quarta-feira, 30 de maio de 2018

Curso Verão 2018: Política: "a forma mais sublime de fraternidade". Eis a nossa vocação.


POLÍTICA: “A FORMA MAIS SUBLIME DA FRATERNIDADE”
EIS A NOSSA VOCAÇÃO

Nicolau João Bakker1

INTRODUÇÃO
            Quem por primeiro afirmou que a política é “a forma mais sublime da fraternidade” foi, parece-me, o papa Pio XI (†1939). Depois dele, quase todos os papas se manifestaram da mesma forma. Qual a razão deste grande destaque dado à política na fé cristã? É porque o cristianismo não é uma religião de louvor e adoração apenas. É muito mais uma religião de “fazer a vontade do Pai que está nos céus”. Não basta clamar “Senhor, Senhor”, disse Jesus (Mt 7,21). Mais correto ainda seria dizer que a melhor forma de louvar e adorar é justamente a prática de amar os nossos semelhantes, em especial os que vivem na prostração, no sofrimento ou na opressão. É assim que ensinaram e agiram os profetas e o próprio Jesus.
            Qual o objetivo da política? Todas as democracias ocidentais se baseiam, em última instância, no conceito grego de “cidadania”: o direito e o dever dos cidadãos de cuidar da polis (cidade). Se os gregos ainda excluíam desta cidadania as mulheres, os escravos e as classes populares em geral, hoje as legislações modernas, ao menos em princípio, concedem o direito de cidadania – o direito “político” – a todos os habitantes do país. Todos podem e devem promover, do melhor modo possível, o bem de seu local de moradia, de sua cidade e do seu país. Será que é diferente nos países não ocidentais? Se formos olhar com atenção para a enorme variedade de culturas africanas, asiáticas, ou mesmo para as nossas indígenas, vamos perceber que em todas elas reina alguma forma de ”cidadania política”: quem governa deve governar para o bem de todos e quem
1Nicolau João Bakker é padre, religioso, Missionário do Verbo Divino (svd). É formado em filosofia, teologia e ciências sociais, com pré-especialização em economia. Dedicou a maior parte de sua vida à pastoral paroquial: no Vale do Ribeira, na periferia paulista, e, ultimamente, em Diadema. Lecionou Teologia Pastoral no ITESP. Atuou como educador popular no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo, São Paulo (CDHEP/CL). Foi vereador em Holambra SP, de 2001 a 2008. Nos últimos anos escreve regularmente nas revistas Vida Pastoral, REB, e Convergência.
é governado deve levar em conta não apenas seus interesses pessoais, mas também os interesses coletivos.
            Fraternidade e cidadania são, portanto, como que os dois lados da mesma moeda, ou então, são duas formas de falar da mesma coisa. Nas instituições religiosas se fala em fraternidade, nas instituições seculares em cidadania. Nenhuma coletividade humana deixa de ter alguma configuração política onde interesses pessoais e coletivos são culturalmente balanceados. A antropologia moderna ajuda a compreender isso melhor. Somos claramente descendentes dos assim chamados “animais gregários”. Juntamo-nos em grupos para lutar, juntos, por nossos interesses. Não apenas por interesses mesquinhos, mas também por nossos sonhos e ideais, em fim, por tudo aquilo em que acreditamos. A história da humanidade é uma história de lutas tribais, guerras fratricidas e combates violentos para superar antagonismos de classe, cor, gênero, nacionalidade e tantas outras coisas mais. Mas é também a história das mãos que se unem para construir um futuro comum melhor, um futuro de paz, justiça e fraternidade. Repare que cada um e cada uma de nós costuma fazer isso em pequena escala, no lugar onde vivemos. Formamos grupos para tudo, na vizinhança, no bairro, na escola, na Igreja, ou, simplesmente, com nossos companheiros e companheiras de profissão, de esporte e lazer, ou de um hobby qualquer. Conviver juntos e lutar por aquilo em que mais acreditamos é simplesmente da nossa essência. É o sangue que corre nas nossas veias.
