sexta-feira, 24 de junho de 2016

Convergência, setembro de 2016: Sobre Marx, Piketty e os lírios do campo

Sobre Marx, Piketty e os lírios do campo

Pe. Nicolau João Bakker, svd*
Introdução:
                Marx dispensa apresentação, mas Piketty, para o público da Igreja em geral, ainda é um tanto desconhecido. Precisamos apresentá-lo brevemente. Trata-se de um economista francês que, em 2013, publicou o surpreendente livro O Capital no Século XXI que, imediatamente, tornou-se o best-seller do ano. "Um livro fantástico" observou o Prêmio Nobel americano, Paul Kruger. "Extraordinária pesquisa histórica" acrescentou o conhecido economista brasileiro, Antonio Delfim Netto. O famoso diário inglês, The Guardian, não deixou por menos: surgiu "o rock star da economia", sentenciou.
                E nós, religiosos, religiosas, padres, leigos ou leigas da Igreja, temos algo a ver com isso? Sim, muito. É a razão do nosso artigo. Assim como Karl Marx, economista do século XIX, teve grande influência sobre o pensar e o agir das diferentes sociedades, assim também Thomas Piketty terá forte influência sobre o pensar e o agir das sociedades nas próximas décadas. Nunca devemos esquecer que o sistema econômico de uma sociedade constitui o "eixo" a partir do qual as engrenagens sociais se movimentam. Todas as instituições de uma sociedade podem ser analisadas a partir deste eixo, inclusive a Igreja, a Vida Religiosa, e a Pastoral. Qual a ânsia mais profunda que habita os seres vivos na opinião dos biólogos evolucionistas? Simplesmente: viver, conviver e sobreviver da melhor forma possível! Quando Richard Dawkins escreveu seu livro O gene egoísta (1976), ele deixou claro que, em qualquer espécie viva, os genes egoístas e altruístas se articulam entre si para preservar a "Vida". Com base nesta ânsia biológica, as sociedades se organizam e "se institucionalizam" para obterem êxito. Hoje, a Economia e a Política são as expressões laicas deste anseio humano. As diferentes espiritualidades humanas e as instituições "eclesiais" são sua expressão religiosa. No Concílio Vaticano II, a Igreja se conformou com a direção laica do mundo, mas não deixou de afirmar que a Igreja está aí para indicar o rumo (GS 73-76).
                Também a Vida Religiosa está aí para oferecer "vida plena" ao mundo (Jo 10,10). Será que Piketty tem algo a contribuir? Logo mais o veremos. Quanto a Marx, todos sabemos que, fazendo da religião um ópio, ele se tornou, por muito tempo, o inimigo no 1 da Igreja. Hoje, um século e meio depois, o julgamento é, digamos, mais matizado. Não se pode negar que também Marx - como nós - sonhava com o que ele dizia ser o "Homem Novo". Também ele se batia por uma Nova Sociedade. Como, na época, as espiritualidades reinantes se voltavam quase que exclusivamente para o cuidado da alma ou do espírito, Marx tachou a Igreja de alienada... não sem um bocado de razão. Vivesse hoje, na América Latina, talvez pudesse ser um companheiro de caminhada. Sua análise econômica (e política), no entanto, foi muito perspicaz. Piketty mostrará alguns equívocos, mas não o supera. Veremos que a ambos faltou entender melhor porque os insignificantes lírios do campo se vestem tão bem.
I Qual a análise que Piketty faz do capitalismo?
                Durante quinze anos, com diferentes equipes altamente especializadas, Piketty pesquisou, passo a passo, a evolução do capitalismo dos últimos trezentos anos, utilizando para isso as fontes mundiais mais confiáveis. Traz todos os resultados em gráficos e tabelas que, além de muito didáticos, são também muito consistentes. É difícil contestar esses dados objetivos. Como aborda um amplo período histórico iremos nós também apresentar a tese de Piketty de acordo com fases históricas específicas, mas, antes, devemos, por algum momento, entrar na sala de aula e aprender com Piketty o que é "renda nacional". A renda nacional se divide, tradicionalmente, em "renda do capital" e "renda do trabalho". Quem tem um capital, seja uma terra produtiva, um imóvel, uma fábrica, um equipamento, ou então um capital meramente financeiro, como depósitos bancários, fundos de aposentadoria, ações, juros, títulos públicos ou privados, dividendos, etc., sempre terá a possibilidade de fazer o capital render alguma coisa. Somando a renda anual de todos os proprietários de capital de um país obteremos a "renda do capital" daquele país. Por outro lado, quem não vive de capital, vive de salário. Somando o valor de todos os trabalhos assalariados (incluindo trabalhos não assalariados), obteremos a "renda do trabalho" do país. Juntando capital e trabalho teremos a "renda nacional" (não incluímos a "renda externa líquida" por ser em geral insignificante). Muito bem. Vejamos agora o que nos mostram os gráficos de Piketty.
1.1 O capitalismo antes da Primeira Guerra Mundial (até 1914)
                Piketty mostra que, na época de Marx, e até a Primeira Guerra Mundial, a renda nacional estava extremamente concentrada nas mãos de poucos possuidores de capital. Na Europa em geral, em 1910, o estoque do capital nacional, a preço de mercado, valia a soma de seis a sete anos de renda nacional. Um patamar nunca mais visto. As rendas do capital (exclusivamente) representavam de 35 a 40% da renda nacional, e a renda do trabalho de 60 a 65%. O capital pode ser dividido entre público e privado. No caso, estamos apenas falando do capital privado. Marx não pôde fazer uma análise de longo prazo, mas via muito bem o fortalecimento do capitalismo industrial de seu tempo e o baixíssimo nível dos salários, então estagnados. Se olharmos para a riqueza em geral, incluindo também as heranças recebidas no passado, os 10% mais ricos da população possuíam até 90% da riqueza total do país (ficando 50 a 60% disto apenas para o centésimo - o "1%" - superior). Resumindo: não existia uma classe média, uma vez que a quase totalidade da riqueza estava nas mãos de poucos abastados.
1.2 O capitalismo no tempo das duas Guerras Mundiais (1914-1945)
                A partir da Primeira Guerra Mundial, o capitalismo europeu muda, significativamente, de fisionomia. O valor do estoque do capital privado nacional despenca, algo jamais imaginado por K. Marx. Se antes valia entre seis e sete anos de renda nacional, em 1945 valia apenas entre dois e três anos, dependendo do país. O patamar mais baixo da história. A renda do capital que antes representava em torno de 35 a 40% da renda nacional baixou para menos de 20%, e a renda do trabalho subiu de 60 a 65% para quase 80%. Olhando novamente para a riqueza em geral podemos observar que os 10% mais ricos da população que antes possuíam até 90% da riqueza total, agora possuem por volta de 75% (o centésimo superior, sozinho, 30%!). O que mais chama a atenção é o valor do estoque do capital nacional que baixou violentamente. O que aconteceu? Evidentemente, as duas guerras fizeram um grande estrago, mas não foi somente isso. A crise da bolsa, em 1929, baixou o valor das ações, a revolução bolchevique (1917) criou insegurança, e os sindicatos se tornaram mais fortes. O fator principal, porém, foi o fato de os países introduzirem, na primeira metade do século XX, um forte imposto progressivo sobre a renda. É preciso prestar atenção a este fato, porque é o que, até certo ponto, "controla" o capital (ou o capitalista) de forma permanente, sem interferência dos imprevistos históricos. Resumindo: o capital balançou e o trabalho mostra a cara.
1.3 O capitalismo nos "Trinta Anos Gloriosos" (1945-1975)
                Durante quase dois séculos, os economistas (e os políticos) se posicionavam em dois campos opostos: ou se era um liberal ou se era um marxista. Deu na "guerra fria" da qual os mais idosos, ou idosas, entre nós ainda se lembram. Não que não houvessem vozes divergentes, mas elas eram pouco ouvidas. Depois da Segunda Guerra Mundial, porém, entre 1945 e 1975, surgiram na Europa - para facilitar a compreensão ficamos com o exemplo europeu, embora Piketty mostre muitas outras realidades - os assim denominados "Trinta Gloriosos" que deram aos países europeus um novo rosto. Foi quando o capitalismo industrial realmente se generalizou, criando raízes profundas. Se o crescimento anual médio da economia por habitante, normalmente, não passava de 1 ou 2%, nos Trinta Gloriosos alcançou de 3 a 4% (1950-1970). Essa pequenina diferença nos números representa, no longo prazo, uma enormidade em recursos a mais para os países em questão. Novas tecnologias e uma educação generalizada geraram um aumento constante na produtividade, o que possibilitou uma melhor distribuição dos lucros, também fruto de um operariado mais aguerrido. Já vimos que a crise da bolsa de Nova York e as duas guerras mundiais, entre outros, ensinaram aos países o caminho do imposto progressivo sobre as rendas. Além do mais, a forte inflação engoliu boa parte das imensas dívidas públicas do pós-guerra. Tudo colaborou para o surgimento do tão falado Well-fare State (Sociedade do Bem-Estar social) europeu. Para muitos, o capitalismo se tornou, definitivamente, a única proposta séria. Com um pouco de presença do Estado (alguma estatização, impostos progressivos, e apoio bancário especial nas crises), tudo estaria resolvido da melhor forma para sempre.
                Vejamos o que nos mostram os gráficos de Piketty sobre este período: o valor do capital privado subiu de 2 anos de renda nacional para 2,5 anos de renda nacional; a renda exclusiva do capital na renda nacional sobe para 21% e a renda do trabalho desce para 79%. O décimo superior das altas rendas detinha 75% da riqueza total do país em 1945 e um pouco mais de 60% em 1975. Aparentemente oscilações modestas. Qual então a grande novidade? A novidade é que, neste período, mesmo mantendo-se a renda do trabalho perto dos 80%, houve uma forte diminuição da desigualdade entre os trabalhadores. Veja isto melhor no próximo tópico.
1.4 A evolução recente do capitalismo (1975 até hoje)
                O capitalismo mundial passou por uma grande "virada" a partir da década de 1970. A Europa em geral entrou num longo processo de estagflação (estagnação + inflação), convencendo muitos economistas (e políticos) que algo estava errado. Criou-se forte ojeriza à presença do Estado na economia. Os governos Thatcher/Reagan introduziram a nova onda neoliberal, com forte redução de impostos e uma liberalização generalizada das restrições ao capital (em especial ao capital financeiro globalizado). Os gráficos de Piketty mostram que, neste novo período, o valor do capital privado sobe de 2,5 para 4 a 6 anos de renda nacional, dependendo do país, com clara tendência de subir ainda mais nas próximas décadas. Nos países desenvolvidos em geral, a renda do capital se estabiliza agora em 30% da renda nacional e a renda do trabalho em 70%. Observa Piketty: "O desenvolvimento de uma verdadeira 'classe média patrimonial' constitui a principal transformação estrutural da distribuição da riqueza nos países desenvolvidos no século XX". E: "Estamos assistindo à volta triunfal do capital privado nos países ricos desde os anos 1970, ou, mais do que isso, ao ressurgimento de um novo capitalismo patrimonial." Se em 1910 os 10% mais ricos da Europa detinham a quase totalidade da riqueza nacional (até 90%), em 2010, o décimo superior possuía 60% da riqueza total (o centésimo superior, sozinho, 25%!), o grupo do meio quase 35%, e os 50% mais pobres algo pouco acima de 5%. Diz Piketty: "A metade inferior da população dos países desenvolvidos é tão pobre hoje quanto era no passado." Nos Estados Unidos, a desigualdade é ainda maior, ficando os 50% mais pobres com miseráveis 2% (o décimo superior com 72%!).
                Falando somente da renda do trabalho, Piketty faz distinção entre desigualdade baixa, média e alta. Como exemplo de desigualdade baixa cita o caso dos países escandinavos de 1970-1980, para desigualdade média a Europa (2010), e para desigualdade alta os EUA (2010). Os resultados são os seguintes: os 10% mais ricos dos países escandinavos recebem  20% da renda do trabalho (o 1% mais rico 5% e os 9% seguintes 15%); na Europa, os 10% mais ricos recebem 25% (o 1% mais rico 7% e os 9% seguintes 18%); nos EUA, os 10% mais ricos recebem 35% (o 1% mais rico 12% e os 9% seguintes 23%). Os 40% do meio recebem 45% nos países escandinavos, 45% na Europa e 40% nos EUA. Os 50% mais pobres recebem 35% nos países escandinavos, 30% na Europa e 25% nos EUA.
                Um/a observador/a menos atento/a poderia pensar: se os capitalistas (em geral) ficam com 30% da renda nacional, ainda sobram 70% para quem vive do trabalho. Nada mal! Na verdade, nada mais enganador do que isso. Trata-se sempre de um pequenino grupo de capitalistas que enriquece muito, em oposição a uma imensa maioria que apenas vê o navio passar. Piketty tem o grande mérito de mostrar, com dados convincentes, a grande e crescente disparidade entre os possuidores do capital, como também entre os possuidores dos salários. Em 1987, os bilionários eram cinco em cada cem milhões de habitantes adultos do mundo; em 2013 eram trinta. Estão sentados sobre pilhas e pilhas de dinheiro, investidas frequentemente em especulação financeira sem nenhuma relação com qualquer produção significativa. Nos EUA, um grande grupo, publicamente, fez um apelo ao Presidente Obama para aumentar seus impostos, sinal evidente da anormalidade da situação. No mundo do trabalho, o centésimo ou milésimo superior, em geral executivos das grandes corporações ou "experts" de grandes fundos de investimento, chegam a ganhar facilmente cem vezes mais do que a média salarial do país. Isto sem relação alguma com um suposto (ou alegado) aumento de produtividade útil. O sistema "enlouqueceu", diz Piketty. A perspectiva de futuro é especialmente alarmante se levarmos em conta que, de 1987 a 2013, as maiores riquezas mundiais cresceram, em média, já descontada a inflação, 6-7% ao ano, contra 2,1% ao ano para a riqueza média mundial por habitante adulto.
