, a fé da Igreja, já no Séc. IV, se deixa absorver por uma política chamada “cesaropapista” onde os interesses de César predominam largamente sobre os interesses do Reino de Deus pregado por Jesus Cristo. Esta política muda radicalmente de direção a partir do Séc. XI com os papas Gregório VII (†1085), Inocêncio III (†1216) e Bonifácio VIII (†1303). Em reação à situação anterior surge uma concepção de política que por muitos foi denominada de “hierocracia papal”. Sacramentada pela “teologia das duas espadas”, a supremacia governamental passa para as mãos dos papas. No entanto, a cosmovisão teológica continua imperando poderosamente na relação entre fé e política. A Idade Média termina com os papas dando as cartas no mundo ocidental.
1.3  Fé e Política na cosmovisão antropológica
Com o início da Modernidade, a partir do Séc. XVI, dentro de um contexto cultural onde a burguesia em ascensão, apoiada por um forte movimento filosófico-científico, conquista influência crescente, o modo de pensar muda de água para vinho. A cosmovisão teológica vai sendo substituída pela cosmovisão antropológica. Quando Copérnico (†1543) e depois Galileu (†1642) – contra a forte oposição da Igreja - comprovam que não é o sol que gira ao redor da terra, mas a terra ao redor do sol, as certezas sobrenaturais, uma a uma, começam a ser substituídas pelas certezas naturais. Via de regra Deus não é descartado, mas também não é mais a causa explicativa de todas as coisas e de todos os eventos. A razão humana se torna o argumento central do crer e do agir. Com esta nova postura, evidentemente, a relação entre fé e política também muda de perspectiva.
Ao menos no mundo ocidental, as idéias cesaropapistas e hierocráticas são enterradas. Com o esfacelamento do “Sacro Império Romano Germânico” e seu desfecho na “Paz de Vestfália” (1648), a política hierocrática cede lugar à política das monarquias absolutistas. A laicidade, muito divulgada pelos filósofos da época, se impõe. Para o ácido filósofo francês Voltaite (†1778) – na opinião de seus professores jesuítas “um rapaz de talento, mas patife notável” -, o Sacro Império já não era “nem império, nem romano, e muito menos sacro, mas apenas um aglomerado”. Para resguardar os interesses religiosos e salvar os últimos nacos de poder sobre a sociedade civil, a Igreja incentivará “alianças sagradas” com os estados soberanos. Este novo arranjo de poder, de aliança entre clero, burguesia e nobreza – ainda que vivido a tapas e beijos –, será de fato uma espécie de modelo padrão para as relações entre fé e política nos tempos da Modernidade. Para segurar este modelo, a Igreja-Instituição, confrontada internamente com os fortes movimentos proféticos das ordens mendicantes, do pietismo popular e do protestantismo em ascensão e, externamente, com a laicidade crescente das democracias liberais e, especialmente, do “materialismo científico” de Marx, tentará centralizar cada vez mais o poder em Roma. A “romanização” se manifesta de modo particular no clima eclesial de um dogmatismo exacerbado, na clericalização institucional rigorosa e numa espiritualidade onde a fidelidade à doutrina tem supremacia sobre a fidelidade ao Espírito. As colônias, especialmente nas Américas, são conquistadas e “cristianizadas” dentro deste modelo.
Como na cosmovisão teológica, também na cosmovisão antropológica mudam os contextos histórico-culturais, mas não muda a visão de mundo que os sustenta. A valorização da racionalidade humana dá origem tanto às democracias liberais quanto às assim denominadas democracias proletárias. Nas últimas décadas antes do Concílio Vat. II ainda dará origem também às “democracias cristãs”. Crescentemente o vírus da modernidade vai alcançando também as entranhas da Igreja. Grandes pensadores cristãos, com destaque para os franceses, incentivam uma aproximação maior entre a fé e a política democrática, principalmente quando apoiada por partidos de preferência católicos. A antiga aliança entre clero, burguesia e nobreza (ou governos da elite) está mais presente e é mais visível na ação pastoral concreta do dia a dia da Igreja do que na teoria dos documentos oficiais. Nestes, a convivência pacífica com a democracia liberal é combatida ou apenas tolerada, sendo inteiramente desqualificada qualquer convivência com a democracia proletária. Apenas as democracias cristãs receberam, ocasionalmente, apoio oficial. Sempre pairou no ar, no entanto, uma certa saudade do poder hierocrático. Ainda recentemente o papa J. Paulo II observou: “Não sou o evangelizador da democracia, sou o evangelizador do Evangelho”1, A concretização final da proposta jesuânica do Reino de Deus, ao que parece, ainda está por acontecer.