            Cuidar do bem comum – da polis, isto é, fazendo “política” - é, portanto, a “vocação” de todo ser humano. Neste pequeno capítulo vamos analisar isso melhor, vendo em primeiro lugar qual o conteúdo político da missão dos profetas e de Jesus; depois veremos como a vocação política do ser humano se dá em sociedades tipicamente religiosas, ou seculares; finalmente colocarei em destaque minha própria vocação política, como padre e religioso, e a vocação política dos cristãos em geral.
I A VOCAÇÃO PROFÉTICA E SEU CONTEÚDO POLÍTICO
            Moisés é um dos mais claros exemplos de como o profetismo, na história de Israel, está inseparavelmente ligado ao contexto político em que se origina. Ao ler a passagem da vocação e da missão de Moisés (Êx 3,1-22) não pode haver nenhuma dúvida quanto a isso. Moisés se encontra no deserto, fugido e escondido do faraó do Egito, quando o Deus dos antepassados apela a ele. O Deus que está acima de todos os nomes, mas que “ouve os gemidos” dos escravizados, o chama (vocação = chamado) a deixar sua covardia de lado e a libertar seus irmãos da escravidão. Um chamado ao mesmo tempo religioso (crer) e político (agir). O que Deus pede é algo humanamente impossível. Não existe pessoa mais poderosa do que o faraó do Egito. Seu império depende dos escravos. A história, escrita séculos depois do ocorrido, sem dúvida foi “enfeitada” de diversas formas, mas isso apenas dramatiza ou ressalta a mensagem principal: Moisés, de fato, pela força da fé, alcança o politicamente impossível. A partir deste fato histórico, a fé judaica, cristã e islâmica nunca mais irá separar a fé de seu imperativo libertador.
            Samuel vive em outra época. A ameaça da opressão agora vem dos filisteus. Os costumes tribais, a liberdade conquistada, a equidade na partilha das terras, os governos autônomos das lideranças tribais, e até a própria fé em JHWH estão em perigo. Percebendo a força e o “sucesso” dos reinados à sua volta, o povo clama por algo igual. Querem um rei, um rei que governe em nome de JHWH. Qual o problema? O que a memória histórica guardou da missão profética de Samuel? Seria bom reler o que disse o assessor bíblico do CEBI, do Regional Nordeste II da CNBB e da CRB, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, no livro do curso de verão de 2016 (p. 63):
Samuel é apresentado como o homem lúcido que, no seio da crise, faz ver o limite onde               esbarram as soluções humanas, a ambiguidade e a impossibilidade radical dos projetos humanos. Era preciso escolher um rei como condição de sobrevivência. Só que essa solução seria ela mesma o germe da “morte” e da tragédia do povo. Na verdade, reconhecer e aceitar um poder sobre o povo é legitimar a opressão. E nada mais contrário à fé javista (cf. Dt 17,14-20). Só JHWH é rei. E desse fundamental artigo de fé nasce a luta pela liberdade e a vigilância subversiva sobre o poder (cf. 1Sm 8; Jz 8,22-27; 9,1-21; Dt 5,6-7).
Para Samuel, como para todos os profetas, o verdadeiro culto a Deus é permitir que JHWH governe. A missão religiosa é ao mesmo tempo política. Assim como muitos outros “videntes” da época tribal, Samuel previu o quanto os reinados dos homens ficariam devendo a JHWH por não darem atenção “aos gemidos do povo”.
            O profeta Amós sentiu na pele os desmandos dos reinados humanos. No século VIII a.C., o Reino do Norte, já, politicamente, separado do Reino do Sul, vive um surto de prosperidade, O luxo, na cidade de Samaria, se opõe à miséria entre a população camponesa. A política do reinado, pressionada pelo poder dos assírios, se opõe frontalmente aos compromissos da Aliança e aos mandamentos de JHWH. O vaqueiro e cultivador de sicômoros, Amós, se sente tomado pelo Espírito de JHWH e se rebela. Acusa tanto a tradição dos santuários de Israel quanto as tradições injustas da corte do rei Jeroboão. Revoltado, anuncia seu fim. Por tudo isso é expulso do meio das lideranças religiosas e políticas do santuário de Betel. O pequenino livrinho de Amós é um forte grito contra uma falsa religiosidade e uma falsa política. Não são apenas os dirigentes que erram por “amontoarem opressão e rapina em seus palácios” (Am 3,10). Também o povo “multiplica os seus pecados” porque “de manhã oferecem seus sacrifícios e ao terceiro dia seus dízimos; queimam pão fermentado como sacrifício de louvor... mas não se voltaram a mim” (Am 4,4-6). Todos devem praticar a justiça de JHWH que liberta os cativos e espoliados. É esta a única política admissível e a única religiosidade aceitável.