II Entre Marx e Piketty, com quem ficamos?
                No século XIX, o século de Karl Marx, o capitalismo industrial se espalhou por toda a Europa, dando altos lucros aos capitalistas, enquanto os salários, extremamente baixos, ficaram estagnados. Não é preciso entrar em detalhes, todos sabemos das péssimas condições de trabalho na época. Marx, observador atento da situação, chegou à seguinte conclusão: os capitalistas estão criando os seus próprios coveiros! A concorrência entre os proprietários do capital os obriga a procurar os mais altos lucros possíveis, e o caminho mais óbvio é baixar os salários o mais que puderem. O resultado final de tudo isso só pode ser um grande confronto entre proprietários e trabalhadores. Mais cedo mais tarde ocorrerá a revolução operária, e então surgirá uma Nova Sociedade, sem exploração do ser humano. Marx não teve o mesmo privilégio de Piketty de poder fazer uma análise de longo prazo, nem teve às mãos a mesma quantidade de dados objetivos. Percebeu o processo permanente de acumulação do capital mediante os lucros, mas não podia imaginar o aumento permanente da produtividade com sua possibilidade de distribuir os lucros entre faixas cada vez mais amplas da população operária. Marx também não podia prever o surgimento de um Estado Social mediante a aplicação sistemática de impostos progressivos sobre as rendas e a criação de políticas públicas generalizadas.
                Em O Capital no Século XXI, Piketty reúne uma quantidade impressionante de dados históricos e elabora uma proposta diferente de Marx. Diz, explicitamente, que muito cedo foi vacinado contra a falácia dos economistas marxistas que, ao invés de partir de dados objetivos, se prendem à ideologia. Não questiona os eventuais altos lucros, nem o mercado livre. Pelo contrário, saúda-os como necessários e indispensáveis. Até as desigualdades sociais são bem-vindas, desde que "fundadas na utilidade comum", conforme a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa (1789). Para o autor, o Iluminismo e a Modernidade deram ao mundo ocidental os valores da democracia (em especial a democracia "meritocrática") e da  justiça social que devem ser prestigiados. Mas como harmonizar o mercado livre e a justiça social no contexto de uma "acumulação infinita" do capital? Esse é o ponto central do livro. Piketty observa que Marx errou ao falar dos coveiros, uma vez que o capitalismo não entrou em colapso. Muito pelo contrário, está hoje mais forte do que nunca. Mas Marx acertou, ele diz, quando afirma que o capital tende a uma acumulação sem limites. Diversas vezes Piketty faz questão de observar que não existem mecanismos naturais dentro do sistema capitalista que vão na direção de uma superação espontânea das desigualdades. Em seus gráficos encontramos a presença constante de uma "linha em forma de U": antes da Primeira Guerra Mundial, uma linha reta, lá nas alturas, quando o capital alcança sete anos de renda nacional; em seguida uma forte queda com a vinda da crise da Bolsa, das guerras, do estatismo e dos impostos altamente progressivos; e a partir de 1950 uma nova tendência ascendente com a linha agora já beirando os seis anos de renda nacional. Só existem forças "externas" para controlar a voracidade do capital, afirma Piketty.
                É justamente aí que entra sua proposta central de um "imposto progressivo sobre o capital". O autor lamenta o atual "extremismo meritocrático" e o abandono dos pesados impostos progressivos sobre a renda a partir da introdução da economia neoliberal. Especialmente nos países anglo-saxões, esses impostos chegaram a 90%, justamente os países que agora mais os rejeitam. Além do imposto progressivo sobre as rendas, o autor insiste no aperfeiçoamento do imposto sobre a herança. Particularmente no contexto de uma quase estagnação do crescimento populacional, as heranças recebidas (contra o espírito da democracia meritocrática que valoriza o fruto do trabalho) representam parte crescente da riqueza nacional. Mas Piketty insiste especialmente no imposto progressivo sobre o próprio capital, a fim de impor controle sobre sua acumulação sem fim. O autor reconhece a grande dificuldade de sua aplicação concreta, uma vez que a maior parte do capital não é mais constituída, como antes, de capital imobiliário, mas de um capital financeiro que não obedece a limites geográficos. Uma pesquisa recente indica que em torno de 10% destes ativos se encontram em paraísos fiscais, fora da legalidade. Por isso, Piketty insiste na imperiosa necessidade de uma legislação mundial (ou ao menos leis continentais), com um cadastro fidedigno das riquezas individuais e declarações de renda dentro da realidade. Tudo isso requer um avanço enorme em gestão democrática, com total transparência, inclusive governamental e bancária.  
                Quais os dados objetivos que, na opinião do autor, comprovam a acumulação infinita do capital, algo que Marx também defendeu, embora de forma mais intuitiva? Entremos na sala de aula de Piketty mais uma vez. Seu argumento mais comum é definido como ”r > g", onde r representa a taxa média do "rendimento" (ou retorno) do capital (antes dos impostos) e g a taxa média de crescimento econômico por habitante. Cada vez que a taxa média de rendimento do capital num determinado país é maior que a taxa média de crescimento econômico por habitante, o capital daquele país se acumula nas mãos dos capitalistas. Pode haver enorme diversidade no rendimento dos diferentes proprietários (e até prejuízos), mas o conjunto dos capitalistas, em média e a longo prazo, aufere uma parte cada vez maior da renda nacional. Qual a força das pesquisas de Piketty? Elas demonstram que, em todos os países e em qualquer época, as taxas médias de rendimento do capital, mesmo descontados os impostos, sempre foram maiores do que as taxas médias do crescimento econômico. Portanto, apenas fatores externos e impostos podem impor um controle  ao sistema. O controle mais eficaz, para Piketty, é um imposto progressivo sobre o capital de qualquer origem.   
III Sobre Jesus e os lírios dos campos.
                Depois de dialogar exaustivamente com Marx e Piketty, vem agora a incômoda pergunta: e nós com isso? Qual a mensagem que estes autores trazem para a Vida Religiosa, a Igreja, a Pastoral? Iniciemos pelo seguinte ponto: se nossa missão principal, de fato, é "dar vida" ao mundo, e "vida em abundância" como Jesus afirmava, então devemos em primeiro lugar entender o nosso mundo. É preciso saber como ele funciona, o que o faz prosperar, e também o que pode causar-lhe dano. Mais acima já falamos que a economia é o "eixo" do mundo. Não conhecemos o mundo se não conhecemos o eixo que o faz girar. Tudo isso é mais importante ainda se queremos realmente "dar rumo" ao nosso mundo. É o que a Igreja, no seguimento de Jesus,  sempre pretendeu fazer, e é o que o Vaticano II pede explicitamente à Igreja e à Vida Religiosa. Na verdade, não somos nós que escolhemos o rumo. Quem dá o rumo é o próprio Jesus Cristo, mediante sua Palavra e seu Espírito.
                Mas, será que são realmente os economistas que entendem o nosso mundo? Marx, sem dúvida, foi um economista perspicaz que percebeu muito bem com quantos paus se faz uma canoa. Percebeu, principalmente, que quem não tem a madeira não faz canoa alguma. Mas a visão de Marx estava limitada ao olhar do tempo. Piketty mostra alguns dos seus equívocos. Piketty cita também outros economistas que tiveram grande influência. Simon Kuznets (†1985), filho dos "Trinta Gloriosos", em Shares of Upper Income Groups in Income and Savings (1953), defendia que bastava ter paciência e esperar que o crescimento econômico beneficiasse a todos (Dizia-se: "growth is a rising tide that lifts all the boats" - Crescimento econômico é a maré que levanta todos os barcos). Também o Nobel de Economia, Robert Solow, na mesma época, defendia um processo natural de "crescimento equilibrado": o aperfeiçoamento tecnológico, espontaneamente, acabaria  beneficiando todos os segmentos da sociedade. E o mais do que afamado professor Paul Samuelson (†2009), ou John Maynard Keynes (†1946)? Piketty, com a grande quantidade de dados históricos que traz, põe todos em seu devido lugar. Será ele o novo papa da teoria econômica? Para nós, da Igreja, não importa muito. Importa muito, isto sim, conhecê-los e aproveitar de suas contribuições para conhecer cada vez melhor o mundo em que vivemos, mas nenhum economista nos dá a palavra final. Afinal, o foco de todos os economistas é apenas este: crescimento econômico! O noticiário de rádio e tv, o discurso dos governantes, a elite acadêmica mundial, a música, sem exceção, é feita de uma nota só: sem crescimento não há salvação. A lógica do mundo que nos governa é apenas esta: quando os celeiros estão cheios é preciso aumentá-los!
                Jesus conhecia bem este mundo. O capitalismo é tão antigo quanto o próprio ser humano. Já lembramos dos genes egoístas e altruístas de Richard Dawkins. A "Vida" precisa de ambos para florescer, mas facilmente os genes egoístas atropelam os altruístas. A tradição judaico-cristã começa com a advertência de Moisés: é preciso escolher entre a bênção e a maldição (Dt 11, 26-28). Jesus complementa: nesta terra há cabritos e ovelhas. Apenas às ovelhas - os "benditos do Pai" - é oferecida a herança do Reino (Mt 25, 31-46). Os lírios do campo estão aí, pequenos e insignificantes, mas, se Deus veste tão bem o que é insignificante, pra quê se preocupar tanto? Apenas "os gentios deste mundo" têm mania de destruir celeiros e construir maiores. "Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino" (Lc 12, 13-32).
                É vital para nós - e para o mundo - perceber que Jesus não é o único a levantar esta mensagem. Ele mesmo segue as pegadas dos profetas que O antecederam. As tradições judaica, islâmica e cristã, todas bebem da mesma fonte. Talvez não seja por acaso que ela surgiu quando as primeiras civilizações humanas acumularam riquezas, construindo pirâmides, e torres de Babel. Bem cedo Moisés alertou os hebreus para não recaírem nesta maldição. Sim, havia a saudade das cebolas do Egito, mas pra quê se preocupar tanto e encher a dispensa se Deus manda o maná da terra todas as manhãs para cada um/a colher à vontade? E a longa lista dos profetas, não estavam todos preocupados com os altares erguidos a deuses estranhos? Javé apenas quer misericórdia, e não sacrifícios. Tomemos a mística judaica, sufi, ou cristã, o rumo apontado é um só: a felicidade humana não depende do tamanho do bolso. Melhor nem levar duas túnicas, nem sequer andar de mula, como aconselhava São Francisco. Aliás, todas as místicas do mundo bebem da mesma grande fonte que é a inerente contingência e miserabilidade humanas. Só existe um lugar onde o coração humano pode descansar: em Deus (cf. S. Agostinho). Para aqueles (ou aquelas) que se alimentam de uma fé já mais secularizada poderíamos dizer também: todo ser humano, mesmo o que pensa ter deixado sua fé para trás, busca, às vezes desesperadamente, um sentido mais profundo para sua existência. Este sentido nunca está ao alcance da mão. Nesta terra são encontradas apenas "vaidades" (Ecl 1, 1-18). O melhor está sempre no "além", no Outro, na alteridade. Esta mesma espiritualidade "humana" encontramos também nos mais belos pensamentos de Lao Tse, mestre original do taoísmo (do "Caminho") chinês, ou nas diferentes vertentes budistas. Religiosidade não é um privilégio cristão, é o oxigênio que mantém vivas as sociedades.1
                Piketty é um economista generoso, com um bocado de genes altruístas. Propõe um forte imposto progressivo sobre o capital e a riqueza, tendo em vista o fortalecimento de um Estado Social e uma Democracia Meritocrática onde a desigualdade social é tolerada apenas quando considerada "justa", isto é, quando "útil" à coletividade e ao sistema. Não interfere na lógica do sistema: o capitalismo é bom porque permite ampliar os celeiros, havendo então mais trigo a distribuir. Muitos membros da Igreja podem encontrar em Piketty uma proposta de justiça social mais ao encontro da tradicional Doutrina Social católica. O autor, no entanto, passa ao largo de muitas preocupações latino-americanas: como superar a "dependência" das economias periféricas dos comandos centrais?; como superar o fortíssimo controle político do "1%" sobre a massa popular impotente (os "99%" do movimento Occupy, ou dos Indignados espanhóis...ou brasileiros)?; um "outro mundo" é possível?; se é preciso apostar na democracia, em qual delas devemos investir?; onde ficam os excluídos numa "democracia meritocrática"?; e como fazer tudo isso com pleno emprego e respeito ambiental? Marx foi mais incisivo, colocando no centro a questão do poder. Piketty, na verdade, apenas propõe um capitalismo mais decente. Entregar, porém, o controle da sociedade ao capital é sempre colocar a raposa no galinheiro.
                Nossa opinião é que Piketty abre perspectivas importantes que podem até reverter a irracionalidade do atual sistema neoliberal, mas ele não compreende a linguagem narrativo-simbólica do Evangelho. Não entende porque os lírios do campo se vestem tão bem. O mundo ocidental, seja periférico ou central, deixou à margem as religiões, a espiritualidade. Quem cria o mundo, todos os dias, é Deus, e Deus faz isto através do seu Espírito, presente na religiosidade humana (de todas as religiões). Jesus o intuiu muito bem: os frágeis lírios do campo continuarão florescendo apenas quando o mundo abre espaço para o Reinado de Deus. O Capital no Século XXI nos remeteu à década de 1970, quando, no quarto ano de Ciências Sociais, fizemos nossa pré-especialização em economia, escrevendo uma tese sobre "o PIB e a FIB": o Produto Interno Bruto é meio; a Felicidade Interna Bruta é fim. Um fim que deve ser respeitado também no decorrer do processo para que as mais profundas utopias humanas (sempre religiosas), um dia, possam tornar-se realidade.

