Sobre Marx, Piketty e
os lírios do campo
Pe. Nicolau João Bakker, svd*
Introdução:
Marx dispensa apresentação, mas Piketty, para o público da Igreja em
geral, ainda é um tanto desconhecido. Precisamos apresentá-lo brevemente.
Trata-se de um economista francês que, em 2013, publicou o surpreendente livro O Capital no Século XXI que,
imediatamente, tornou-se o best-seller do ano. "Um livro fantástico"
observou o Prêmio Nobel americano, Paul Kruger. "Extraordinária pesquisa
histórica" acrescentou o conhecido economista brasileiro, Antonio Delfim
Netto. O famoso diário inglês, The
Guardian, não deixou por menos: surgiu "o rock star da economia",
sentenciou.
E nós, religiosos,
religiosas, padres, leigos ou leigas da Igreja, temos algo a ver com isso? Sim,
muito. É a razão do nosso artigo. Assim como Karl Marx, economista do século
XIX, teve grande influência sobre o pensar e o agir das diferentes sociedades,
assim também Thomas Piketty terá forte influência sobre o pensar e o agir das
sociedades nas próximas décadas. Nunca devemos esquecer que o sistema econômico
de uma sociedade constitui o "eixo" a partir do qual as engrenagens sociais
se movimentam. Todas as instituições de uma sociedade podem ser analisadas a
partir deste eixo, inclusive a Igreja, a Vida Religiosa, e a Pastoral. Qual a
ânsia mais profunda que habita os seres vivos na opinião dos biólogos
evolucionistas? Simplesmente: viver, conviver e sobreviver da melhor forma
possível! Quando Richard Dawkins escreveu seu livro O gene egoísta (1976), ele deixou claro que, em qualquer espécie
viva, os genes egoístas e altruístas se articulam entre si para preservar a
"Vida". Com base nesta ânsia biológica, as sociedades se organizam e
"se institucionalizam" para obterem êxito. Hoje, a Economia e a
Política são as expressões laicas deste anseio humano. As diferentes
espiritualidades humanas e as instituições "eclesiais" são sua
expressão religiosa. No Concílio Vaticano II, a Igreja se conformou com a
direção laica do mundo, mas não deixou de afirmar que a Igreja está aí para
indicar o rumo (GS 73-76).
Também a
Vida Religiosa está aí para oferecer "vida plena" ao mundo (Jo 10,10).
Será que Piketty tem algo a contribuir? Logo mais o veremos. Quanto a Marx,
todos sabemos que, fazendo da religião um ópio, ele se tornou, por muito tempo,
o inimigo no 1 da Igreja. Hoje, um século e meio depois, o
julgamento é, digamos, mais matizado. Não se pode negar que também Marx - como
nós - sonhava com o que ele dizia ser o "Homem Novo". Também ele se
batia por uma Nova Sociedade. Como, na época, as espiritualidades reinantes se
voltavam quase que exclusivamente para o cuidado da alma ou do espírito, Marx
tachou a Igreja de alienada... não sem um bocado de razão. Vivesse hoje, na
América Latina, talvez pudesse ser um companheiro de caminhada. Sua análise
econômica (e política), no entanto, foi muito perspicaz. Piketty mostrará alguns
equívocos, mas não o supera. Veremos que a ambos faltou entender melhor porque
os insignificantes lírios do campo se vestem tão bem.
I Qual a análise que
Piketty faz do capitalismo?
Durante quinze anos, com diferentes equipes altamente especializadas,
Piketty pesquisou, passo a passo, a evolução do capitalismo dos últimos
trezentos anos, utilizando para isso as fontes mundiais mais confiáveis. Traz
todos os resultados em gráficos e tabelas que, além de muito didáticos, são
também muito consistentes. É difícil contestar esses dados objetivos. Como
aborda um amplo período histórico iremos nós também apresentar a tese de Piketty
de acordo com fases históricas específicas, mas, antes, devemos, por algum
momento, entrar na sala de aula e aprender com Piketty o que é "renda
nacional". A renda nacional se divide, tradicionalmente, em "renda do
capital" e "renda do trabalho". Quem tem um capital, seja uma
terra produtiva, um imóvel, uma fábrica, um equipamento, ou então um capital
meramente financeiro, como depósitos bancários, fundos de aposentadoria, ações,
juros, títulos públicos ou privados, dividendos, etc., sempre terá a possibilidade
de fazer o capital render alguma coisa. Somando a renda anual de todos os proprietários
de capital de um país obteremos a "renda do capital" daquele país.