            Também Isaías, o maior de todos os profetas antigos, se rebela contra a política demasiadamente humana dos governantes. Em vez de confiarem em JHWH, confiam sempre nas suas alianças estratégicas com as potências estrangeiras, para assim se defenderem da ameaça crescente do grande império assírio. Por causa da infidelidade do povo a JHWH, o Reino do Norte já foi tomado pelos assírios em 721 a.C. O futuro do Reino do Sul também não é nada promissor. “Com efeito, Jerusalém tropeçou, Judá caiu, porque suas palavras e seus atos são contra JHWH” (Is 3,8). Isaías aponta, com realismo mordaz, para os abusos das elites que “juntam casa com casa, e amontoam campo sobre campo”,... porém, “as casas serão reduzidas à ruína”... ”Ai dos que madrugam cedo para correr atrás de bebidas fortes... mas para os feitos de JHWH não têm um olhar sequer”... “Ai dos que absolvem o ímpio mediante suborno e negam ao justo a sua justiça”... “Por esta razão... seus cadáveres jazem no meio das ruas como lixo” (Is 5,8-25).. Também a religiosidade do povo, opina Isaías, está equivocada. “Que me importam os vossos inúmeros sacrifícios?, diz JHWH. Estou farto de holocausto de carneiros e da gordura de bezerros cevados... Basta de trazer-me oferendas vãs... Ainda que multipliqueis a oração, não vos ouvirei. Vossas mãos estão cheias de sangue... Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva! Então, sim, poderemos discutir, diz JHWH” (Is 1,11-18).  São idolátricas as religiões ritualistas e alienantes. Mas, existe uma certeza: a justiça de Deus não falhará. porque, algum dia, “um ramo sairá do tronco de Jessé... e a terra estará cheia do conhecimento de JHWH” (Is 11,1-9). O mais “messiânico” de todos os profetas é Isaías. Virá o dia em que o próprio JHWH irá reinar sobre a terra. Um descendente de Davi fará reinar sobre a terra a paz e a justiça.
            O povo aclamou Jesus como “o filho de Davi”, e o próprio Jesus se apresentou em Nazaré como o novo Isaías: “O Espírito de JHWH está sobre mim” (Is 61,1; Lc 4,18). Para Jesus, “completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15). Jesus pode e deve ser visto como a mais perfeita expressão da tradição profética. Rejeita com ardor a falsa religiosidade apresentada pelas lideranças religiosas do seu tempo. Observa não querer mudar nem uma vírgula sequer da antiga Lei e dos Profetas, mas apenas dar-lhes “pleno cumprimento”. A autêntica fidelidade a JHWH vai muito além do que está sendo ensinado e praticado pelos escribas e fariseus. O que foi ensinado pelos antigos deve ser superado pelo novo. Não basta não matar; é preciso reconciliar-se com os adversários. Não basta não adulterar; é preciso manter o coração purificado. Não basta não jurar, mas que o sim seja sempre sim e o não não. Nada de olho por olho ou dente por dente; é preciso oferecer também a face esquerda a quem bate na face direita. Em fim, é preciso amar até o inimigo, e ser perfeito como o Pai celeste é perfeito (Mt 5,17-48). A vinda do Reino de Deus requer uma mudança radical de mente, coração e alma. Os discípulos de Jesus devem ser “a luz do mundo” (Mt 5,14), uma luz que deve chegar a todas as nações (Mt 28,19). No final desta longa caminhada histórica, JHWH reunirá as nações diante de si e fará o julgamento derradeiro. Acolherá em seu Reino apenas “os que deram de comer a quem teve fome; deram de beber a quem teve sede; vestiram a quem estava nu, e visitaram a quem estava doente e na prisão” (Mt 25,35-39).