* Pe. Nicolau João Bakker é missionário verbita (svd), formado em filosofia, teologia e ciências sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Representa a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita SP). Atualmente atua na Paróquia S. Arnaldo Janssen, em Diadema SP. Além de cartilhas populares, publicou diversos artigos pastorais em: REB, Vida Pastoral, Verbum, Grande Sinal e Convergência.
Endereço do autor:
R. Juruá, 798 - Jd. Paineiras
09932-220 Diadema SP.
E-mail: nijlbakker@hotmail.com
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>

1. Aprofundamos alguns aspectos desta "mística antropológica" em Convergência Nos 468 e 470/2014.

Questões para ajudar a leitura individual ou o debate em Comunidade:
1. Diz o texto que a economia é o "eixo" da vida social. Como você vê esta questão pessoalmente?
2. Piketty faz uma forte crítica ao neoliberalismo econômico. Qual o ponto central de sua argumentação?
3. Para a Igreja em geral, e a Vida Religiosa em particular, qual a mensagem que deve ser priorizada?



Convergência, janeiro de 2017: Obrigado/a, irmã água

Obrigado/a, irmã água
Nicolau João Bakker, SVD*
Introdução:
                A Campanha da Fraternidade de 2017, mais uma vez, nos convida a entender melhor, e tratar com mais carinho, a natureza que nos envolve. Apresentando como tema "Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da Vida", ela pede nossa atenção para os diferentes biomas brasileiros e nos alerta: os biomas têm a ver com a "Vida" que, como cristãos e cristãs, somos chamados/as a defender.  A questão é séria. Morrendo os biomas, morreremos com eles. Mas, perguntemos antes, quais são os biomas brasileiros? Tradicionalmente são seis: a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica e os Pampas do Sul. Ultimamente acrescenta-se a eles a Zona Costeira e Marinha. O que estes biomas têm a nos dizer? É provável que a Revista Vida Pastoral, nos primeiros meses de 2017, publique um artigo nosso que mostrará em detalhes "a Vida como ela é", e como os biomas expressam em escala maior o que a Vida é em escala menor. Por onde olharmos para a "Vida", desde a mais pequenina célula de qualquer ser vivente até o grande bioma, sempre encontraremos uma "teia partilhada", feita inteiramente de "relações colaborativas". Uma teia onde, como diz o papa Francisco, "tudo está interligado". Também as sociedades humanas são expressões desta "Vida". Ou, melhor, deveriam ser a expressão dela. Apenas o ser humano, com sua consciência, pode passar por cima da "fraternidade biológica" e, rompendo as relações colaborativas, faltar com a "fraternidade cristã".
                Neste artigo não trataremos da "Vida" de forma genérica. Vamos olhar para o elemento da natureza que mais a sustenta: a água. Se a Campanha da Fraternidade nos pede para atuar "em defesa da Vida", é antes de tudo da água que devemos cuidar. A Vida, como veremos, tem sua origem na água e dela depende. Iniciaremos nossa "meditação" olhando para a água como a fonte da "Vida". Em seguida veremos o que pode ser feito para cuidar dela de forma mais colaborativa.
I A água: fonte da "Vida"
                O Planeta Terra, também chamado Planeta Água, já tem quase cinco bilhões de anos de existência. Nasceu de um espirro cósmico, de um cosmos em permanente transformação. Sua localização se provou privilegiada, nem muito perto nem muito distante do sol. Surpresas não tardariam a acontecer. No início, "Vida", nem pensar. Não havia água, nem oxigênio, nada além de uma espécie de bola de fogo que, lentamente, esfriava. Mas, 3,8 bilhões de anos atrás, as coisas já começam a acontecer. A crosta terrestre é impactada de cima por enormes meteoritos e de baixo por vulcões de lava e torrentes de vapor. Com o esfriamento da Terra, as nuvens de vapor se condensam e chove torrencialmente sem parar durante milhares de anos, formando oceanos rasos. A atmosfera terrestre, antes muito tóxica, agora se renova e está repleta não só de vapor de água, mas também de nitrogênio, neônio, argônio e dióxido de carbono. Especialmente os átomos de carbono vão ter uma função vital. Num ambiente propício de calor e umidade se combinam facilmente com os átomos de hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre. Você, leitor/a, sabia que apenas estes seis átomos constituem 99% do peso seco do nosso corpo, e assim também dos demais seres viventes? O carbono é como que a mãe de toda a vida orgânica.
                Pois, há aproximadamente 3,7 bilhões de anos, é da água que a "Vida" surge.1 Nas ciências da Vida não há dúvida sobre isto. Existe uma espécie de "fraternidade inicial" entre os diferentes elementos da natureza. Eles se atraem entre si formando moléculas, as moléculas da Vida, em especial os minúsculos aminoácidos. Um conjunto de apenas cerca de vinte aminoácidos, ligados em cadeias que variam de algumas dezenas a várias centenas, compõem as proteínas de todos os organismos conhecidos na Terra. Na rica sopa química dos primórdios da Terra, dizem os entendidos, encontravam-se os dinâmicos "catalizadores químicos" que deram origem a pequenos "ciclos químicos". Estes, por sua vez, sempre com ajuda da energia solar e um meio ambiente propício, formaram "superciclos", e assim, aos trancos e barrancos, foi-se formando o primeiro "DNAzinho" que hoje, de forma aperfeiçoada, está presente em todas as células de qualquer ser vivente. A principal característica do DNA é que ele possui a capacidade de "auto-replicar-se", quer dizer, tirar cópias de si mesmo. É o que todas as células do nosso corpo - e de qualquer ser vivente, seja planta, animal ou qualquer outro ser vivo - fazem até hoje. Auto-replicação, ou "autopoiese", é a essência daquilo que chamamos "Vida". Todas as células do nosso corpo se renovam permanentemente. Só para ter uma idéia: as células da nossa pele se renovam a uma velocidade de cem mil por minuto!
                Embora ainda existam muitos pontos a serem esclarecidos, a microbiologia dos últimos tempos fez grandes avanços. Nos primeiros dois bilhões de anos, é o "reino" das bactérias que domina o mar e a terra. Vivemos desprezando as bactérias, mas estes minúsculos seres unicelulares são os verdadeiros artistas da Vida. Sem qualquer tipo de sexo, muitas delas podem multiplicar-se a cada vinte minutos e simplesmente transferir para outras bactérias até 15% de sua carga genética, e isto diariamente! Desta forma diversificaram-se espetacularmente. Com o passar do tempo, as bactérias aprenderam a fixar o nitrogênio do ar, a pigmentação, a locomoção, etc., tudo da maior importância para os seres vivos até hoje. Uma das primeiras técnicas "inventadas" por elas foi a da "fermentação", através da qual transformam cadeias de carbono (açúcares!) em moléculas de ATP (adenosina trifosfato). As bactérias que mais sucesso obtiveram foram as "fotossintetizantes", chamadas "cianobactérias". Sabiam, pela fotossíntese, aproveitar bem a energia solar e o hidrogênio e dióxido de carbono do ar, para transformar tudo em energia química, decompondo os açúcares e compondo as tais moléculas de ATP. São estas as moléculas que até hoje fornecem a energia necessária para movimentar os nossos músculos, intestinos e cérebros. Quando, há aproximadamente 2,5 bilhões de anos, o hidrogênio do ar escasseava cada vez mais, estas criativas bactérias verde-azuladas inventaram mais outra técnica bioquímica: captar o hidrogênio da água. Descobriram uma fonte inesgotável. Decompunham a molécula de água (H2O), absorvendo o hidrogênio e liberando no ar o oxigênio. Até então o oxigênio do ar era quase inexistente. Mas vejam só a ousadia. Depois de encher a atmosfera de oxigênio, que subiu de 0,0001% para os atuais 21% - causando a maior poluição da história do Planeta! -, uma linhagem de cianobactérias, há aproximadamente dois bilhões de anos, inventou a respiração aeróbia. Passaram a realizar a fotossíntese, gerando oxigênio, e a respirar, consumindo oxigênio! O oxigênio se tornou, desta forma, o novo e mais poderoso dínamo do processo da Vida. Enquanto a fermentação em geral produz apenas duas moléculas de ATP para cada molécula de açúcar decomposta, na respiração com oxigênio a mesma molécula de açúcar pode produzir até trinta e seis!
                Constatou-se nas últimas décadas que houve também um processo de "simbiogênese".2 As bactérias aprenderam a "parasitar", colaborando umas com as outras, até fundirem-se completamente, dando origem a novas formas de Vida. Há aproximadamente dois bilhões de anos, como fruto destas simbioses, começa a surgir um novo reino, o dos "protistas", que existe até hoje. A característica principal dos protistas é que sua célula possui um "núcleo central", rodeado de membrana, que abriga o DNA. Debaixo da lupa podemos ver que a nova célula é uma fusão entre dois tipos de bactérias: a "arqueofermentadora" e a "nadadora". Depois veio conviver na mesma célula, simbionticamente, ainda uma terceira bactéria, a da respiração aeróbia. A característica principal dos protistas é que têm uma vida celular muito mais complexa do que a das bactérias que não têm núcleo central. O grande divisor do mundo vivo é entre os "procariontes", que não possuem núcleo central, e os "eucariontes" que possuem núcleo central. Os protistas, ainda unicelulares, receberam depois ainda a companhia de uma quarta bactéria, a fotossintetizante. Com esta complexidade toda, novos caminhos de evolução se abriram. Tornando-se multicelulares, os protistas puderam, por um caminho, dar origem ao reino das plantas que, em seus "cloroplastos", usam a fotossíntese e, por um outro caminho de evolução, ao reino dos animais e dos fungos que apenas mantiveram, em suas "mitocôndrias", a respiração aeróbia. Ambos os caminhos, porém, foram percorridos na água. Não é sem motivo que todos os seres viventes da natureza têm em torno de 90% de água em sua composição. Uma planta, sem água, morre imediatamente. E nós, sem ingerir as proteínas das plantas, também morremos em pouco tempo. É a água que sustenta o viver.
                    Vejamos agora mais de perto o reino animal ao qual - querendo ou não - todos nós pertencemos. O início deu-se, novamente, na água, há aproximadamente 750 milhões de anos. Os protistas, tornando-se multicelulares, deram origem a conjuntos de células muito interligados e  perfeitamente integrados chamados "blástulas". Estas blástulas, - até hoje o início da vida humana -, evoluíram para diferentes linhagens de pequenos seres marinhos, globulares e vermiformes, que se tornaram progressivamente maiores. Desenvolveram a técnica de excretar o indispensável mas excessivo cálcio do mar - no mar o cálcio é 10.000 vezes mais concentrado do que nas nossas células -, que transformaram em esqueletos, conchas, crânios e dentes para melhor enfrentar as ondas e os predadores. Entre estes seres marinhos surge, há aproximadamente 450 milhões de anos, o Filo dos Cordados, caracterizado por um tubo nervoso central e um pequeno cérebro. Em pelo menos uma fase da vida os cordados desenvolvem também fendas branquiais, as quais, nos seres humanos, ainda são visíveis debaixo das orelhas durante o desenvolvimento do feto. O subfilo dos cordados ao qual pertencemos é o dos vertebrados. Há 400 milhões de anos, peixes do subfilo dos cordados, providos de mandíbulas, barbatanas carnudas e pulmões - bránquias modificadas - rumaram para a costa, transformando-se nos anfíbios que formam o elo entre o mar e a terra. Como podem ver, a terra não é o nosso mais costumeiro "habitat", mas o mar. Será por isso que todos/as gostamos tanto de um dia de praia?
                Vindo para a terra, os animais não deixaram de levar consigo inúmeras lembranças do mar. Há 300 milhões de anos, os répteis de tronco primitivo, nossos antepassados distantes, começam a transplantar os anfíbios. Já inteiramente adaptados à terra, com mandíbulas fortes e  pele resistente, trazem uma nova invenção biológica: o ovo (que encapsula o ambiente aquático). Pouco depois, há uns 210 milhões de anos, os répteis de tronco primitivo dão origem à Classe dos Mamíferos. Também estes apresentam, além de pêlos e glândulas mamárias, uma outra grande novidade: o útero. O útero, feito mar, preserva a vida em seu líquido amniótico. Da Classe dos Mamíferos surge, há 66 milhões de anos, a Ordem dos Primatas e, dela, há 4 milhões de anos, a Família dos Hominídeos. O cérebro inicial dos cordados, à essa altura, já se complexificou muito. Há 500.000 anos surge o Gênero Homo que dá à luz, muito muito recentemente, a Espécie Sapiens. Somos nós, os/as "filhos/as da água". Até hoje fazemos nossos primeiros passos cambaleantes sobre o Planeta Terra. Em muitos sentidos continuamos "irmanados/as" com a água. Espermatozóides e óvulos, como também a blástula e o embrião, sempre se encontram em um meio úmido. As concentrações de sal na água do mar e no sangue são praticamente idênticas. As proporções de sódio, potássio e cloreto nos tecidos humanos são semelhantes às do oceano. O que suamos e choramos é basicamente água do mar. Ainda pode haver dúvida que a água é a fonte da "Vida"?
II Biomas: a "Vida" em escala maior
                Biomas são grandes extinções de terra onde a "Vida" apresenta características próprias. Cada bioma possui uma identidade particular, embora não seja autônoma. Assim como cada minúscula célula viva tem uma "membrana", resistente mas permeável, em volta de si, - é através dela que os indispensáveis elementos químicos vão e vêm -, assim também o bioma, por maior que seja, não tem uma existência isolada. As características próprias do bioma são fruto das forças cósmicas que o envolvem: a luz e o calor do sol; o ritmo das estações; os ventos fortes ou a leve brisa do mar; maior ou menor presença de oxigênio, a umidade do ar, e assim por diante. O fator principal, no entanto, - será que surpreende? -, é... a água! Um bioma sem ou com pouca água vira um deserto; com água abundante uma Amazônia. O mundo vivo é um mundo verde. Como nós não temos a capacidade da fotossíntese, as plantas verdes fazem isto por nós. Dependemos totalmente das proteínas destas plantas verdes para sobreviver. Na "Vida", tudo colabora com tudo. Por onde olharmos para ela, encontraremos sempre uma "teia partilhada". Qualquer isolamento significa morte.  Também os biomas são, portanto, teias partilhadas de "Vida" própria.
                Por isso, em cada bioma, até os seres humanos têm características próprias, já que fazem parte da teia. Seu viver, conviver e sobreviver depende do bioma. Havendo muita água disponível, o ser humano que encontramos é o ribeirinho, o seringueiro, o pantaneiro ou, quem sabe, o castanheiro. Com menos água será um outro ser humano: o beduíno do deserto, o lavrador do cerrado, ou, quem sabe, o nordestino de traços fortes talhados pela seca. Se prestarmos atenção veremos que até o modo de falar e de pensar são diferentes, pois a mente nada mais é do que o reflexo da realidade em que vivemos. No nosso mundo globalizado e urbanizado, tudo é atravessado por uma despudorada máquina homogeneizadora, que leva à quase-extinção toda a riqueza da diversidade, mas é preciso resistir. A "Vida" depende inteiramente da riqueza de sua teia colaborativa.