II DESAFIOS DO PRESENTE
       Relacionar fé e política na conjuntura eclesial atual é uma tarefa complexa devido ao fato de as concepções tradicionais das cosmovisões teológica e antropológica ainda estarem presentes, apesar de já se impor sobre o mundo atual, com força crescente, uma nova cosmovisão, a ecológica. Na cosmovisão ecológica, o critério fundamental do crer e do agir não é Deus, como na cosmovisão teológica, nem a razão humana, como na cosmovisão antropológica, mas “o todo” da criação ou da realidade. O desenvolvimento das ciências naturais, em especial a nova física quântica, a bioquímica e a biologia evolutiva, como também as neurociências que ressaltam o caráter holístico ou sistêmico do pensar humano, trouxeram um novo modo de pensar que questiona em profundidade tanto as verdades “eternas” da Igreja quanto as verdades “definitivas” da Ciência. Tanto na microfísica quanto na macrofísica, descobriu-se, com consciência crescente, que tudo está interligado e interdependente, e em movimento permanente sem deixar de constituir um equilíbrio dinâmico. A mesma coerência básica que caracteriza a matéria caracteriza também a vida biológica e a consciência humana. É o todo que dá sentido às partes e é a flexibilidade das partes que possibilita a sobrevivência do todo. Seria importante oferecer uma descrição mais detalhada desta nova concepção, porém, o limitado espaço deste artigo não o permite. Tentaremos apenas esboçar o quadro global das relações entre fé e política que surge do novo cenário em que vivemos hoje.
2.1 A nova postura política do Vat. II
      O Concílio Vat. II realizou-se em harmonia com a concepção antropológica, no contexto cultural típico da modernidade européia. A “Nouvelle Théologie” da fase pré-conciliar deu adeus a uma espécie de “totalitarismo dogmático e espiritual” que, na opinião de muitos, caracterizou a Igreja desde a cristandade da Idade Média. Ela dialoga de forma positiva com a Modernidade e não mais de forma impositiva e defensiva como na fase anterior da Neoescolástica. Brotou dela uma ânsia muito forte por renovação bíblica, catequética e litúrgica, além de dar novo vigor aos anseios ecumênicos. Na relação fé e política vemos surgir experiências diversas ligadas à “causa operária”. Roma se queixava da “perda do operariado” para a fé cristã. O comunismo criava um verdadeiro pânico no meio do catolicismo tradicional. Reagindo a isso, o cardeal belga J. Cardijn, ao morrer em 1967, contava com dois milhões de membros em sua “Juventude Operária Católica” (JOC), espalhados por 69 países. Frente à ameaça comunista dizia com orgulho: “Nós, cristãos, não pregamos a revolução; somos a revolução!”
      Se o papa Pio X (†1914) ainda podia afirmar que o modernismo era “a síntese de todas as heresias”, o Concílio Vat. II, em 1965, acabou consagrando grande parte de seu legado. Ao assumir, em Gaudium et Spes, no 36, a absoluta legitimidade da “autonomia das realidades terrestres”, a Igreja abriu espaço para uma nova relação entre fé e política, não mais construída sobre o alicerce tradicional da imposição, mas sobre o novo alicerce do diálogo construtivo e respeitoso.