             A fé perfeita requer ainda um novo encaminhamento político. Na terra de Jesus, as autoridades religiosas eram também as autoridades políticas. Uma falsa religiosidade leva a uma falsa política. Jesus acusa as autoridades religiosas de sua terra, acobertadas pelos 72 membros do grande Conselho de Jerusalém, de temerem mais a Cézar (de Roma) do que a JHWH. São “falsos profetas” (Mt 7,15); escribas sem autoridade (Mt 7,29); conhecidos como flageladores das sinagogas (Mt 10,17); matam o corpo mas não podem matar a alma (Mt 10,28); salvaguardas da lei sabática (Mt 12, 1-14); blasfemadores contra o Espírito (Mt 12,22-32); “raça de víboras” )Mt 12,34); geração má e adúltera (Mt 12,39); ensinam apenas mandamentos humanos (Mt 15,1-9); são cegos conduzindo cegos (Mt 15,14); não sabem interpretar os sinais dos tempos (Mt 16,3); o “fermento” dos fariseus e saduceus é perigoso (Mt 16,5-12); os anciãos e os chefes dos sacerdotes são culpados de sua morte (Mt 16,21; 20,18); são eles que vão fazer sofrer o Filho do Homem (Mt 17,9-13); eles fizeram do Templo um covil de ladrões (Mt 21,12-13); são a figueira estéril (Mt 21,18-22); não acreditaram na autoridade de Jesus (Mt 21,23-27); eles serão preteridos pelas prostitutas no Reino dos Céus (Mt 21,28-32); são como vinhateiros homicidas (Mt 21,33-45); não são dignos do banquete nupcial (Mt 22,1-14); dão a Cézar o que é de Cézar, mas não a Deus o que é de Deus (Mt 22,15-22); não acreditavam em ressurreição (Mt 22,23-33); dizem mas não fazem (Mt 23,3); os escribas e fariseus serão sete vezes condenados (Mt 23,13-32); raça de víboras (Mt 23,33); mataram e apedrejaram os profetas (Mt 23,37); são os chefes dos sacerdotes e dos anciãos do povo que prenderam Jesus (Mt 26,47); são os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio que sentenciaram Jesus (Mt 26,59; 27,20; 27,41; 27,62); são também os que corromperam os soldados com propina para o povo não crer em vida nova (28,11-15). Todas as acusações de Mateus são também acusações políticas. No cristianismo, religião e política são inseparáveis. Jesus teve a sorte comum dos profetas: morre no silêncio de Deus, abandonado e desacreditado. Morreu como preso político. Ainda assim entrega a JHWH o seu espírito. Deixou para a história humana uma grande lição: não há ressurreição sem cruz. E também: não se pode esperar uma boa política com base numa falsa religiosidade.
II A VOCAÇÃO POLÍTICA NAS SOCIEDADES RELIGIOSAS E SECULARES
            Há um dado que todos nós, sacerdotes, religiosos, leigos e leigas do mundo atual, facilmente esquecemos. Olhamos para a vida do passado com os olhos da vida presente. Não deveríamos fazer isso, pois pode induzir-nos a grandes equívocos. A história só pode ser julgada com fidelidade se a interpretamos dentro do contexto social da época. O mundo secular, moderno, em que vivemos hoje é muito diferente do mundo de alguns séculos atrás, e inteiramente diferente do mundo dos tempos bíblicos. Isso salta aos olhos facilmente se observarmos as diferentes épocas em sua perspectiva política. Na longínqua antiguidade, quando ainda predominava a vida tribal, o mais comum era a política “teocrática”. As tribos se sentiam governados diretamente por Deus ou pelas divindades. As famosas “doze tribos de Israel”, saindo da escravidão do Egito, se sentiram assim. Seu Deus era o Deus Libertador, JHWH, e a fé neste Deus comandava todos os aspectos de sua vida. Nos livros de Samuel ainda percebemos claramente a rejeição, da parte de muitos, da ideia de um rei. As tribos prezavam sua liberdade e bastavam os profetas e juízes para se autogovernarem. Aos poucos, porém, nas sociedades antigas, algumas tribos se tornaram muito mais fortes que outras, e as crescentes rivalidades entre elas fez com que se agrupassem entre si, formando alianças. Surgiram assim os pequenos reinados. Com a continuação das rivalidades, além das dificuldades de sobrevivência, estes também se agruparam ou então foram subjugados pelos mais fortes. Surgiram desta forma os primeiros impérios da antiguidade. A própria Bíblia fala do império do Egito. Fala também do império dos assírios, dos babilônios e, depois, dos persas, gregos e romanos.