III Biomas brasileiros e a defesa da "Vida"
                Quem quer defender os biomas deve defender as suas águas. Não é algo simples e a Igreja deve deixar de lado certo amadorismo com que muitas vezes trata a questão ecológica. Vejamos em primeiro lugar algumas pré-condições para a ação a fim de, em seguida, tratar da ação em si.
3.1 Ter consciência da gravidade da situação
                Esta é a primeira pré-condição. Dentro e fora da Igreja há os que pregam que a batalha já está perdida e que não há retorno. Um dos mais famosos cientistas que alerta para a gravidade da situação é o inglês James Lovelock. Famoso por sua "hipótese Gaia" - que vê o Planeta Terra como um ser vivo - publicou, em 2009, o livro Gaia: alerta final (Rio de Janeira: Ed. Intrínseca, 2010). Especialista em atmosfera e profundo conhecedor do aquecimento global, o autor afirma: "Calor crescente e destruição do ecossistema florestal para prover terra arável irão continuar e apressar a conversão da floresta tropical em cerrado e deserto" (p. 86). "Uma tabela sobre a produção de dióxido de carbono em g/kWh (grama por quilowatt-hora) de energia produzida por diferentes fontes energéticas dá o seguinte resultado: nuclear 4; eólica 8; hidro de larga escala 8; safras energéticas 17; geotérmica 79; solar 133; gás 430; diesel 772; petróleo 828 e carvão 955" (p. 106). Não é sem motivo que o autor, apesar da forte resistência mundial, prefere as odiadas usinas nucleares a qualquer outra fonte de energia. "Depois de 40 anos de geração de energia nuclear, mal existe o bastante (no caso: lixo nuclear) para encher uma única vez o Albert Hall. Comparemos essa sala de espetáculos com a montanha de 1.600 metros de altura, 19 kilómetros de circunferência de base, de dióxido de carbono solidificado que o mundo produz a cada ano. Enterrar o lixo nuclear é um problema menor, mas o rejeito de dióxido de carbono matará a todos nós se continuarmos a emiti-lo".
                  Se não bastar a advertência do controvertido cientista inglês, podemos também ouvir (em entrevista ao Valor Econômico) o alerta de um brasileiro, mestre em biologia tropical e doutorado em biogeoquímica, Antonio Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. De olho na Conferência de Paris, disse, em 2009: "Temos cinco ou seis anos para impedir que uma catástrofe maior se estabeleça... Um ataque sem precedentes aos biomas, com tratores e correntões, motosserra e fogo não desperta revolta. É claro que temos que desenvolver, precisamos de agricultura. O Blairo Maggi (um dos maiores produtores de soja do mundo) perguntou outro dia se queremos árvores ou se queremos comida. É um dilema totalmente falso... A Amazônia é uma bomba hidrológica gigantesca que traz a umidade do Oceano Atlântico para dentro do continente e garante que a região responsável por 70% do PIB da América do Sul seja irrigada... Medimos o quanto a Amazônia evapora, é um número astronômico: 20 bilhões de toneladas de água em um dia. Para ter ideia do que é este volume, o rio Amazonas lança 17 bilhões de toneladas de água por dia no Atlântico... Está-se descobrindo que a floresta é dez vezes mais importante do que se imaginava... Não é para parar com o desmatamento da Amazônia em 2015. Era para ontem. Tem que ser zero, nenhuma árvore mais derrubada. Precisamos replantar a floresta". E, explicando como chuvas, ventos, oceanos e florestas estão interligados e por que alterar este equilíbrio pode trazer danos irreversíveis à "Vida", finaliza: "A queima de combustíveis fósseis tem papel importante, mas a destruição dos órgãos de manutenção do clima, florestas e oceanos, é o principal fator para o descontrole global. Não adianta todos os carros virarem elétricos se continuarmos a desmatar". A situação, portanto, é grave. Precisamos pôr as barbas de molho.
3.2 Pegar o bonde andando
                Esta é mais outra pré-condição. A Igreja, infelizmente, acordou tarde para o grande desafio de preservar a "Vida" no planeta. Agora só nos resta pegar o bonde andando. Quanto às águas, o Brasil já tem uma legislação bastante desenvolvida. Infelizmente, nosso problema costuma estar mais na fiscalização e na execução do que na própria legislação. Em 1997, pela lei federal 9.433, foi lançado o Plano Nacional de Recursos Hídricos, sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente, ficando a implementação prática sob a responsabilidade da Agência Nacional das Águas. O Plano foi oficialmente aprovado pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos em 2006. As grandes "Bacias Hidrográficas" do país foram divididas em diferentes "Sub-Bacias", e estas, por sua vez, estão divididas em inúmeras pequenas "Microbacias". O Estado de S. Paulo, por exemplo, tem 21 bacias hidrográficas. Cada bacia tem o seu "comitê de bacia", que deve ser compartilhado pelo poder público, pelos usuários, e pela sociedade civil. Objetivo: garantir a quantidade e a qualidade da água para, assim, salvar a "Vida" do bioma.
                Observando o que nós fazemos nas nossas dioceses e regiões pastorais em termos de defesa da água, em geral é muito pouco. Frequentemente são ações muito isoladas que carecem de "articulação" com outras forças atuantes. Também costumam falhar por ausência de perspectiva política. Sem enfrentamento político suficientemente hábil, planos tão complicados quanto a gestão das águas costumam ficar na gaveta por anos e mais anos. Em certa fase de minha vida tive o privilégio de poder participar muito ativamente de uma ONG ambiental na "Bacia Hidrográfica Piracicaba, Capivarí, Jundiaí” (S. Paulo). O comitê daquela bacia foi um dos primeiros e é considerado um dos melhores do estado. Ainda assim, ninguém se mexia com relação às quase 500.000 toneladas de veneno químico que (em parte clandestinamente) foram depositadas no "aterro Mantovani", na divisa entre os municípios de Holambra e Santo Antonio de Posse. A enorme "pluma tóxica" que se formou debaixo da terra, junto aos lençóis freáticos e ao lado de um córrego, estava pondo em perigo toda a grande Bacia do Rio Piracicaba, com cinco milhões de habitantes. Quem enfrentou a questão de peito aberto foi a ONG.3 Após anos de ação persistente, mobilizando as entidades ambientais e as Câmaras Municipais da região, foi possível, com a ajuda do Ministério Público Estadual, conseguir a condenação legal das 63 grandes empresas (nacionais e multinacionais) envolvidas. Foram obrigadas a "limpar" a área. Tarefa de altíssimos custos que continua até hoje. A Igreja deve entender que não é a única instituição preocupada com a água. O bonde está passando e não vemos. Não seria melhor embarcar e atuar em conjunto?
3.3 A microbacia e a defesa das águas
                Todos nós, concretamente, vivemos numa microbacia. Ela é a nossa "casa". Numa única Paróquia podem existir muitas delas. Uma microbacia é uma pequena área geográfica; toda água nela existente, ou toda chuva que nela cair, acaba fluindo para o mesmo córrego que lhe dá o nome. Anos atrás fiz uma cartilha sobre "As Microbacias de Holambra". Holambra é um pequeno município paulista, alimentado por 16 córregos que lhe dão "Vida". Na capa da cartilha a seguinte frase: "Você quer salvar o Planeta Terra? Comece na sua Microbacia!" Você, prezado/a leitor/a, sabe o nome de "sua" microbacia? É aí que deve começar sua ação em defesa da Vida, como pede a Campanha da Fraternidade. O começo é sempre na nossa própria casa. Muitíssimas pequenas ações, isoladas ou, de preferência, em conjunto, são possíveis. Vejamos algumas:
3.3.1 Campanhas pelo tratamento do esgoto doméstico
                Não é preciso enfatizar, o Brasil anda muito atrasado neste item. É a maior ameaça às nossas águas. No Brasil em geral, 75% do esgoto doméstico não é tratado! A qualidade da água depende principalmente da quantidade de oxigênio dentro dela. As bactérias, atraídas pelo esgoto doméstico, se multiplicam com espantosa rapidez, consumindo todo o oxigênio disponível. Consequência: o rio (ou o córrego da nossa microbacia!) morre. Existe uma classificação nacional para a água dos nossos rios, expressa em cores, e valores de 1 a 5: 1) azul escuro: água limpíssima; 2) azul claro: OD não inferior a 5 mg/l (miligramas por litro; OD = Oxigênio Dissolvido); 3) verde; 4) amarelo: 5) marrom (OD inferior a 0,5 mg/l). É doloroso ver o mapa das nossas bacias hidrográficas e constatar que o rio vem limpinho, de cor azul, e, passando por uma cidade, de repente adquire a cor marrom. Muita coisa pode ser feita para evitá-lo. Especialmente nas áreas rurais, fossas céticas familiares e biodigestores nas empresas ajudam muito, mas a maior pressão deve ser exercida sobre as Câmaras Municipais (legislação!) e as Prefeituras (tratamento e fiscalização!). Qualquer Paróquia pode ajudar com eventos de conscientização e campanhas as mais diversas.
3.3.2 O lixo é reciclável!
                Os aterros municipais ou regionais (ou então os muitos lixos acumulados na nossa microbacia!) são outra grande ameaça às nossas águas. Por acaso, nesta semana em que escrevo, tivemos um encontro com autoridades municipais e entregamos um abaixo-assinado com 1.800 assinaturas solicitando, entre outros, uma coleta seletiva mais generosa. Ouvimos que o orçamento está curto, mas alguns "ecopontos" serão providenciados. Já é alguma coisa. Façam uma vez o exercício de visitar um aterro municipal. É inacreditável a quantidade de lixo recolhido, a grandes custos. E praticamente todo lixo é reciclável! Lembrem: em cada célula viva de qualquer organismo vivo existe uma usina de reciclagem e nada é desperdiçado! Ainda há muitos aterros "a céu aberto", infelizmente. Outros municípios usam o "aterro em vala", cobrindo o lixo enterrado com terra, o que é melhor. Mas um bom aterro fica a mais de 500 metros das moradias, mais de 200 metros do córrego mais próximo, e mais de 3 metros acima do lençol freático e em solo de pouca permeabilidade. Leis municipais para melhorar a situação são fundamentais. A Câmara Municipal tem aí um grande papel. Mas, novamente, a Paróquia (ou Região) pode ajudar muito, sugerindo, fiscalizando, cobrando, e, principalmente, conscientizando. Todos/as devem começar em casa, separando o lixo seco (papel, vidro, plástico, latas, etc.) do lixo orgânico (restos de comida, varredura de vegetais, etc.). Facilita enormemente a coleta seletiva que é aonde se quer chegar. A "Vida" agradece.
3.3.3 Por uma agricultura sustentável
                É impressionante como a Igreja ainda vive distante dos reais pontos onde a "Vida" é mais ameaçada. No nosso país, um dos pontos mais sensíveis é a agricultura. Não existe agricultura sustentável onde não se preserva (com generosidade e muito cuidado) a mata ciliar nativa. Esta mata, com suas raízes, transforma o solo numa espécie de "esponja" que segura grande quantidade de água e não deixa chegar ao rio (ou ao córrego da microbacia!) a erosão do solo e a poluição, melhorando a qualidade e a quantidade de suas águas. Hoje, muitos proprietários rurais estão interessados em recompor a mata ciliar. Você, padre ou leigo/a de Paróquia, faça uma vez, com as crianças ou jovens das pastorais, a "campanha do plantio de mudas", e vejam o enorme sorriso no rosto das crianças (ou dos jovens) ao sentirem que estão plantando "Vida". Nem é preciso falar dos inúmeros defensivos agrícolas e fertilizantes químicos que são despejados numa terra que era muito mais feliz quando não os conhecia. Cabe-nos defender não o selvagem "agrobusiness", mas, antes, a saudável agricultura orgânica e familiar (a "economia alternativa"). E sabiam que, por lei, as embalagens tóxicas usadas na agricultura devem passar por uma "tríplice lavagem" para, em seguida, serem encaminhadas a uma central de reciclagem?
                Finalmente, já diz o ditado: desgraça pouca é bobagem. Desgraça das mais brabas são aquelas trombas d´água que, de vez em quando, desabam sobre nossas microbacias. É de cortar o coração. O solo perde sua camada mais fértil, a enxurrada abre verdadeiras crateras nas ruas, córregos e lagos são assoreados, um fim de mundo. As Paróquias podem ajudar muito para criar uma "vida rural" mais benéfica à "Vida". O que mais segura as águas do solo são as chamadas "curvas em nível" e o "plantio direto na palha". Os comitês de bacia insistem em "planos municipais por microbacia". A chuva não respeita divisas de propriedade. As curvas em nível devem ser feitas de acordo com o desnível das terras em toda a microbacia, às vezes interligando propriedades particulares, com inclusão das estradas. Há estados e municípios que financiam estes projetos. Pressione, amigo/a, sua Câmara Municipal para que leis adequadas sejam feitas, e o/a Prefeito/a para que as fiscalize, mesmo que perca votos com isso!
Conclusão: lembremos de São Francisco de Assis
                Nada do que foi dito será feito se não houver uma forte vontade interior. O que faz o ser humano agir não é o conhecimento, mas o sentimento. Na sua surpreendente Encíclica Laudato SI, o papa Francisco dedica um capítulo inteiro ao assunto. Sem a força da fé, sem uma mística, o mundo não mudará o perigoso rumo por onde enveredou. Hoje, em todos os biomas, a "Vida" está ameaçada. É grande a responsabilidade da Igreja. Nosso melhor exemplo é São Francisco de Assis. Este sim, sem conhecimentos mais profundos, entendia que não apenas os seres humanos são nossos irmãos e irmãs, mas todos os seres vivos.... e até as pedras no caminho. Ninguém melhor do que o filho de Assis para nos dizer que também a água é nossa irmã, porque a "Vida", na verdade, está presente em tudo. Obrigado/a, irmã água! E como S. Francisco ensinava melhor quando falava em linguagem poética, permitam-me encerrar este artigo com uma poesia, feita para um "dia de campo" com agricultores:
PRECE DA TERRA
                Certa vez, ao entardecer, um humilde lavrador sentou-se na sombra de uma paineira e se pôs a pensar. De repente, em meio a um silêncio muito profundo, teve a sensação de ouvir a terra rezar:
"Meu Deus, até quando devo suportar essa dor!
1) Fui feita para a vida. Carrego nas costas, facilmente, uma floresta inteira,
mas olha só o que me fizeram: nem uma roça de milho consigo sustentar.
Revolveram minhas entranhas, e as expuseram ao calor do sol,
minhas veias endureceram, por mais que eu tente, mal consigo respirar.
2) Morro de saudades das muitas aves que, nas árvores, vinham se aninhar,
hoje mais pareço um deserto e, quando chove, céus, até me mudam de lugar.
Protesto, Deus! Gosto da companhia dos insetos, das raízes, da minhoca,
não aguento mais aquele adubo esquisito que me tentam empurrar.
3) Produzia plantas, flores, alimentos, tudo crescia, numa variedade sem igual,
de madrugada, quando o sol se levantava, a animação da roça era geral.
Agora, até onde a vista alcança, só vejo a mesma planta, onde já se viu!,
até me dão banho de veneno, cruz credo, cadê a joaninha, e os pulinhos do tiziu?
4) Mas há um consolo, Deus, me permita confessar,
nos "dias de campo" muitos lavradores voltam a me respeitar.
Você me fez daquele jeito, sou teimosa, não vou mudar,
só quem respeita minha natureza verá sua roça de milho prosperar!"