Por outro lado, quem não vive de capital, vive de salário. Somando o valor de
todos os trabalhos assalariados (incluindo trabalhos não assalariados),
obteremos a "renda do trabalho" do país. Juntando capital e trabalho
teremos a "renda nacional" (não incluímos a "renda externa
líquida" por ser em geral insignificante). Muito bem. Vejamos agora o que nos
mostram os gráficos de Piketty.
1.1 O capitalismo antes
da Primeira Guerra Mundial (até 1914)
Piketty mostra que, na época de Marx, e até a Primeira Guerra Mundial, a
renda nacional estava extremamente concentrada nas mãos de poucos possuidores
de capital. Na Europa em geral, em 1910, o estoque do capital nacional, a preço
de mercado, valia a soma de seis a sete anos de renda nacional. Um patamar
nunca mais visto. As rendas do capital (exclusivamente) representavam de 35 a
40% da renda nacional, e a renda do trabalho de 60 a 65%. O capital pode ser
dividido entre público e privado. No caso, estamos apenas falando do capital
privado. Marx não pôde fazer uma análise de longo prazo, mas via muito bem o
fortalecimento do capitalismo industrial de seu tempo e o baixíssimo nível dos
salários, então estagnados. Se olharmos para a riqueza em geral, incluindo
também as heranças recebidas no passado, os 10% mais ricos da população possuíam
até 90% da riqueza total do país (ficando 50 a 60% disto apenas para o
centésimo - o "1%" - superior). Resumindo: não existia uma classe
média, uma vez que a quase totalidade da riqueza estava nas mãos de poucos
abastados.
1.2 O capitalismo no
tempo das duas Guerras Mundiais (1914-1945)
A partir da Primeira Guerra Mundial, o capitalismo europeu muda,
significativamente, de fisionomia. O valor do estoque do capital privado nacional
despenca, algo jamais imaginado por K. Marx. Se antes valia entre seis e sete
anos de renda nacional, em 1945 valia apenas entre dois e três anos, dependendo
do país. O patamar mais baixo da história. A renda do capital que antes representava
em torno de 35 a 40% da renda nacional baixou para menos de 20%, e a renda do
trabalho subiu de 60 a 65% para quase 80%. Olhando novamente para a riqueza em
geral podemos observar que os 10% mais ricos da população que antes possuíam
até 90% da riqueza total, agora possuem por volta de 75% (o centésimo superior,
sozinho, 30%!). O que mais chama a atenção é o valor do estoque do capital
nacional que baixou violentamente. O que aconteceu? Evidentemente, as duas
guerras fizeram um grande estrago, mas não foi somente isso. A crise da bolsa,
em 1929, baixou o valor das ações, a revolução bolchevique (1917) criou
insegurança, e os sindicatos se tornaram mais fortes. O fator principal, porém,
foi o fato de os países introduzirem, na primeira metade do século XX, um forte
imposto progressivo sobre a renda. É preciso prestar atenção a este fato,
porque é o que, até certo ponto, "controla" o capital (ou o
capitalista) de forma permanente, sem interferência dos imprevistos históricos.
Resumindo: o capital balançou e o trabalho mostra a cara.