            Nos reinados e impérios, as antigas teocracias, cada vez mais, se transformam nas assim chamadas “hierocracias”. Deus continua governando, mas agora “através de” um rei ou um imperador. O rei Davi foi claramente visto desta forma. Um dos mais conhecidos códigos de leis da antiguidade é o famoso “Código de Hamurabi”. Hamurabi fundou o primeiro império babilônico e, aproximadamente em 1772 a.C., fez gravar em pedra – guardada até hoje no Museu do Louvre, em Paris - as 282 leis para uma boa convivência social em seu império. Na pedra deixa claro que governa em nome de Deus, e que as leis são divinas, feitas “para que o forte não prejudique o mais fraco, a fim de proteger as viúvas e os órfãos”. O Código fala em três “classes” de pessoas: os superiores, os comuns, e os escravos. O princípio básico da boa convivência é a “lei do talião”, ou, como lemos na Bíblia, a lei do “olho por olho e dente por dente”. Esta política teocrática ou hierocrática dominou a mente humana por séculos e mais séculos. Podemos definir esta “cosmovisão teológica” como a concepção segundo a qual Deus, ou o mundo das divindades, é, e deve ser, a explicação e a razão de ser de todas as coisas e de todos os eventos. Jesus assume claramente este modo de pensar. A Pilatos diz: ”Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto” (Jo 19,11). Para Jesus, quem deve governar é Deus e ninguém mais. Os profetas, especialmente Jesus, substituíram a lei do talião pela lei do amor, exatamente porque, para Jesus, a sociedade humana deve ser como o próprio Deus, que é Pai de puro amor e misericórdia (Lc 15). Ele vê que este “Reino de Deus” já está presente, mas é como um tesouro escondido no campo. Só vai atrás quem descobre o seu valor (Mt 13,44-45). Jesus, provavelmente, esperava a definitiva instauração do Reino de Deus para muito em breve, mas a história comprovou que se trata de um processo a longo prazo.
            Já nas nossas sociedades modernas, especialmente no mundo ocidental, a concepção é radicalmente diferente. No nosso mundo secular predomina a “cosmovisão antropológica”. Qual sua característica? Na concepção antropológica não é mais Deus, mas é a própria razão humana que se torna o argumento central do crer e do agir. Não que Deus seja necessariamente negado ou descartado, mas Ele é simplesmente colocado de lado. Creia quem quiser. Para todos os efeitos, Deus não é mais a causa explicativa de todas as coisas e de todos os eventos. Nesta nova lógica, o próprio ser humano com sua racionalidade será sempre o ponto de partida e o ponto de chegada. Com este novo entendimento mudou também completamente a forma de pensar a política. Entendeu-se que a influência das Igrejas e das religiões deveria ser banida e que os governos devem ser laicos. Durante alguns séculos, a briga entre as duas concepções foi muito virulenta. Na Idade Média, com a queda do Império Romano, a Igreja Católica assumiu, espontaneamente, uma boa parte do poder político, mas ela nem de longe convenceu a todos. A Igreja se autoproclamava a única dona da verdade, opondo-se às ciências e à “arrogância” da razão humana, mas ela se dividiu em muitas denominações, com inúmeras guerras, sangrentas e intermináveis. Com o passar do tempo, as ciências se impuseram pela própria força de sua argumentação e a Igreja teve que dar razão a elas e reconhecer a sua autonomia. Cosmovisões, porém, expressam as dimensões mais profundas do ser humano e sua mudança requer um longo processo histórico. Podemos dizer que apenas no Concílio Vaticano II, a Igreja fez as pazes com as ciências e com os governos laicos (GS 36; 76). Não cabe aos padres ou aos religiosos em geral dirigir o processo político das sociedades. Esta é a vocação dos leigos e das leigas (das mais diversas denominações), diz a Igreja, hoje. Será?