* Pe. Nicolau João Bakker é missionário do Verbo Divino (SVD), sacerdote formado em Filosofia, Teologia e Ciências Sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Lecionou Teologia Pastoral no Instituto de Teologia de S. Paulo (ITESP/SP) e coordenou programas contra a violência urbana e de formação de lideranças numa ONG de Direitos Humanos e Educação Popular, em S. Paulo (CDHEP/CL). De 2001 a 2008 foi vereador, pelo PT, no Município de Holambra SP. Atualmente atua na pastoral paroquial em Diadema SP. Nos últimos anos escreve regularmente nas revistas REB, Vida Pastoral, Grande Sinal e Convergência. Endereço do autor: Rua Juruá, 798, Jd. Paineiras, 09932-220 Diadema SP. Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br> E-mail: <nijlbakker@hotmail.com>.

1) Maiores detalhes em Vida Pastoral Nº 278/2011.
2) Ver em: Margulis Lynn, Symbiotic Planet: a new vision of evolution, New York: Basic Books, 1988; e Microcosmos, São Paulo: Ed. Cultrix, 2002.
3) Maiores detalhes em Vida Pastoral Nº 281/2011.

Questões para ajudar a leitura individual ou o debate em comunidade:
1) Os biomas brasileiros são muito diferentes entre si. Quais as diferenças que você percebe?
2) Quais as diferenças entre a "vida" de um ser humano e a vida dos demais seres viventes?
3) Uma "mística" adequada é importante para uma Igreja mais "ecológica"?

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Vida Pastoral, março de 2017: Campanha da Fraternidade 2017: Uma nova concepção de "vida fraterna"

Campanha da Fraternidade de 2017: Uma nova concepção de "vida fraterna"