2.2 De Medellín a Aparecida
      Uma das teologias que mais chamava a atenção nos tempos conciliares, especialmente na Europa, mas também na Am. Latina, era a chamada “teologia do desenvolvimento”. Na concepção básica desta teologia a Igreja não podia continuar indiferente à situação de extrema pobreza e precariedade dos “países subdesenvolvidos”, em especial das antigas colônias. As Igrejas Cristãs incentivavam novas formas eclesiais de apoio mútuo entre os continentes, além de apelar a políticas públicas na linha das “alianças para o progresso”. Fora das fronteiras das Igrejas, no entanto, a efervescência política era muito maior e, particularmente na Am. Latina, a elite pensante começava a desenvolver um pensamento autônomo. No Brasil, sociólogos como Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso e outros elaboraram uma “teoria da dependência” que dispensava os favores paternalistas do mundo desenvolvido e apelava a profundas mudanças estruturais na relação entre os países centrais e os periféricos.2 Sem romper com as estruturas de dependência, mantidas pelo domínio dos países desenvolvidos, é pura ilusão, diziam, pensar em desenvolvimento para todos. Era o tipo de “leitura da realidade” que os setores mais sensíveis da Igreja latino-americana esperavam desde antes do Concílio Vat. II, e o Documento de Medellin (1968) fez dela seu fio condutor. Numa entrevista ao jornal El nuovo Dia, de Porto Rico, em maio de 2008, G. Gutiérrez afirma que, em 22/07/68, foi convidado para dar uma palestra em Chimbote, Peru, sobre a teologia do desenvolvimento. “Me neguei, e disse-lhes que falaria sobre a teologia da libertação”, afirma.3 Nasceu assim esta teologia que, na Am. Latina e, parcialmente, no mundo inteiro, deu uma nova fundamentação para o relacionamento fé e política.
       De Medellin para cá muita água rolou por baixo da ponte. Questionou-se e adjetivou-se a “opção pelos pobres” de Medellin de diversos modos. Puebla (1979) já suavizou a expressão. Santo Domingo (1992) quase a esqueceu e Aparecida (2007) a recoloca no pedestal sem fazer dela, no entanto, o eixo central da ação pastoral. Da mesma forma com relação à Teologia da Libertação. Medellin, sem falar dela explicitamente, se orgulha dela. Puebla a tolera. Santo Domingo a evita e Aparecida novamente a aceita, não no nome, mas na sua conceituação adjetivada, sem aplicar, no entanto, o uso de suas mediações históricas. Por trás desta evolução, como todos sabemos, estão fortes suspeitas por parte de Roma e de setores importantes das Igrejas locais. A opção pelos pobres pode ser uma opção evangélica, mas também pode ser uma opção puramente política. Como distingui-la? Uma pastoral libertadora pode ter como motivação principal a fé, mas a motivação pode também ser exclusivamente política. Como distinguir entre uma e outra? G. Gutierrez, na tranqüila retrospectiva dos seus 80 anos, na entrevista acima mencionada, afirma que nunca acreditou em partidos do tipo “democracia cristã” ou grupos do tipo “cristãos para o socialismo”. Diz: “Sou cristão por Cristo, não pelo socialismo. Não posso deduzir o socialismo pelo caminho da Bíblia. Da Bíblia deduzo a opção pela justiça, a opção pelo pobre. Se, como cristão, alguém faz opção pelo socialismo é outra coisa”. Depois observa: “Quando me dizem que a teologia da libertação já morreu, digo: veja, não me convidaram para o enterro, e creio que tinha algum direito; depois digo: creio que um dia, sim, morrerá; entendo por morrer o fato de não ter a mesma urgência que tinha antes; sinto muito, o importante é o cristianismo, não a teologia da libertação”.4
      Muitas dificuldades que encontramos no caminho da ação pastoral concreta são provenientes das diferentes cosmovisões que moldam nossas mentes e nossos corações. Enganamo-nos quando pensamos que o comportamento cristão é fruto apenas da orientação recebida da instituição religiosa à qual pertencemos. A própria teologia da Igreja e das religiões é profundamente influenciada pela cosmovisão da época. Na medida em que a cosmovisão teológica ainda “faz a nossa cabeça”, relacionar fé e política fica mais complicado. Nesta cosmovisão “grega” – a que mais nos influenciou -, o mundo material é visto como totalmente separado do mundo espiritual. Fé é uma coisa, política é outra. Evangelizar o mundo, sim, mas isto significa, basicamente, ensinar a doutrina da fé e trazer as pessoas para dentro da Igreja. O Documento de Aparecida, em parte, retoma este clima. Já para quem foi atacado mais fortemente pelo vírus da modernidade, tanto a fé quanto a política passam por um processo de “iluminação” racional. A fé é uma opção individual e muito pessoal. Não pode ser imposta à sociedade. A política é uma necessidade coletiva. Ao Estado cabe até o uso exclusivo da violência para que nenhum indivíduo se sobreponha a outro. Chegou-se à conclusão que apenas a “maioria” pode legitimar o Estado, seja pelo voto livre dos cidadãos, seja pela imposição de um partido da maioria proletária. As discussões são intermináveis, mas, na cosmovisão antropológica da modernidade, a razão humana é sempre o critério último do crer e do agir. Desta razão, a fé foi excluída.