 III MEU ITINERÁRIO PESSOAL, RUMO À POLÍTICA
            Desde criança (na Holanda) aprendi que o padre não deve dar sua atenção apenas à classe abastada. Nossa vida era a da roça e não era nada fácil sobreviver de um único alqueire de terra. Um comentário comum, nas famílias simples, era que os padres costumavam visitar apenas as casas das famílias mais ricas. Visitar os pobres, nem pensar. As más línguas comentavam que os padres visitavam as famílias católicas mais pobres só quando um novo filho demorava a chegar. “Era só o padre passar e as mulheres engravidavam”, era a brincadeira de sempre. A casa paroquial era a mais bonita da minha aldeia, com exceção apenas da casa do Prefeito. Quando entrei na escola dos padres verbitas (Missionários do Verbo Divino), ainda na Holanda, já entrei com esta ideia: ser missionário é algo legal, mas ser padre apenas das boas famílias, essa não!
            Fazendo o noviciado, na Bélgica, uma nova inspiração ocupou a minha mente e o meu coração. Eram os tempos pré-conciliares e, na Europa em geral, se vivia um clima de grande expectativa com relação à renovação da Igreja. As leituras espirituais oferecidas eram bastante tradicionais e não nos satisfaziam. Lendo a Imitação de Cristo do mais afamado mestre espiritual holandês do século XV, Thomás de Kempis (†1471), a certa altura, este afirmava que “cada vez que saía do convento para ir ao mundo, ele voltava pior”. Pronto, era o que menos queria. Estava me preparando para ir ao mundo, e não para fugir dele! Não toquei mais no livro. Comecei a meditar bons livros de bons autores. Foi o que salvou a minha vocação de padre. Quando, em 1958, minha família emigrou para o Brasil e eu vim estudar teologia em São Paulo, um novo aprofundamento das minhas ideias ocorreu. O Concílio trouxe novos ares à nossa formação. Continuei lendo os bons livros dos bons autores. Entusiasmei-me com uma nova espiritualidade, mais “engajada” se dizia então, e admirava o exemplo dos padres franceses que foram trabalhar nas fábricas, solidarizando-se com as lutas operárias. Também me aprofundei nas então muito faladas “reformas de base” que o Brasil necessitava, especialmente a reforma agrária e, depois, também a reforma urbana.
            Chegando ao Vale do Ribeira, em 1965, já fui trabalhar na paróquia com a profunda convicção que a Igreja não podia ficar presa às suas preocupações pastorais internas, mas que deveria ter uma atenção prioritária ao mundo dos pobres e dos excluídos. Era preciso mudar também o estilo paroquial e transformar as paróquias em verdadeiras “comunidades de fé, culto, e caridade”, como afirmava o primeiro Plano Pastoral da CNBB (1962/65). Uma Igreja feita de comunidades autênticas, com os leigos e leigas assumindo sua autonomia própria. Permaneci no Vale, a região mais pobre do estado de S. Paulo, por 16 anos, dois períodos em Iguape e um em Registro. Depois da Conferência Episcopal Latino-americana de Medellin (1968), nossa preocupação principal foi a organização das CEBs. Éramos todos padres e irmãs jovens e, felizmente, super bem entrosados. Criamos a nova técnica pastoral das “batidas”. Sem olhar divisas paroquiais, íamos em grupo – padres, irmãs e leigos/as – a um determinado local, fazendo, durante três dias, visitas ao povo, por onde estivesse, nas casas, nas roças ou em qualquer outro lugar. À noite fazíamos reuniões em pequenos grupos e, na terceira noite, todos se reuniam no mesmo lugar. O assunto era um só: o que é uma CEB?, e: vocês querem formar uma CEB aqui neste local? Quando, em 1975, a região se transformou na atual Diocese de Registro, sendo nomeado bispo o nosso colega, Dom Aparecido José Dias, o trabalho continuou o mesmo. A atual Diocese de Registro talvez tenha sido a primeira diocese brasileira inteiramente estruturada de acordo com o modelo das Comunidades Eclesiais de Base.