Nicolau João Bakker, svd*


Introdução:
                Surpreendeu-me o tema da CFr. de 2017: "Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida".  O que a fraternidade tem a ver com os biomas brasileiros? Tradicionalmente nossos biomas são seis: a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal, e os Pampas do Sul. Ultimamente se acrescenta a eles a Zona Costeira e Marinha. Não é um pouco artificial ligar estes biomas ao conceito de fraternidade?
                A fim de encontrar uma resposta mergulhei na minha infância. Lembrei-me do lugar onde nasci: quase dois metros abaixo do nível do mar, num dos famosos "pôlderes" holandeses, uma grande e rica extensão de terra cercada pelos não menos famosos "diques" da Holanda. Tudo fruto de uma luta mais do que secular contra a temível bravura do mar. Chamavam-nos de "frísios do Oeste", isto em oposição aos frísios "de verdade" que moravam do outro lado de um grande braço do mar, a 25 km. de distância. Lá se falava uma outra língua que nem sequer entendia. Aliás, mesmo do nosso lado, em cada aldeia, de 3 em 3 km., o linguajar do povo - e também o modo de brincar, caçoar, torcer e opinar - era um pouco diferente. Em seu conjunto, nós, frísios do Oeste, constituíamos claramente uma "tribo" bem diferente das demais tribos holandesas. Depois de adulto me dei conta que até na religião éramos diferentes. Tínhamos, sem dúvida, um modo bem próprio de encarar as nossas obrigações religiosas.
                Quando minha família, na década de 1950, emigrou para o Brasil, estabelecendo-se numa pequena cooperativa agrícola na área metropolitana de Campinas (Holambra), eu, com 21 anos de idade, enfrentei um mundo totalmente novo. Juntamente com meu pai e meus três irmãos, era preciso aprender a tirar o sustento para uma família de 11, não mais a partir de um único alqueire do bioma pôlder, mas agora a partir de um bioma inteiramente diferente. Os muitos cupinzeiros esparramados pelo velho pasto à nossa frente não deixavam dúvida. Estávamos diante de um "latifúndio" de 14 alqueires de cerrado paulista. Trabalhando na roça com paulistas, mineiros e cearenses, goianos, baianos e paranaenses, fui logo percebendo que cada um/a trazia do seu bioma de origem - evidentemente com variedades regionais - um mundo próprio, não apenas no sotaque, nos costumes e nas tradições, mas também em todo um jeito particular de encarar a vida.
                De fato, mais do que nosso estado ou região de origem, é o bioma que define o viver, conviver e sobreviver do ser humano. A modernidade, com sua fortíssima tendência de criar o "homo globalis" - fruto de uma mídia homogeneizadora e um novo estilo de vida, urbano, escolarizado, e industrializado - tende a aniquilar o efeito bioma, mas não há como. Cada bioma é o resultado de forças cósmicas que mudam apenas a longuíssimo prazo e que ultrapassam em muito a capacidade humana de, de alguma forma, dominá-los. Muito antes de o ser humano destruir o bioma, o bioma irá destruir o ser humano. Em muitos sentidos o bioma "gera" o ser humano, dando-lhe sua característica própria, não apenas nas feições do corpo, mas também nas da alma. A não ser que algum imperialismo religioso a tenha modificado, em cada canto do planeta encontraremos uma população originária dirigindo ao mundo do além uma oração particular e muito própria.
                O objetivo deste artigo é demonstrar que, das ciências da vida, surge uma nova concepção de "vida fraterna". Se queremos realmente "defender a Vida", como pede a Campanha da Fraternidade, vamos ter que "educar o nosso olhar" - como dizia Teilhard de Chardin (†1955) - e perceber que, de fato, somos irmãos e irmãs não apenas dos nossos semelhantes, os seres humanos, mas também, como já intuía São Francisco de Assis (†1226), de todos os demais seres vivos do planeta. Faremos isto, em primeiro lugar, observando “a Vida como ela é”. Em seguida veremos que também o bioma, como a própria "Vida", é sempre uma "teia partilhada". E, finalmente, tiraremos algumas conclusões pastorais "em defesa da Vida".
I “A Vida como ela é”
                A fraternidade, antes de ser um fenômeno social, é um fenômeno biológico. Trata-se de um exagero colocar as coisas desta forma? Parece, mas não é. A "Vida", apesar das ocasionais aparências contrárias, é, toda ela fraternal ou sororal. Podemos perceber isso melhor quando colocamos debaixo da lupa uma célula viva, de qualquer ser vivente que seja, observando o seu "metabolismo" celular.1 Antes de mais nada devemos então distinguir entre células sem núcleo central e células com núcleo central. Os especialistas falam em células "procariontes" e células "eucariontes". Durante os primeiros dois bilhões de anos, a Vida no planeta Terra, iniciada há cerca de 3,7 bilhões de anos, foi comandada basicamente pelas bactérias, seres vivos unicelulares sem núcleo central. Seu DNA é mil vezes mais simples que o nosso e não passa de um único cordão de uns 4000 genes que flutua livremente no líquido - o "citoplasma" - celular. Mas não subestime as bactérias. Elas, sem sexo algum, podem multiplicar-se a cada vinte minutos e partilhar entre si até 15% do seu código genético diariamente! Esse "pool gênico" deu a elas a capacidade de adaptar-se às mais diversas e duras condições de um planeta em permanente transformação. As bactérias acabaram "inventando" os principais mecanismos de sustentação da "Vida" que ainda hoje marcam o dia a dia do metabolismo celular: a fermentação, a fotossíntese, a fixação do nitrogênio, a respiração aeróbia, a pigmentação, a locomoção, etc.
                Vejamos isto colocando debaixo da lupa a "nossa" célula, a eucarionte, isto é, a que possui um núcleo central e que apresenta uma complexidade muito maior do que a das bactérias. Devemos à grande microbióloga, Lynn Margulis, a comprovação científica de que não são apenas as mutações genéticas e as transferências genéticas diretas - como a das bactérias - que fazem evoluir a vida, mas que existe também a poderosa força da "simbiogênese".2 É aí que percebemos com maior clareza que a "Vida", em qualquer nível, depende inteiramente da tal "fraternidade biológica". Todas as células eucariontes são fruto de uma integração, uma colaboração íntima e permanente - uma "simbiose" - entre forças vivas antes separadas. Tomemos como exemplo a simples alga do mar, a antecessora das plantas. Colocada debaixo da lupa, os especialistas percebem que seu núcleo genético é uma fusão de dois tipos diferentes de bactérias: a "arqueofermentadora" - capaz de decompor cadeias de carbono, ou açúcares, transformando-os em fonte de energia - e uma outra já capaz de locomoção, a "nadadora". Mais adiante uma terceira bactéria veio enriquecer o conjunto da célula: a "respiradora", especializada em respirar oxigênio. Estes novos seres que, há aproximadamente dois bilhões de anos, resultaram desta múltipla fusão, ainda unicelulares, vieram receber depois a inestimável colaboração de uma quarta bactéria, a "fotossintetizadora" (a cianobactéria verde-azulada). Mas os resquícios desta encontramos apenas no "reino" das plantas, e não no reino dos fungos ou no reino dos animais.
                Ajustemos, porém, ainda mais a lente da nossa lupa. Dentro do núcleo central de cada célula eucarionte podemos observar claramente um pequeno "mininúcleo" que, em conjunto com o DNA principal do núcleo central, dá origem aos aproximadamente 500.000 "centros de produção", ou "ribossomos", espalhados pelo fluido celular, cada um produzindo, além das proteínas e enzimas necessárias, também as quatro "organelas" principais que sustentam a Vida da célula: 1) as "usinas solares", ou cloroplastos, que - apenas nas células vegetais - absorvem do ar o dióxido de carbono e a energia do sol, e da terra a água e os minerais, para, com ajuda de enzimas, transformar tudo em açúcares alimentares, devolvendo ao ar o oxigênio (= fotossíntese); 2) as "casas de força", ou mitocôndrias, que, também com ajuda de enzimas, realizam a respiração celular, usando a energia proveniente do oxigênio para decompor as indispensáveis moléculas de açúcar, transformando-as em "transportadores de energia", as famosas moléculas de "adenosina trifosfato" (ATP), que fornecem energia a todas as células, e ao corpo, quando e aonde for necessário; 3) são produzidas ainda as "bolsas de armazenamento" que servem de reserva e acondicionamento dos produtos celulares para serem usados quando necessário; e, 4) as "usinas de reciclagem" onde se faz o reuso de elementos não usados ou danificados. Que bela lição de "Vida", onde tudo colabora com tudo e nada é desperdiçado!
                Foram esses novos seres com núcleo central e alta complexidade, chamados "protistas", que evoluíram, passando de unicelulares a multicelulares, até transformar-se, por caminhos diferentes, nas atuais plantas, fungos e animais. Ao reino destes últimos - devemos humildemente reconhecer - pertencemos todos nós. As bactérias, enquanto isso, como também os protistas, mantêm seus reinos próprios. Sabe-se lá o que ainda vão inventar para garantir a sobrevivência da "Vida" no planeta! Estão quase onipresentes, tanto dentro quanto fora do nosso corpo. Um minúsculo centímetro cúbico de terra fértil contém bilhões delas! Continuam da maior importância. Um exemplo? Repare na atmosfera terrestre. Nela há 21% de oxigênio. Se o nível subisse para 25%, tudo na terra entraria em combustão. Se baixasse para 15%, nada conseguiria respirar. São principalmente as bactérias que mantêm o nível adequado.
                Se queremos entender a "Vida" como ela é, não existe melhor retrato do que este do metabolismo celular. A célula, porém, não é inteiramente autônoma, pois através de sua "membrana" - resistente, mas permeável - ocorre um vai e vem contínuo de material orgânico. É sempre o "meio ambiente" local que dá sustento à Vida, permitindo, inclusive, (raros) momentos de superação. Mas não existem comandos externos, ou causas únicas. As células se renovam permanentemente, e isto "por própria conta". Elas, sem causa externa, tiram cópias de si mesmas, ou "se auto-replicam" como dizem os entendidos. Qualquer mudança é sempre fruto da ação conjunta da célula toda, e a Vida apenas permanece como fruto de relações. Qualquer isolamento significa morte. Uma espécie de fraternidade faz, portanto, parte da essência da Vida não-consciente. Se na Vida consciente as coisas, frequentemente, são diferentes, não é a conversão ecológica, ressaltada pelos últimos papas, a única solução? A mesma teia de interrelações colaborativas que caracteriza a célula, caracteriza também o órgão no qual a célula está inserida. E assim também o organismo e as interrelações entre órgãos e organismo. Não importa tratar-se de uma humilde planta, um animal feroz ou qualquer outro ser vivo. Apenas a Vida consciente pode interferir no padrão das relações vitais, no sentido de efetivamente contrariá-las.
II Biomas: teias de vida partilhada