1.3 O capitalismo nos
"Trinta Anos Gloriosos" (1945-1975)
Durante quase dois séculos, os economistas (e os políticos) se
posicionavam em dois campos opostos: ou se era um liberal ou se era um
marxista. Deu na "guerra fria" da qual os mais idosos, ou idosas,
entre nós ainda se lembram. Não que não houvessem vozes divergentes, mas elas
eram pouco ouvidas. Depois da Segunda Guerra Mundial, porém, entre 1945 e 1975,
surgiram na Europa - para facilitar a compreensão ficamos com o exemplo
europeu, embora Piketty mostre muitas outras realidades - os assim denominados
"Trinta Gloriosos" que deram aos países europeus um novo rosto. Foi
quando o capitalismo industrial realmente se generalizou, criando raízes
profundas. Se o crescimento anual médio da economia por habitante, normalmente,
não passava de 1 ou 2%, nos Trinta Gloriosos alcançou de 3 a 4% (1950-1970). Essa
pequenina diferença nos números representa, no longo prazo, uma enormidade em
recursos a mais para os países em questão. Novas tecnologias e uma educação generalizada
geraram um aumento constante na produtividade, o que possibilitou uma melhor distribuição
dos lucros, também fruto de um operariado mais aguerrido. Já vimos que a crise
da bolsa de Nova York e as duas guerras mundiais, entre outros, ensinaram aos
países o caminho do imposto progressivo sobre as rendas. Além do mais, a forte
inflação engoliu boa parte das imensas dívidas públicas do pós-guerra. Tudo
colaborou para o surgimento do tão falado Well-fare State (Sociedade do
Bem-Estar social) europeu. Para muitos, o capitalismo se tornou,
definitivamente, a única proposta séria. Com um pouco de presença do Estado
(alguma estatização, impostos progressivos, e apoio bancário especial nas
crises), tudo estaria resolvido da melhor forma para sempre.
Vejamos
o que nos mostram os gráficos de Piketty sobre este período: o valor do capital
privado subiu de 2 anos de renda nacional para 2,5 anos de renda nacional; a
renda exclusiva do capital na renda nacional sobe para 21% e a renda do
trabalho desce para 79%. O décimo superior das altas rendas detinha 75% da
riqueza total do país em 1945 e um pouco mais de 60% em 1975. Aparentemente
oscilações modestas. Qual então a grande novidade? A novidade é que, neste
período, mesmo mantendo-se a renda do trabalho perto dos 80%, houve uma forte
diminuição da desigualdade entre os trabalhadores. Veja isto melhor no próximo
tópico.
1.4 A evolução recente
do capitalismo (1975 até hoje)
O capitalismo mundial passou por uma grande "virada" a partir
da década de 1970. A Europa em geral entrou num longo processo de estagflação
(estagnação + inflação), convencendo muitos economistas (e políticos) que algo
estava errado. Criou-se forte ojeriza à presença do Estado na economia. Os
governos Thatcher/Reagan introduziram a nova onda neoliberal, com forte redução
de impostos e uma liberalização generalizada das restrições ao capital (em
especial ao capital financeiro globalizado). Os gráficos de Piketty mostram que,
neste novo período, o valor do capital privado sobe de 2,5 para 4 a 6 anos de
renda nacional, dependendo do país, com clara tendência de subir ainda mais nas
próximas décadas. Nos países desenvolvidos em geral, a renda do capital se
estabiliza agora em 30% da renda nacional e a renda do trabalho em 70%. Observa
Piketty: "O desenvolvimento de uma verdadeira 'classe média patrimonial'
constitui a principal transformação estrutural da distribuição da riqueza nos
países desenvolvidos no século XX". E: "Estamos assistindo à volta
triunfal do capital privado nos países ricos desde os anos 1970, ou, mais do
que isso, ao ressurgimento de um novo capitalismo patrimonial." Se em 1910
os 10% mais ricos da Europa detinham a quase totalidade da riqueza nacional
(até 90%), em 2010, o décimo superior possuía 60% da riqueza total (o centésimo
superior, sozinho, 25%!), o grupo do meio quase 35%, e os 50% mais pobres algo
pouco acima de 5%. Diz Piketty: "A metade inferior da população dos países
desenvolvidos é tão pobre hoje quanto era no passado." Nos Estados Unidos,
a desigualdade é ainda maior, ficando os 50% mais pobres com miseráveis 2% (o
décimo superior com 72%!).
Falando
somente da renda do trabalho, Piketty faz distinção entre desigualdade baixa,
média e alta. Como exemplo de desigualdade baixa cita o caso dos países
escandinavos de 1970-1980, para desigualdade média a Europa (2010), e para
desigualdade alta os EUA (2010). Os resultados são os seguintes: os 10% mais
ricos dos países escandinavos recebem
20% da renda do trabalho (o 1% mais rico 5% e os 9% seguintes 15%); na
Europa, os 10% mais ricos recebem 25% (o 1% mais rico 7% e os 9% seguintes
18%); nos EUA, os 10% mais ricos recebem 35% (o 1% mais rico 12% e os 9%
seguintes 23%). Os 40% do meio recebem 45% nos países escandinavos, 45% na
Europa e 40% nos EUA. Os 50% mais pobres recebem 35% nos países escandinavos,
30% na Europa e 25% nos EUA.