            Também a preocupação social era grande, embora tivéssemos muitas dúvidas sobre a melhor forma de enfrentar os problemas. Com a assessoria de Paulo Freire e Plínio de Arruda Sampaio fomos dando início a cursos de alfabetização e à orientação dos agricultores, entre outros para que ficassem firmes em suas terras. Dependendo do lugar, muitas outras pequenas iniciativas foram feitas, mas eu achava que tudo não passava de uma gota no oceano. Fui estudar ciências sociais em São Paulo para adquirir um conhecimento mais amplo e descobrir novas formas de atuação pastoral. Fazer pastoral sem enfrentamento das estruturas opressoras é complicado. Não passa de um assistencialismo caridoso, mas infrutífero. Na minha pré-especialização em economia entendi melhor como principalmente o sistema econômico pode ser de tal forma opressor e dominador que um país inteiro, mesmo com as melhores políticas possíveis, não consiga superá-lo. Uma pastoral, sem esta consciência política, fatalmente cairá numa alienação do mundo em que vivemos. Transferido para a periferia de São Paulo continuei, por dez anos, trabalhando em paróquias da periferia, primeiro na Zona Leste, depois na Zona Sul. Quem se responsabiliza por uma paróquia deve assumir a paróquia em sua totalidade, dando atenção a todas as pastorais. Não deixei de fazer isso, mas continuei priorizando as CEBs e as pastorais sociais, com um especial carinho pela pastoral operária e pelos movimentos populares de saúde e moradia. Na paróquia do Valo Velho, na Zona Sul, sempre atuando em equipe, dávamos especial atenção também ao combate à violência, já que a nossa região, vizinha de Capão Redondo e Jd. Ângela, foi declarada, pela ONU, “a região mais violenta do mundo”, com 110 homicídios para cada cem mil habitantes. Dando aula de pastoral no ITESP (Instituto de Teologia), fui elaborando melhor minha síntese. Ficou claro para mim que uma pastoral sem perspectiva transformadora, ou política, não corresponde à proposta de Jesus, uma vez que não abre nenhuma perspectiva para os que se encontram à beira da estrada.
            Em 1993 fui convidado a integrar a equipe do Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo, São Paulo (CDHEP/CL). De uma humilde Comissão de Direitos Humanos da Diocese, o CDHEP tinha se transformado numa ONG independente, de grande destaque na cidade. Fui responsabilizado, sempre de novo em equipe, pela formação e dinamização das lideranças das CEBs e das Pastorais Sociais da Diocese de Campo Limpo, então sob a direção de Dom Emílio Pignoli.  Não posso enumerá-las aqui, mas foram inúmeras as atividades desenvolvidas, dando “cursos de monitores” nas paróquias, assessorando os eventos das pastorais sociais – em apoio aos movimentos populares, etc. – e celebrando cultos ou missas em defesa dos direitos humanos, ou dando apoio à “mística da luta”, como então se falava. Fui responsabilizado também pelo Programa “Em Defesa da Vida contra a Violência”, o mais tradicional do CDHEP. Como fruto principal deste Programa constituímos, com grande apoio do Pe. Jaime Crowe, do Jd.Ângela, o Fórum em Defesa da Vida que chegou a articular mais de duzentas entidades da cidade de São Paulo, das mais simples, populares, às mais complexas e abrangentes, de nível acadêmico. Foram muitos os Seminários, especialmente de Segurança Pública e de Educação, obrigando as autoridades municipais e estaduais a tomarem medidas concretas em benefício da população. Das nossas tradicionais “Caminhadas em Defesa da Vida e da Paz”, todos os anos, chegaram a participar mais de quinze mil pessoas, especialmente jovens. O Governador Mário Covas nos convidou a assumir o importante “Programa Estadual de Proteção a Testemunhas” (Provita SP), visando o combate à impunidade e à corrupção. Graças a este Programa (sigiloso), existente até hoje, centenas dos narcotraficantes mais perigosos, além de policiais e parlamentares corruptos, acabaram atrás das grades. Em 1999, o CDHEP, por primeiro, após consulta a diversas entidades de renome nacional, recebeu da Câmara Municipal de São Paulo o cobiçado “Prêmio Betinho” por ter sido “a entidade que melhor construiu a cidadania na cidade de São Paulo no último ano”.