      As Igrejas Cristãs jamais se conformaram inteiramente com sua exclusão do mundo da política. O Vat. II reconheceu a “autonomia das realidades terrestres” e a legitimidade dos governos democráticos, mas não sem reservar para si a “potestas directiva” (GS no 76), isto é, o poder de emitir um juízo moral sobre qualquer política. Relacionar fé e política continua, portanto, na ordem do dia, sem que os critérios para os “juízos morais” sejam dados com muita clareza. A cosmovisão teológica tem seu eixo central na apresentação de uma “Verdade Única” e a antropológica apresenta a “Ciência Única”. Ambas se comprovaram insatisfatórias. Na busca por uma saída promissora, Aparecida, com muita lucidez, constata: “uma democracia sem valores....termina traindo o povo” (no 74).

III FÉ E POLÍTICA NA COSMOVISÃO ECOLÓGICA
      Anos atrás, quando perguntaram a Fernando Henrique Cardoso se ainda punha fé na teoria da dependência, ele respondeu que hoje, o que se impõe, é a “teoria da interdependência”. Sem dúvida sua reação visava encobrir sua estranha opção de aliar-se, politicamente, às classes dominantes que, tradicionalmente, haviam sustentado as relações de dependência. Por outro lado, como intelectual de destaque, assinalou para uma importante inflexão que, de fato, estava em curso. No mundo acadêmico, há várias décadas, uma nova cosmovisão vem se impondo com força crescente. Não sem razão poderíamos chamar a cosmovisão ecológica de a “cosmovisão da interdependência”. Na “oikos”-Terra, como também no universo, tudo é interdependente. Desde 1900, quando o físico Max Planck descobriu os “saltos quânticos” – dando início à “física quântica” – sabe-se que, no âmago da matéria, tudo é interdependente. No metabolismo de qualquer célula viva também tudo é interdependente. O ser humano é um ser inteiramente interdependente na sua relação tanto com o meio social – a filosofia e teologia atuais transpiram “alteridade” – quanto com o ambiental. A própria consciência humana é fruto da interdependência entre bilhões de neurônios onde, a cada instante, se atualizam nossas experiências do passado, nossas sensibilidades do presente, e nossas expectativas de futuro. Cosmovisões são camisas-de-força; não mudam facilmente, mas acabam se impondo pela própria evidência. A cosmovisão ecológica emite novas luzes também sobre a relação fé e política.
3.1 A interdependência teológica
      A Igreja da Am. Latina viveu, nas décadas de 1960, 1970 e 1980, um período glorioso como nunca se deu no passado. Algo como o Ypê que explode em flor na aridez do cerrado. Tivemos o privilégio de absorver seus perfumes a plenos pulmões desde o início. Os/as mártires que o tempo deixou serão os/as eternos/as testemunhas da florada. Hoje, infelizmente, as flores murcharam. Talvez seja mesmo a força da natureza. As raízes das árvores precisam de tempo para preparar uma nova estação. Por mais forte e bonita que tenha sido a pastoral da época, nem por isso devemos deixar de perceber seu lado mais frágil. Tanto a Teologia da Libertação quanto as Comunidades Eclesiais de Base carregaram consigo também a vulnerabilidade da cosmovisão antropológica. Da mesma forma como a “Nova Teologia” da fase pré-conciliar submeteu a fé tradicional do Primeiro Mundo a um fortíssimo processo de racionalização, também na Am. Latina os costumes religiosos tradicionais foram submetidos a um igualmente fortíssimo processo de racionalização, mas, desta vez, na nova perspectiva de uma autônoma teologia libertadora terceiromundista. Conseguiram “participar da caminhada” as pessoas que tiveram o privilégio de interiorizar o processo e desenvolver uma “mística libertadora”. Dentro dela floresceu uma relação de fé e política onde a tradicional dicotomia entre o mundo material e o mundo espiritual foi superada. Deus falava alto e se tornou visível com muita evidência em cada “sinal” de libertação. As estruturas de dependência que os sociólogos latino-americanos tinham trazido à consciência, na “nova” Igreja das CEB´s e das Pastorais Sociais se transformaram num processo de conscientização onde o Deus-Javé dos oprimidos veio novamente libertar os escravos e os marginalizado, os excluídos dos Egitos atuais. 