                Estendendo agora o nosso olhar para os grandes biomas devemos, em primeiro lugar, perceber que a mesma teia de relações que caracteriza a Vida da célula caracteriza também o bioma. O caráter bioquímico da Vida não permite exceção à regra. Assim como a célula, o órgão e o organismo, também o bioma, por maior que seja, não é inteiramente autônomo. Através de suas divisas - sua "membrana" permeável - ocorre um permanente vai e vem de energias cósmicas que lhe dão sustento. As nuvens carregadas de vapor do mar trazem água, o elemento mais precioso e indispensável da natureza. Sobras são passadas adiante. Os ventos expulsam o calor excessivo do ar, restaurando a temperatura ideal. A energia solar está abundantemente disponível para a fotossíntese de todas as plantas verdes. Da mesma forma o oxigênio, fornecendo energia às mitocôndrias de todos os seres viventes. Como já vimos, é o meio ambiente adequado que permite à Vida prosperar.
                Mas cada bioma tem também sua personalidade própria, sua identidade. E esta, também, se renova e se perpetua "por conta própria", graças às inúmeras relações colaborativas que são específicas a ela. Um exemplo prático talvez ajude a esclarecê-lo. Recentemente, numa viagem ao sul do Pantanal com alguns familiares, passamos por uma estreita estrada de terra rumo à Pousada & Camping Santa Clara. Num determinado percurso de não mais de 30 km. passamos por quase 40 pontes de madeira, todas de difícil manutenção. Ao lado da estrada uma imensidão de água de sete metros de profundidade, quase cobrindo a mata verde, buscando uma saída apressada por baixo das pontes. Perguntando ao rústico mas bem informado guia turístico da Pousada sobre o porquê de tantas pontes de difícil e cara manutenção, obtive uma resposta muito esclarecedora. "Aqui no Pantanal", dizia-me com simplicidade o simpático guia, "dependemos muito da água. Nas águas altas nem acesso à Pousada não tem. Repare naquela árvore. A parte mais escura do casco mostra que a água, ainda há pouco, estava acima da estrada. As muitas pontes estão aí para a água escoar o mais depressa possível. Daqui a dois meses todos os pastos por aqui estarão secos. Temos agora as últimas chuvas de verão. Elas são muito importantes para nós. O sedimento das águas deixa uma fina camada de lodo sobre as raízes da grama, não permitindo que a nova grama se desenvolva bem para o gado comer. A grama tem que crescer antes do tempo da seca. Sem estas chuvas o gado pode morrer e eu perco o meu emprego."
                Tiro na mosca. Da sabedoria humilde de um experiente pantaneiro recebi uma grande lição ecológica: cada bioma é uma autêntica teia de vida partilhada. Todos/as dependem de tudo e de todos/as. Na estrada passamos, de fato, por uma grande boiada, voltando dos poucos campos altos para as grandes baixadas. Seguramente mais de mil bois, todos miseravelmente magros, à espera de novos e mais generosos pastos. Entendi que, originalmente, cada bioma tem sua economia muito própria. Pareceu-me até que os boiadeiros haviam encarnado o lento mas seguro ritmo das estações. Amavelmente nos deixavam passar, mas sem nenhuma pressa, deixando aos bois a decisão de sair ou não do caminho. Nas pousadas por onde passamos encontramos na mesa os produtos locais, sempre com algum toque diferente, original. Produtos oferecidos com orgulho pantaneiro. Nas conversas não apenas o sotaque, mas todo um jeito próprio de sentir as coisas do lugar e contar sua história. Uma "cultura" própria, diríamos nós. Em fim, cada bioma com seu jeito particular de viver, conviver e sobreviver. Assim como na célula, assim no bioma. Uma grande teia partilhada.
                Volto a perguntar: trata-se de um exagero falar em "fraternidade biológica"? Entendo que não, porque a mais perfeita fraternidade cristã nada mais é do que pôr em prática, conscientemente, o que a própria "Vida" é de forma inconsciente. A Vida é sempre uma teia de relações colaborativas. Em qualquer nível, por onde olharmos para ela, em nenhum momento encontramos a imposição de algum elemento não-colaborativo ou mal intencionado. É comum alguma influência estranha ou até ameaçadora entrar no sistema, mas o conjunto das relações colaborativas estará apto a oferecer resistência e recuperar o equilíbrio, ou então, lentamente, adaptar-se. Como tudo está interrelacionado, qualquer "meio ambiente", grande ou pequeno, estará sujeito, historicamente, a momentos de crise, ou até, esporadicamente, a grandes cataclismas, mas sempre de novo cada sistema, e os diferentes sistemas entre si, por suas próprias forças vitais internas, voltarão, adaptando-se, ao velho ou a um novo equilíbrio.
                Não é o tema de reflexão deste artigo, mas é preciso fazer menção a algo misterioso que as ciências da Vida têm muita dificuldade em captar. Algo natural, pois a ciência, por si só, não pode captá-lo. Apenas pela fé é possível captar o sentido mais profundo daquilo que chamamos "Vida". O renomado filósofo alemão, Hans Jonas, usa uma expressão muito adequada. Em toda a criação, ele diz, existe um "horizonte de transcendência". Por mais de um bilhão de anos, a Terra desconhecia a "Vida". Apenas o interminável intercâmbio entre os elementos físico-químicos, em resposta ao meio ambiente cósmico. Mas existe uma espécie de "fraternidade inicial" entre os elementos da natureza. Suas diferentes polaridades elétricas os levam a "transcender" a individualidade e formar conjuntos marcados pela estabilidade. Em especial o carbono - a mãe de todos os produtos orgânicos - se presta a incontáveis combinações. Logo que o meio ambiente da Terra o permitiu, a fraternidade inicial evoluiu para a "fraternidade bioquímica" ou biológica que acima retratamos. De estágio em estágio, esta evolui na direção de uma complexidade cada vez maior. Dissemos acima que "o caráter bioquímico da Vida não permite exceção à regra". Pois, a própria tendência à transcendência faz parte da regra! Após 620 milhões de anos de evolução, o cérebro humano possibilitou ao ser humano criar consciência de si mesmo e captar "o sentido" da Vida. Aí surge a "fraternidade consciente", a marca registrada de todas as religiões, entre as quais a cristã.
                Ninguém sabe qual o ponto final do processo. O inexistente não se sujeita à comprovação científica. Apenas a fé pode intuir a continuidade do "horizonte". Nós, cristãos/ãs, acreditamos num "Reino" a construir, a "Nova Jerusalém" que, mais do que uma conquista, será um dom, pois "descerá do céu" (Ap 21,10). Ainda há um longo caminho à nossa frente. Quem sabe, uma globalização mais positiva possa um dia levar a humanidade a ter relações colaborativas muito mais amplas e profundas. As fraternidades conscientes construirão então a "Vida em Plenitude" sonhada por Jesus (Jo 10,10).  Felicidade humana nada mais é do que isso.
III Por uma pastoral "em defesa da Vida"
                Ocasionalmente alguns me perguntam: suas reflexões pastorais não são um pouco utópicas, longe da realidade pastoral do dia a dia? Digo: sim e não. A reflexão que acabo de fazer pode parecer teórica - e é -, mas ela é indispensável para quem, - padres, irmãs ou leigos/as -, se propõe a fazer algo concreto na direção do que pede a CFr. de 2017. Querer atuar "em defesa da Vida" sem ter uma clareza maior do que a "Vida" é, facilmente leva a equívocos. Apenas teorias, é verdade, de nada adiantam, pois a pastoral é feita de ações concretas, mas construir muros sem adequar o prumo é ilusório. É desperdício do nosso precioso tempo. Já dizia Santo Agostinho (†430) que não adiantam os grandes passos quando feitos nos caminhos errados. Por outro lado, lembrando meus tempos de professor de Pastoral, aprendi que "receitas prontas" não são muito educativas. Como vimos, a Vida apenas prospera com colaborações "autônomas", embora integradas. Vamos tentar chegar mais perto do dia a dia sem cair na armadilha de aprisionar a criatividade.
3.1 Romper a couraça institucional
                Esta é, no meu entender, a primeira pré-condição para um bom trabalho "em defesa da Vida". E, acredite, ela mexe profundamente com nosso dia a dia. Se o papa insiste numa "Igreja em saída", é porque estamos demasiadamente presos aos nossos incontáveis e incontornáveis compromissos paroquiais (ou institucionais). Estou em paróquia e sinto o desafio diariamente. Existe uma ciência, a da "cognição" ou "do conhecimento", que afirma: nosso modo de atuar define o nosso modo de pensar! É, humanamente, quase impossível romper com as tradições que nos prendem, com as convenções sociais que nos ditam as regras, e com o contexto sócio-cultural que nos impede de ver o que está para além do nosso horizonte. Via de regra, o que se sedimentou no inconsciente fala mais alto do que o consciente.
                Ora, não esqueçamos - especialmente nós, agentes pastorais, padres, religiosos/as ou leigos/as - que a Igreja, durante séculos, se manteve "avessa" ao mundo. A Igreja-Instituição se voltou com exclusividade para as preocupações intra-eclesiais. Depois do Concílio Vaticano II, marcadamente na América Latina, houve uma curta reação. As CEBs e as Pastorais Sociais deram um novo rosto à Igreja, mas, globalmente, as forças renovadoras não prevaleceram. Sem uma sacudida forte no ministério ordenado, especialmente por parte do Vaticano, o clericalismo irá prevalecer e os padres - em geral os animadores gerais do processo - se verão, na prática, presos aos limites impostos pela instituição. No momento do "agir", a CFr., seja no social, seja no ecológico, irá propor, sugerir, etc., mas ficará apenas no papel. Romper couraças institucionais é muito mais difícil do que imaginamos. Requer uma espécie de conversão. Quem quer partir "em defesa da Vida" deve largar (em parte!) a agenda paroquial, mobilizar tempo, e ir para onde a "Vida" corre perigo.
3.2 Saber articular-se
                Esta é outra pré-condição. Hoje, em quase todos os cantos do Brasil, tem gente se preocupando com o meio ambiente. O grande bioma, pela sua enorme extensão, costuma ficar fora do alcance dos binóculos, mas lembrem: a "Vida" é feita de relações colaborativas. São tão importantes os níveis locais quanto os maiores. O bioma costuma ser dividido em grandes "bacias hidrográficas". Estas são feitas de diferentes "sub-bacias" menores. E cada bacia menor se constitui de inúmeras "microbacias". A "Vida" surgiu da água, e dela depende. Você que é padre, irmã, ou leigo/a, não vale a pena dar uma olhada ao redor, ver quem já está atuando, ou querendo atuar, e "articular-se" com estas pessoas "em defesa da "Vida"? Em certa fase de minha vida tive a oportunidade de atuar junto a uma ONG de meio ambiente de um pequeno município no interior do estado de São Paulo (na grande bacia hidrográfica do Rio Piracicaba).3 Fiz uma pequena cartilha popular sobre as 16 microbacias do município (Holambra). Cito uma parte do texto: "Microbacia é uma pequena área geográfica; toda água nela existente, ou toda chuva que nela cair, acaba fluindo para o mesmo córrego que lhe dá o nome". E em destaque: "Todo ser humano vive numa microbacia. Não permita que se jogue qualquer sujeira nela. A microbacia é a sua casa"!