Um/a
observador/a menos atento/a poderia pensar: se os capitalistas (em geral) ficam
com 30% da renda nacional, ainda sobram 70% para quem vive do trabalho. Nada
mal! Na verdade, nada mais enganador do que isso. Trata-se sempre de um
pequenino grupo de capitalistas que enriquece muito, em oposição a uma imensa
maioria que apenas vê o navio passar. Piketty tem o grande mérito de mostrar,
com dados convincentes, a grande e crescente disparidade entre os possuidores
do capital, como também entre os possuidores dos salários. Em 1987, os
bilionários eram cinco em cada cem milhões de habitantes adultos do mundo; em
2013 eram trinta. Estão sentados sobre pilhas e pilhas de dinheiro, investidas
frequentemente em especulação financeira sem nenhuma relação com qualquer
produção significativa. Nos EUA, um grande grupo, publicamente, fez um apelo ao
Presidente Obama para aumentar seus impostos, sinal evidente da anormalidade da
situação. No mundo do trabalho, o centésimo ou milésimo superior, em geral
executivos das grandes corporações ou "experts" de grandes fundos de
investimento, chegam a ganhar facilmente cem vezes mais do que a média salarial
do país. Isto sem relação alguma com um suposto (ou alegado) aumento de
produtividade útil. O sistema "enlouqueceu", diz Piketty. A perspectiva
de futuro é especialmente alarmante se levarmos em conta que, de 1987 a 2013,
as maiores riquezas mundiais cresceram, em média, já descontada a inflação,
6-7% ao ano, contra 2,1% ao ano para a riqueza média mundial por habitante
adulto.
II Entre Marx e
Piketty, com quem ficamos?
No século XIX, o século de Karl Marx, o capitalismo industrial se
espalhou por toda a Europa, dando altos lucros aos capitalistas, enquanto os
salários, extremamente baixos, ficaram estagnados. Não é preciso entrar em
detalhes, todos sabemos das péssimas condições de trabalho na época. Marx,
observador atento da situação, chegou à seguinte conclusão: os capitalistas
estão criando os seus próprios coveiros! A concorrência entre os proprietários
do capital os obriga a procurar os mais altos lucros possíveis, e o caminho
mais óbvio é baixar os salários o mais que puderem. O resultado final de tudo
isso só pode ser um grande confronto entre proprietários e trabalhadores. Mais
cedo mais tarde ocorrerá a revolução operária, e então surgirá uma Nova
Sociedade, sem exploração do ser humano. Marx não teve o mesmo privilégio de
Piketty de poder fazer uma análise de longo prazo, nem teve às mãos a mesma
quantidade de dados objetivos. Percebeu o processo permanente de acumulação do capital
mediante os lucros, mas não podia imaginar o aumento permanente da
produtividade com sua possibilidade de distribuir os lucros entre faixas cada
vez mais amplas da população operária. Marx também não podia prever o
surgimento de um Estado Social mediante a aplicação sistemática de impostos
progressivos sobre as rendas e a criação de políticas públicas generalizadas.
Em O Capital no Século XXI, Piketty reúne
uma quantidade impressionante de dados históricos e elabora uma proposta
diferente de Marx. Diz, explicitamente, que muito cedo foi vacinado contra a
falácia dos economistas marxistas que, ao invés de partir de dados objetivos,
se prendem à ideologia. Não questiona os eventuais altos lucros, nem o mercado
livre. Pelo contrário, saúda-os como necessários e indispensáveis. Até as
desigualdades sociais são bem-vindas, desde que "fundadas na utilidade
comum", conforme a Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa (1789). Para o autor,
o Iluminismo e a Modernidade deram ao mundo ocidental os valores da democracia (em
especial a democracia "meritocrática") e da justiça social que devem ser prestigiados.
Mas como harmonizar o mercado livre e a justiça social no contexto de uma
"acumulação infinita" do capital? Esse é o ponto central do livro.
Piketty observa que Marx errou ao falar dos coveiros, uma vez que o capitalismo
não entrou em colapso. Muito pelo contrário, está hoje mais forte do que nunca.