      Para boa parte das hierarquias eclesiásticas e para a grande maioria dos católicos que se alimentam do que se chamou de religiosidade popular, a fé num Deus imanente, que age dentro dos contextos histórico-culturais e não interferindo diretamente nos mesmos, se demonstrou, por ora, inviável. Observa o eminente teólogo americano R. Haight que, na teologia atual, existe um largo consenso sobre as mediações históricas da fé, a “imanência” na revelação e na ação de Deus.5 Esta teologia “racionalizada” é, sem dúvida, filha da cosmovisão antropológica e representa uma das grandes contribuições da modernidade. Ela entra em choque, no entanto, com a cosmovisão teológica que ainda predomina em grande parcela da Igreja. Esta parcela “chiou” e, com forte apoio da Igreja-Instituição, colocou água na fervura.
      A cosmovisão ecológica abre boas perspectivas pastorais de superação. Como dissemos, na vida material e na vida biológica que constituem nossas raízes mais profundas, tudo é interdependente. Em qualquer ecossistema, quanto mais forte a “rede de sustentação”, mais forte ou resiliente a vida. A interdependência das partes sustenta o todo. O ser humano não pode colocar-se fora desta lógica. Nem a teologia. Com a crescente imposição do pensar ecológico, a tendência mais promissora da teologia atual é a chamada “teologia do pluralismo religioso”. Cada povo, cada cultura, cada tradição religiosa entra com sua contribuição para gerar a “plenitude da vida” sonhada por J. Cristo (Jo 10,10). Nas últimas décadas vimos surgir não apenas uma teologia latino-americana, mas também uma asiática, uma africana, negra, indígena, feminista, ecológica, etc., cada uma com suas sub-teologias e espiritualidades correspondentes. Na perspectiva específica da relação fé e política, o desafio pastoral principal é harmonizar duas teologias e duas espiritualidades que, historicamente, durante séculos, conviveram de forma paralela no interior das Igrejas Cristãs: uma de “fidelidade à Doutrina”, fortemente priorizada pela Igreja Católica, e outra de “fidelidade ao Espírito”, fortemente priorizada pelas Igrejas Protestantes e, ultimamente, mais ainda, pelas Igrejas Evangélicas. Material e biologicamente o ser humano não foi feito para correr atrás de doutrinas ou “razões”, mas atrás do que atrai, do que dá prazer, em fim, atrás de “emoções”. Nossas pastorais sociais que buscam unir fé e política hão de descobrir a força das emoções para envolver as massas populares. E estas emoções, necessariamente, hão de ser emoções do Espírito. A Igreja da Libertação e a Igreja Carismática não podem contentar-se com uma coexistência pacífica. Devem aprender uma com a outra – sem imitações - para conduzir o frágil barquinho de S. Pedro para “águas mais profundas” (Lc 5, 4). Na cosmovisão ecológica esta transição se torna muito mais palatável. Sua marca é a da inclusão e não mais a da exclusão.
3.2 O Reino de Deus: uma proposta política?
      Dentro do cristianismo, nenhuma relação entre fé e política terá credibilidade se não tiver um firme fundamento na prática de Jesus. Dissemos mais acima que, dentro da cosmovisão teológica, Jesus ocupa um lugar muito específico. O poder hierocrático do Templo estava solidamente estabelecido, apesar da existência de diversos movimentos espirituais contrários. A espiritualidade do pós-exílio centrava-se no cumprimento fiel da Lei e dos sacrifícios prescritos. Jesus, no entanto, toma uma atitude de forte oposição ao legalismo e ao ritualismo das autoridades – também políticas! – do Templo. Por quê? Cremos não errar quando afirmamos que Jesus não via nas autoridades religiosas de seu país a concretização da Aliança. Javé não era como os deuses do Egito, nem mesmo como o Deus Único Aton, aliado do faraó Amenófis IV. Javé fez sua opção pelos escravizados. “Via a opressão do povo” (Êx 3, 7-10), fez Aliança com ele e prometeu fidelidade eterna. Acreditar num novo e poderoso Deus não era nenhuma novidade na cosmovisão teológica da época. Acreditar, porém, num Deus comprometido com os pobres, e amoroso para com eles, é único na história da humanidade. Os pastores de Israel deviam encarnar este amor divino, mas Jesus não o viu presente nas autoridades do Templo. Estas passavam ao largo dos espoliados à beira do caminho (Lc 10, 31-32). Insistimos: autoridades ao mesmo tempo religiosas e políticas. Jesus só via sinais ao contrário! Chorou sobre a cidade de Jerusalém onde as ovelhas estavam sem pastor (Mt 10, 36) e onde a figueira estava seca (Mt 21, 19). A derrubada das mesas talvez tenha sido o ato simbólico mais forte da vida – política e religiosa! -de Jesus. “Tirem isso daqui. Não transformem a casa de meu Pai num mercado!” (Jo 2, 16). Não seria possível realizar uma contestação mais cabal da política vigente. Uma contestação que custou-lhe a vida.