                Você, leitor/a, já sabe o nome de "sua" microbacia? Procure saber e mãos à obra.4 O importante é "articular-se". Mas, "ah!, são de outra religião". Não importa. "São de outro partido". Também não importa. "Não são da nossa paróquia". Importa menos ainda. A única coisa que importa é "defender a Vida". Com essa mania da nossa Igreja (ou será dos nossos bispos?) de apenas incentivar as pastorais "internas", a "Vida" lá fora está numa agonia danada. Para muitos já é tarde demais para reverter a situação. Aliás, essa imperiosa necessidade de melhorarmos as nossas articulações não tem a ver apenas com o meio ambiente. É igualmente importante para todas as nossas pastorais sociais. Se em décadas passadas estas foram, quem sabe, até supervalorizadas, hoje elas - quando ainda existem - estão numa situação de dar dó. Frequentemente não existe mais nada, nem na Paróquia, nem na Região Pastoral. Não custa, porém, dar início a algo novo. Ultimamente, o que tem dado certo é a criação de pequenos "fóruns". São mais maleáveis, pois podem priorizar ora a questão social, ora a questão ecológica. Por aqui criamos, de forma suprapartidária e suprarreligiosa, o nosso "fórum de entidades". Estamos, neste momento, na preparação de um "Ato Ecumênico contra a violência" e, também, na preparação da nossa "Sexta Caminhada Ecológica". Para esta última ainda falta definir o foco.
3.3 Focar nos inimigos do bioma
                Seria muito saudável que todos/as fizéssemos uma boa análise da surpreendente Encíclica Laudato Si do papa Francisco. Não fala de biomas, mas está perfeitamente dentro daquilo "que a Vida é". Mais de trinta vezes aborda o tema "tudo está interligado".5 Mas, como o atual sucessor de Pedro não é de dar pontos sem nó, quase quarenta vezes cita como causa principal de uma eventual "catástrofe ecológica" (nº 4) o atual paradigma tecnocientífico, visto por todos os governos como o único caminho de enfrentamento e superação. Uma verdadeira ilusão global. Todos os biomas são fruto de uma delicada interrelação entre o clima predominante na área e uma grande variedade de condições locais, tais como: o tipo de solo, fauna e flora, a distribuição geográfica das águas, a densidade populacional, as condições de mercado, e até a tradição cultural das populações originárias. O que faz o tal paradigma tecnocientífico? Desconsidera e atravessa todas as condições específicas do bioma e impõe um sistema "exógeno" (extra-biômico) e único de produção e consumo, sem qualquer preocupação com as consequências sociais e ecológicas. Rasga-se simplesmente toda a "teia (tradicional) de vida partilhada". E, como vimos acima, rasgando a teia da "Vida", a morte é certa.
                Evidentemente, trata-se de uma realidade mais visível nas áreas rurais do que nas áreas urbanas. Vocês que atuam numa área rural, seja na catequese, na liturgia, no dízimo, na pastoral familiar, da juventude, ou em qualquer outra pastoral ou movimento, já pensaram como incluir esta questão da defesa da "Vida" em sua agenda de trabalho? Vejam ao seu redor e reparem aonde o paradigma tecnocientífico está fazendo seus maiores estragos. Pode ser uma reserva indígena ameaçada que necessita, urgentemente, de apoio; uma quilombola prestes a ser invadida e fatiada pelo "progresso"; a crescente leva dos sem-terra; uma grande área de ribeirinhos que vê minguar sua tradicional fonte de proteínas (peixe?; produtos naturais?); uma rica reserva natural clamando por defensores; ou então, como ocorre na maioria dos casos, uma rica e produtiva agricultura orgânica e familiar que perde mercado porque todos/as se deixam seduzir pelos belos produtos apregoados na mídia. Ninguém se mexe, ninguém conscientiza, ninguém se articula contra? Perdida em meio às suas múltiplas e bem-intencionadas preocupações intra-eclesiais, a Igreja não pode correr o perigo de, pela omissão, ser como o "fermento" dos fariseus contra o qual Jesus admoestou os seus discípulos (Mt 16, 5-12)?
3.4 Valorizar o bioma como berço da fé
                A configuração concreta da fé não é o/a missionário/a quem traz, mas o chão do bioma. O planeta Terra apresenta um grande mosaico de biomas. Em cada um deles, a "Vida", como já vimos, tem rosto próprio. Os antropólogos culturais costumam ressaltar as grandes diferenças nos costumes e tradições das diferentes tribos e etnias. Nestas tradições, por mais que a modernidade queira eliminá-las, a fé ocupa um lugar central. Por quê? Simplesmente porque é, antes de tudo, o bioma que condiciona o modo do viver, do conviver e do sobreviver. Daí, desta realidade, nasce a comunicação humana, o modo de falar e o modo de pensar. Para manter a "Vida" de cada coletividade, inúmeras relações colaborativas são necessárias. Uma das principais é a busca coletiva do "sentido", e é desta busca coletiva do sentido que nasce a fé da comunidade. O bioma é como que o berço da fé.
                O chamado mundo cristão ocidental, com sua ânsia globalizadora - tanto na economia como também na fé -, por um longo tempo tentou passar por cima de tudo isto. Na economia, o pensamento único ainda é quase total, embora cresça, entre os descartados, a força de uma proposta alternativa (a economia solidária). Na fé, porém, as coisas já mudaram um bocado. Embora ainda com alguma restrição por parte do Vaticano, a ideia de uma "Revelação diferenciada", tão cara ao teólogo belga Jacques Dupuis (†2004), se impôs entre os teólogos e, cada vez mais, também no senso de fé do povo cristão. Deus se revela em todas as religiões, e quanto maior o diálogo fraterno, mais rica a humanidade. Há quem creia que todas estas expressões de fé, que surgem das tradições populares, pertencem à "civilização agrária" que chegou ao fim. Seria preciso então mirar em algo totalmente novo para o futuro. Mais do que isso, creio que é preciso olhar para trás. Para o chão do qual nasce o ser humano e sua fé. Para a vida biológica que configura a "Vida" do ser humano. Um ser humano que sempre estará em busca de um sentido para a sua Vida, a fim de preservá-la o melhor que pode. Seu único recurso: a fé! Inclusive para ditar o rumo de sua economia.
                Tudo isso é, pastoralmente, muito relevante. A missão da Igreja não deve ser globalizadora, mas "localizadora".  Valorizar mais a riqueza que cada bioma traz em defesa da "Vida": acolher os modos de pensar característicos da população na evangelização, adotar as expressões típicas de sua mística na liturgia, e apoiar os caminhos próprios de sua população para superar os problemas por meio da ação sócio-transformadora. Em REB 298/2015, o missiólogo Paulo Suess comenta a fala do então (1992) cardeal Ratzinger, na comemoração do 5º Centenário da conquista das Américas, em Salzburg (Austria), tratando do tema "Evangelho e Inculturação". Firmemente ancorado nas verdades incontestáveis da Congregação da Doutrina, o cardeal opina que uma "Páscoa curativa" deve sanar todas as culturas, não bastando a mera inculturação da fé. Dá para entender a preocupação do futuro papa, mas nós, cristãos/ãs, também precisamos de uma Páscoa curativa. A própria "Vida" nos ensina o caminho: o do diálogo fraterno, sem imposições. 
Conclusão
                Estabelecer um nexo entre biomas e fraternidade cristã, até muito recentemente, seria impensável. Mesmo hoje é preciso enfocar o tema de forma adequada para não tirar conclusões apressadas e sem nexo. Talvez, mais do que uma questão de doutrina, seja uma questão de espiritualidade. No cristianismo, mais importante do que o conhecer é o viver, o praticar. Perceber que a fé cristã tem algo a ver com o ar que respiramos, com a flora e a fauna, e com as paisagens, as águas e o mar; dar-nos conta, enfim, que tudo está interligado, que não somos donos, mas parte da natureza, e que "somos todos terra", como afirma o papa Francisco (LS 2), tudo isso está mais para sentimento, empatia e emoção do que para frias argumentações doutrinais. A Bíblia toda expressa esta reverência. Jesus a manifesta quando fala dos lírios do campo, e Francisco de Assis faz o mesmo quando pede ao irmão Antonio para, mais do que ensinar a doutrina teológica aos frades menores, se preocupe em ensinar o caminho da piedade. Sem uma mística, o ser humano não muda suas atitudes (LS 216).
                Foi ao escrever este artigo que veio-me a ideia de fazer distinção entre fraternidade inicial, fraternidade biológica e fraternidade consciente. Não tenho dúvida que ocorreu um processo evolutivo neste sentido. A consciência humana, aliás, continua em evolução. Sem isto seria incorreto falar em "nova" concepção de vida fraterna. O amar ao próximo como a si mesmo não foi "inventado" por Jesus, como às vezes é sugerido. Já fazia parte da Antiga Aliança. Esta concepção religiosa nem é própria apenas da tradição semítica. Ela, embora com linguagens as mais diversas, é própria de todas as religiões, da humanidade enfim. Por trás de uma certa antropologia cultural - que marcou a nossa história escrita - devemos perceber a antropologia biológica que a antecedeu.... e que continua fortemente presente. Não se trata de uma linguagem meramente metafórica.
                Na filosofia da nossa assim chamada pós-modernidade podemos observar uma fortíssima e surpreendente tendência para repensar a incansável busca humana por espiritualidade. Também a teologia moderna está em busca de um novo pensar sobre Deus e a religiosidade humana. Por mais importante que seja não perder de vista a riqueza das doutrinas acumuladas no passado, as ciências da "Vida" parecem sugerir que o melhor caminho talvez seja o de atentar melhor para "a Vida como ela é", para assim captar, com maior segurança, o que possa ser a "Vida em Plenitude" almejada por Jesus. Neste sentido, também os biomas têm uma lição a dar. Que a Campanha da Fraternidade de 2017 nos ajude a não perder o foco.

* Missionário do Verbo Divino, sacerdote, formado em Filosofia, Teologia e Ciências Sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Em São Paulo, foi educador popular no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo, São Paulo (CDHEP/CL), e professor de Teologia Pastoral no Instituto de Teologia (Itesp/SP). De 2000 a 2008, foi auxiliar na pastoral e vereador, pelo PT, no município de Holambra-SP. Representou a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita/SP). Atualmente atua na pastoral paroquial de Diadema-SP. Nos últimos anos publica regularmente na Vida Pastoral, REB, Convergência e Grande Sinal. Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br> E-mail: <nijlbakker@hotmail.com>
1) Maiores detalhes em Vida Pastoral Nº 278/2011.
2) Ver em: Margulis, Lynn, Symbiotic Planet: a new vision of evolution, New York: Basic Books, 1988. E: Margulis Lynn / Sagan Dorion, Microcosmos, São Paulo: Editora Cultrix, 2002.
3) Maiores detalhes em Vida Pastoral Nº 281/2011.
4) Maiores detalhes em Convergência (início de 2017).
5) Maiores detalhes em Convergência Nº 490/2016.