Mas Marx acertou, ele diz, quando afirma que o capital tende a uma acumulação
sem limites. Diversas vezes Piketty faz questão de observar que não existem
mecanismos naturais dentro do sistema capitalista que vão na direção de uma
superação espontânea das desigualdades. Em seus gráficos encontramos a presença
constante de uma "linha em forma de U": antes da Primeira Guerra
Mundial, uma linha reta, lá nas alturas, quando o capital alcança sete anos de
renda nacional; em seguida uma forte queda com a vinda da crise da Bolsa, das
guerras, do estatismo e dos impostos altamente progressivos; e a partir de 1950
uma nova tendência ascendente com a linha agora já beirando os seis anos de
renda nacional. Só existem forças "externas" para controlar a
voracidade do capital, afirma Piketty.
É justamente
aí que entra sua proposta central de um "imposto progressivo sobre o
capital". O autor lamenta o atual "extremismo meritocrático" e o
abandono dos pesados impostos progressivos sobre a renda a partir da introdução
da economia neoliberal. Especialmente nos países anglo-saxões, esses impostos
chegaram a 90%, justamente os países que agora mais os rejeitam. Além do
imposto progressivo sobre as rendas, o autor insiste no aperfeiçoamento do
imposto sobre a herança. Particularmente no contexto de uma quase estagnação do
crescimento populacional, as heranças recebidas (contra o espírito da
democracia meritocrática que valoriza o fruto do trabalho) representam parte
crescente da riqueza nacional. Mas Piketty insiste especialmente no imposto
progressivo sobre o próprio capital, a fim de impor controle sobre sua
acumulação sem fim. O autor reconhece a grande dificuldade de sua aplicação
concreta, uma vez que a maior parte do capital não é mais constituída, como
antes, de capital imobiliário, mas de um capital financeiro que não obedece a
limites geográficos. Uma pesquisa recente indica que em torno de 10% destes
ativos se encontram em paraísos fiscais, fora da legalidade. Por isso, Piketty
insiste na imperiosa necessidade de uma legislação mundial (ou ao menos leis
continentais), com um cadastro fidedigno das riquezas individuais e declarações
de renda dentro da realidade. Tudo isso requer um avanço enorme em gestão
democrática, com total transparência, inclusive governamental e bancária.
Quais os
dados objetivos que, na opinião do autor, comprovam a acumulação infinita do
capital, algo que Marx também defendeu, embora de forma mais intuitiva? Entremos
na sala de aula de Piketty mais uma vez. Seu argumento mais comum é definido
como ”r > g", onde r representa a taxa média do
"rendimento" (ou retorno) do capital (antes dos impostos) e g a taxa média de crescimento econômico
por habitante. Cada vez que a taxa média de rendimento do capital num
determinado país é maior que a taxa média de crescimento econômico por
habitante, o capital daquele país se acumula nas mãos dos capitalistas. Pode
haver enorme diversidade no rendimento dos diferentes proprietários (e até
prejuízos), mas o conjunto dos capitalistas, em média e a longo prazo, aufere
uma parte cada vez maior da renda nacional. Qual a força das pesquisas de
Piketty? Elas demonstram que, em todos os países e em qualquer época, as taxas
médias de rendimento do capital, mesmo descontados os impostos, sempre foram
maiores do que as taxas médias do crescimento econômico. Portanto, apenas
fatores externos e impostos podem impor um controle ao sistema. O controle mais eficaz, para
Piketty, é um imposto progressivo sobre o capital de qualquer origem.
III Sobre Jesus e os
lírios dos campos.
Depois de dialogar exaustivamente com Marx e Piketty, vem agora a
incômoda pergunta: e nós com isso? Qual a mensagem que estes autores trazem
para a Vida Religiosa, a Igreja, a Pastoral? Iniciemos pelo seguinte ponto: se
nossa missão principal, de fato, é "dar vida" ao mundo, e "vida
em abundância" como Jesus afirmava, então devemos em primeiro lugar entender
o nosso mundo. É preciso saber como ele funciona, o que o faz prosperar, e
também o que pode causar-lhe dano. Mais acima já falamos que a economia é o
"eixo" do mundo. Não conhecemos o mundo se não conhecemos o eixo que
o faz girar. Tudo isso é mais importante ainda se queremos realmente "dar
rumo" ao nosso mundo. É o que a Igreja, no seguimento de Jesus, sempre pretendeu fazer, e é o que o Vaticano
II pede explicitamente à Igreja e à Vida Religiosa. Na verdade, não somos nós
que escolhemos o rumo. Quem dá o rumo é o próprio Jesus Cristo, mediante sua
Palavra e seu Espírito.