      A concepção jesuânica de “Reino” é essencialmente política, como é, essencialmente, também uma concepção de fé. Em Jesus, fé e política não são dois lados de uma mesma moeda. São, por assim dizer, uma moeda única, sem lados. Para Jesus não importa quem, aqui na terra, esteja “no governo”, desde que este governo tenha a “marca” de Javé que se colocou do lado dos fracos. Do Templo -religioso ou político - que não souber “servir” (Mc 10, 35-45) ou encarnar o amor samaritano não ficará pedra sobre pedra (Mt 24, 2). A ação “imanente” de Deus em qualquer gesto de amor – até quando praticado por um samaritano - não é algo comum na cosmovisão teológica das culturas antigas. Apenas a originalidade da teologia e da espiritualidade dos profetas e de Jesus o explicam. É nesta mesma perspectiva teológica, espiritual e política, que devemos entender a “partilha do pão” que é, no relato de Emaús, o “sinal” da presença do ressuscitado. A Boa Nova do Evangelho, em Mc 6, 14-44, apresenta a multiplicação dos pães como o “banquete da vida”, oferecido por Javé, em oposição ao “banquete da morte” oferecido por Herodes. Isto não é apenas fé, é também política. Não estamos contando nenhuma novidade. Tudo isso é consensual na reflexão teológica e bíblica hoje. Mas é preciso insistir. Sob ponto de vista da Pastoral, a Igreja vive um momento de forte tendência para separar novamente a fé da política. É o que de pior ela pode fazer. Equivale a uma traição ao Jesus histórico da terra de Israel. A mensagem que o mundo mais quer ouvir da Igreja não é um discurso sobre política em geral, mas sobre os valores que qualquer política “deve” encarnar. Sem estes o Reino de Deus não avança, e nem sequer “está no meio de nós” (Lc 17, 20-21).
2.3 A Fé vista a partir da Política
      Na cosmovisão ecológica é o todo que dá sentido às partes e as partes interagem para dar sentido ao todo. Não convém olhar para a Política apenas a partir da fé, é preciso também olhar para a fé a partir da Política. Principalmente para nós, cristãos, são duas partes interdependentes. Adotar esta postura é uma humilhação para a Igreja? Cremos que não. Tradicionalmente a Igreja tem julgado a política na perspectiva de ser a detentora da “Verdade Única”, a eterna fonte de todos os totalitarismos, religiosos ou não. Por mais importante que seja para a Igreja manter a “potestas directiva” do Concílio, ela não pode continuar julgando a política sem conhecê-la verdadeiramente. Esta postura é comum na Igreja e é poderosamente reforçada por uma mídia desastrosa e muito influente que age na mesma direção. A impressão generalizada que o povo colhe disso é que, de qualquer política, não deve ficar pedra sobre pedra. Como reconciliar isso com a conhecida expressão de Pio XI (†1939) dizendo que a política é a forma mais perfeita da caridade? E qual a vantagem em excluir padres e religiosos/as deste exercício da forma mais perfeita da caridade? Essa disciplina – para não dizer “teologia do laicato” – a cada dia que passa parece mais equivocada. Sem dúvida não somos favoráveis a que “padres se metam em política” sem qualquer critério, mas alguns vocacionados ou vocacionadas poderiam muito bem cumprir esta importante função. Freqüentemente temos a nítida impressão que a Igreja-Instituição, falando de política, como se diz em alguns ambientes, “ouve bater o sino, mas não sabe onde fica o badalo”.
      Em 1999, ciente da necessidade de aprofundar a relação fé e política, tomamos a decisão de mergulhar no mundo da política. Mais tarde, conforme consulta, ela mostrou ter 87% de aprovação por parte dos membros da instituição religiosa à qual pertencemos. Fomos eleitos duas vezes para uma Câmara Municipal no interior do estado e participamos de três exaustivas campanhas eleitorais. Com o bispo local chegamos a um “acordo de cavalheiros” e atuamos na pastoral paroquial apenas como auxiliar eventual. Da longa experiência, além de adquirir um “ponto de vista” não apenas eclesial, extraímos uma conclusão importante: os problemas da política, normalmente, não são fruto da corrupção das pessoas, mas da “corrupção” das estruturas. E estas estruturas só são conhecidas verdadeiramente por quem as vivencia por dentro. A Igreja, seguindo o refrão popular, critica a Política porque ela falha, ela promete, mas não faz, etc. A própria Igreja, contudo, age, freqüentemente, da mesma forma. As estruturas atropelam as vontades. Um exemplo análogo podemos encontrar no Documento de Aparecida. Os bispos insistem em “reformas institucionais” (no 367), têm consciência da imperiosa necessidade de enfrentá-las, mas não têm a mínima condição de implementá-las porque a rígida estrutura centralizadora da Cúria Romana não o permite. Acusar, genericamente, “a política” de corrupta é tão injusto quanto acusar “a Igreja”, genericamente, de reacionária ou conservadora. Não dialogando com o mundo da política de forma mais madura tira credibilidade da Igreja, uma credibilidade que, ultimamente, já não anda muito bem das pernas.
       Gostaríamos de relatar aqui uma experiência muito localizada, mas, ainda assim, significativa para a “conversão pastoral” em que o Documento de Aparecida tanto insiste (365-372). Quando a Igreja, do alto de sua “sabedoria eterna”, julga a Política, freqüentemente a julga – fiel à tradição agostiniana! – como um símbolo do mundo imperfeito. As imperfeições estariam presentes não apenas nos seus representantes, mas também na sua legislação, no seu sistema jurídico e na sua organização executiva. Invertendo os papéis e julgando a Igreja a partir da Política, as imperfeições são igualmente evidentes. Como a Igreja pode pretender “salvar o mundo” se toda sua estrutura ministerial, jurídica e organizativa está voltada, basicamente, para ela mesma? No caso brasileiro, a Política não está tão ruim assim. Como Presidente da Comissão de Orçamento de uma Câmara Municipal, por longo período, pudemos analisar em maior profundidade a legislação brasileira sobre os orçamentos públicos e sua efetiva execução nos municípios. Há muito a melhorar, mas a legislação, em geral, é perfeitamente adequada para uma boa gestão. Permite, inclusive, amplo espaço para efetiva participação popular. Da mesma forma com relação ao planejamento municipal. O “Estatuto da Cidade”, aprovado em 2001 pela lei federal 10.257, é uma mais do que excelente legislação que obriga as Prefeituras a executarem seus orçamentos a partir de um Plano Diretor tecnicamente bem elaborado, mas suficientemente flexível para atender a novas demandas e circunstâncias. Os Planos Plurianuais, obrigatórios de 4 em 4 anos, e as Leis Orçamentárias Anuais, são obrigados a se inserirem nas propostas do Plano Diretor. A participação popular, obrigatoriamente, é ampla e exigente. Permite, inclusive, investir mais nas “Conferências Municipais” – da população em geral – do que nos Conselhos Municipais, geralmente manipulados pelo poder municipal ou por representantes técnicos altamente qualificados. No município onde atuamos tivemos o privilégio de representar a Câmara Municipal no longo processo de elaboração do primeiro Plano Diretor Municipal. Conseguimos a super-qualificada assessoria técnica do Instituto Polis – que tem atuação no próprio Ministério das Cidades – e, com razoável participação popular, preparamos uma belíssima proposta, apresentando-a à nova Prefeita eleita em 2008. Resultado: o Plano repousa solenemente na gaveta ..... o que ocorre na maioria dos municípios. A Igreja do Brasil, em geral, ainda não se deu conta da importância destes instrumentos democráticos para “gerar mais vida” em benefício da população. Caso as Igrejas incentivassem articulações mais maduras na relação fé e política, os municípios não passariam por isto. A CNBB, por meio das Pastorais Sociais, tem feito o possível, neste sentido, e existem experiências muito válidas a alto nível, como a Semana Social, o Fórum Social Mundial, o Grito dos Excluidos, etc. Um dos grandes desafios da pastoral, porém, é criar tais articulações, supra-partidárias e supra-religiosas, a nível local. Sem elas os grandes eventos ficam sem ressonância nos níveis mais básicos da vida eclesial.