Mas,
será que são realmente os economistas que entendem o nosso mundo? Marx, sem
dúvida, foi um economista perspicaz que percebeu muito bem com quantos paus se
faz uma canoa. Percebeu, principalmente, que quem não tem a madeira não faz
canoa alguma. Mas a visão de Marx estava limitada ao olhar do tempo. Piketty
mostra alguns dos seus equívocos. Piketty cita também outros economistas que
tiveram grande influência. Simon Kuznets (†1985), filho dos "Trinta
Gloriosos", em Shares of Upper
Income Groups in Income and Savings (1953), defendia que bastava ter
paciência e esperar que o crescimento econômico beneficiasse a todos (Dizia-se:
"growth is a rising tide that lifts all the boats" - Crescimento
econômico é a maré que levanta todos os barcos). Também o Nobel de Economia, Robert
Solow, na mesma época, defendia um processo natural de "crescimento
equilibrado": o aperfeiçoamento tecnológico, espontaneamente, acabaria beneficiando todos os segmentos da sociedade. E
o mais do que afamado professor Paul Samuelson (†2009), ou John Maynard Keynes
(†1946)? Piketty, com a grande quantidade de dados históricos que traz, põe
todos em seu devido lugar. Será ele o novo papa da teoria econômica? Para nós,
da Igreja, não importa muito. Importa muito, isto sim, conhecê-los e aproveitar
de suas contribuições para conhecer cada vez melhor o mundo em que vivemos, mas
nenhum economista nos dá a palavra final. Afinal, o foco de todos os economistas
é apenas este: crescimento econômico! O noticiário de rádio e tv, o discurso
dos governantes, a elite acadêmica mundial, a música, sem exceção, é feita de
uma nota só: sem crescimento não há salvação. A lógica do mundo que nos governa
é apenas esta: quando os celeiros estão cheios é preciso aumentá-los!
Jesus
conhecia bem este mundo. O capitalismo é tão antigo quanto o próprio ser
humano. Já lembramos dos genes egoístas e altruístas de Richard Dawkins. A
"Vida" precisa de ambos para florescer, mas facilmente os genes
egoístas atropelam os altruístas. A tradição judaico-cristã começa com a
advertência de Moisés: é preciso escolher entre a bênção e a maldição (Dt 11,
26-28). Jesus complementa: nesta terra há cabritos e ovelhas. Apenas às ovelhas
- os "benditos do Pai" - é oferecida a herança do Reino (Mt 25,
31-46). Os lírios do campo estão aí, pequenos e insignificantes, mas, se Deus
veste tão bem o que é insignificante, pra quê se preocupar tanto? Apenas
"os gentios deste mundo" têm mania de destruir celeiros e construir
maiores. "Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado de vosso
Pai dar-vos o Reino" (Lc 12, 13-32).
É vital
para nós - e para o mundo - perceber que Jesus não é o único a levantar esta
mensagem. Ele mesmo segue as pegadas dos profetas que O antecederam. As
tradições judaica, islâmica e cristã, todas bebem da mesma fonte. Talvez não
seja por acaso que ela surgiu quando as primeiras civilizações humanas
acumularam riquezas, construindo pirâmides, e torres de Babel. Bem cedo Moisés
alertou os hebreus para não recaírem nesta maldição. Sim, havia a saudade das
cebolas do Egito, mas pra quê se preocupar tanto e encher a dispensa se Deus
manda o maná da terra todas as manhãs para cada um/a colher à vontade? E a
longa lista dos profetas, não estavam todos preocupados com os altares erguidos
a deuses estranhos? Javé apenas quer misericórdia, e não sacrifícios. Tomemos a
mística judaica, sufi, ou cristã, o rumo apontado é um só: a felicidade humana
não depende do tamanho do bolso. Melhor nem levar duas túnicas, nem sequer andar
de mula, como aconselhava São Francisco. Aliás, todas as místicas do mundo
bebem da mesma grande fonte que é a inerente contingência e miserabilidade
humanas. Só existe um lugar onde o coração humano pode descansar: em Deus (cf.