        O que os bons políticos, homens ou mulheres, nem todos “religiosos”, esperam de uma Igreja – ou de uma fé, uma espiritualidade - que queira atuar “nas pegadas” de Jesus? Em primeiro lugar que tenha “lado político”, a favor dos pobres, fiel à opção de Javé. A Igreja do Brasil e a teologia da libertação, neste campo, ofereceram um legado inesquecível ao mundo que não pode ser renegado. Politicamente isto significa que “neutralidade política” não é uma opção cristã. A cosmovisão ecológica não é a cosmovisão do vale tudo. É uma cosmovisão onde cada parte entra com sua contribuição específica para a “plena vida” do todo. Cada parte deve ser valorizada como tal. Daí a importância hoje do diálogo entre as religiões, as Igrejas e as diversas tradições culturais. Em segundo lugar, os bons políticos esperam que a Igreja entenda que a política deve ser exercida dentro da estrutura político-partidária da democracia que se tem. Se esta deixa muito a desejar, não basta o querer para ela acontecer. Mudanças estruturais ocorrem quando o acúmulo de consciência histórica e o contexto sócio-político o permitem. Em termos de fé e política, o grande desafio pastoral das Igrejas hoje é colaborar para que estas mudanças aconteçam! Isto exige um claro apoio às alianças partidárias que buscam uma solução nesta direção. Qualquer boa análise política é capaz de indicar os partidos que, na sua prática histórica, - aí de nada vale o discurso ou a propaganda eleitoral – se demonstraram economicamente dominantes, políticamente excludentes e ideologicamente elitizantes. A tradição profética de Jesus e toda a tradição profética judaico-cristã, não nos permitem apoiá-los. A cosmovisão ecológica nos ensina que “religiosidade”, a busca por “vida plena”, é inerente a todo ser humano. Boas intenções encontramos em qualquer lado político, e, na Pastoral, elas devem ser aproveitadas positivamente. Mas, sob ponto de vista mais técnico - e teológico! -, não podemos ignorar que as forças políticas são muito diversificadas. A fidelidade a Jesus nos obriga a não ficar do lado daqueles que apenas querem “juntar riquezas aqui na terra” (Mt 6,19), ou dos que  “dizem, mas não praticam” (Mt 23,3).     
Endereço do autor:
Nicolau João Bakker, svd
R. Juruá, 798 – Jd. Paineiras
09932-220 Diadema SP / Brasil
*Missionário Verbita, presbítero, formado em filosofia, teologia e ciências sociais. Atuou sempre na pastoral prática: de 1965 a 1982 na pastoral rural do Vale do Ribeira / SP, e, de 1982 a 1993 na pastoral urbana das Zonas Leste e Sul de São Paulo. Entre 1994 e 2000 atuou como educador no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo / São Paulo (CDHEP/CL), coordenando os programas de formação de lideranças eclesiais e o de combate à violência urbana. Entre 1983 e 1988 lecionou Teologia Pastoral no ITESP (Instituto de Teologia / SP). De 2000 a 2008 foi auxiliar na pastoral e vereador, pelo PT, em Holambra SP. Representa a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita SP). Atualmente atua na pastoral paroquial de Diadema SP. Além de cartilhas populares publicou artigos pastorais na REB em 1974, 1987 e 1997.
1. F. Wilfred, Cristianismo e Processo Democrático Global, Concilium, 322 / 2007, 114.
2. Para quem quer conhecer melhor esta importante inflexão no pensamento latino-americano, aconselhamos ler o livro de Octávio Ianni, Imperialismo na Am. Latina, Ed. Civilização Brasileira S.A., 1974, Rio de Janeiro.
3. e 4. A. Dario Carrero, Entrevista com G. Gutiérrez, Vida Pastoral 266 / 2009, 37-38.

5. R. Haight, Escritura: uma norma pluralista para entender nossa salvação em J. Cristo, Concilium, 326 / 2008, 10.

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