S. Agostinho). Para aqueles (ou aquelas) que se alimentam de uma fé já mais
secularizada poderíamos dizer também: todo ser humano, mesmo o que pensa ter
deixado sua fé para trás, busca, às vezes desesperadamente, um sentido mais
profundo para sua existência. Este sentido nunca está ao alcance da mão. Nesta
terra são encontradas apenas "vaidades" (Ecl 1, 1-18). O melhor está
sempre no "além", no Outro, na alteridade. Esta mesma espiritualidade
"humana" encontramos também nos mais belos pensamentos de Lao Tse,
mestre original do taoísmo (do "Caminho") chinês, ou nas diferentes
vertentes budistas. Religiosidade não é um privilégio cristão, é o oxigênio que
mantém vivas as sociedades.1
Piketty é
um economista generoso, com um bocado de genes altruístas. Propõe um forte
imposto progressivo sobre o capital e a riqueza, tendo em vista o
fortalecimento de um Estado Social e uma Democracia Meritocrática onde a
desigualdade social é tolerada apenas quando considerada "justa",
isto é, quando "útil" à coletividade e ao sistema. Não interfere na
lógica do sistema: o capitalismo é bom porque permite ampliar os celeiros,
havendo então mais trigo a distribuir. Muitos membros da
Igreja podem encontrar em Piketty uma proposta de justiça social mais ao
encontro da tradicional Doutrina Social católica. O autor, no entanto, passa ao
largo de muitas preocupações latino-americanas: como superar a
"dependência" das economias periféricas dos comandos centrais?; como
superar o fortíssimo controle político do "1%" sobre a massa popular
impotente (os "99%" do movimento Occupy, ou dos Indignados
espanhóis...ou brasileiros)?; um "outro mundo" é possível?; se é
preciso apostar na democracia, em qual delas devemos investir?; onde ficam os
excluídos numa "democracia meritocrática"?; e como fazer tudo isso
com pleno emprego e respeito ambiental? Marx foi mais incisivo, colocando no
centro a questão do poder. Piketty, na verdade, apenas propõe um capitalismo
mais decente. Entregar, porém, o controle da sociedade ao capital é sempre
colocar a raposa no galinheiro.
Nossa opinião é que Piketty abre perspectivas
importantes que podem até reverter a irracionalidade do atual sistema
neoliberal, mas ele não compreende a linguagem narrativo-simbólica do
Evangelho. Não entende porque os lírios do campo se vestem tão bem. O mundo
ocidental, seja periférico ou central, deixou à margem as religiões, a
espiritualidade. Quem cria o mundo, todos os dias, é Deus, e Deus faz isto
através do seu Espírito, presente na religiosidade humana (de todas as
religiões). Jesus o intuiu muito bem: os frágeis lírios do campo continuarão
florescendo apenas quando o mundo abre espaço para o Reinado de Deus. O Capital no Século XXI nos remeteu à
década de 1970, quando, no quarto ano de Ciências Sociais, fizemos nossa
pré-especialização em economia, escrevendo uma tese sobre "o PIB e a
FIB": o Produto Interno Bruto é meio; a Felicidade Interna Bruta é fim. Um
fim que deve ser respeitado também no decorrer do processo para que as mais
profundas utopias humanas (sempre religiosas), um dia, possam tornar-se
realidade.
* Pe. Nicolau João Bakker é missionário verbita (svd), formado em
filosofia, teologia e ciências sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural
e urbana. Representa a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas
(Provita SP). Atualmente atua na Paróquia S. Arnaldo Janssen, em Diadema SP. Além
de cartilhas populares, publicou diversos artigos pastorais em: REB, Vida Pastoral, Verbum, Grande Sinal e
Convergência.
Endereço
do autor:
R. Juruá, 798 - Jd.
Paineiras
09932-220 Diadema SP.
E-mail:
nijlbakker@hotmail.com
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>
1. Aprofundamos alguns
aspectos desta "mística antropológica" em Convergência Nos 468 e 470/2014.
Questões
para ajudar a leitura individual ou o debate em Comunidade:
1. Diz o texto que a
economia é o "eixo" da vida social. Como você vê esta questão
pessoalmente?
2. Piketty faz uma
forte crítica ao neoliberalismo econômico. Qual o ponto central de sua
argumentação?
3. Para a Igreja em
geral, e a Vida Religiosa em particular, qual a mensagem que deve ser
priorizada?