CONCLUINDO: FAZER POLÍTICA É A VOCAÇÃO DE TODOS/AS NÓS
            Após quase quarenta anos dedicados á vida paroquial e à defesa dos direitos humanos, uma nova inquietação veio atormentar a minha mente. Cabe ao padre a tarefa de propagar o Evangelho, pensava. Sua tarefa básica é orientar, ensinar e celebrar. Às ONGs cabe a articulação das forças da sociedade civil para que, pela pressão popular, as políticas públicas de fato aconteçam. Elas cobram, o que é importante, mas não têm poder de decisão. Quem faz acontecer de verdade é a política. Se as decisões políticas são ruins, o povo continua na desgraça. Se, por outro lado, a política for bem feita, não apenas uma, duas ou três pessoas se beneficiam, mas o país inteiro. Se a Igreja, com suas obras de caridade, pode matar a fome do pobre, ela não tem o poder de acabar com a pobreza. Nem as ONGs têm este poder. Somente a política tem o poder de decisão e pode transformar desejos em realidade. Lembrava então a frase do papa: “a política é a forma mais sublime da fraternidade”. Ficou pendente, contudo, um problema. Se a política é a forma mais sublime da fraternidade, por que os padres não podem entrar na política? Não é um pouco estranho que, na Igreja Católica, os padres não podem exercer a forma mais sublime da fraternidade? E, em especial, os homens e as mulheres que optam pela Vida Religiosa Ativa, uma das expressões mais profundas da fé, por que barrar para eles ou para elas uma participação mais ativa na política se esta ocupa um lugar tão central no exercício da fraternidade?
            É evidente que, por trás da proibição, não está algum princípio evangélico, uma vez que este simplesmente não existe. Trata-se de uma questão meramente disciplinar e esta, aliás, não é inteiramente sem sentido. Depois da minha passagem pelo CDHEP, exerci, em Holambra SP, de 2001 a 2008, o cargo de vereador. Um cargo político assumido por estar profundamente convencido de sua importância para a vida cristã e de sua especial relevância para a Vida Religiosa. Pude exercer o cargo com dignidade, honestidade, e colhendo diversos frutos importantes para a população, mas devo reconhecer que não deixa de ser também um grande desafio. É complicado o padre se dirigir ao público em geral sendo conhecido pela sua cor partidária. Por outro lado, acho importante alguns religiosos e religiosas marcarem presença na política, exatamente para testemunharem ao mundo que uma política sem respeito à religiosidade humana levará a humanidade à desgraça. A disciplina poderia ser mais flexível, abrindo espaço para exceções, ou exigir do padre que se licenciasse temporariamente de sua função pastoral.
            Nos países de cultura ocidental, os governos, hoje, costumam ser laicos, com forte tendência para eliminar ou marginalizar a influência das Igrejas e das religiões. De fato, um certo fundamentalismo é inevitável cada vez que um grupo religioso quer governar “em nome de Deus”. As facções e divergências internas serão combatidas a ferro e fogo. Mas, como o Reino de Deus pode se estabelecer na terra, como Jesus pediu, se os governos são laicos, e até anti-religiosos? É possível desde que os governos laicos se deixem guiar não pelos ditames desta ou daquela religião, mas pela espiritualidade e pelas convicções mais profundas que são comuns a todas as religiões. Isso não é nada impossível, e até me parece que o mundo está caminhando nesta direção. As massas populares na rua, por toda parte, mostram claramente o fracasso das democracias ocidentais. Da brasileira também. O sistema financeiro, globalizado e sem ética, tomou conta da política. É preciso criar algo novo. Cabe a todos nós, religiosos e religiosas, leigos e leigas, entrar na luta por uma política com ética, e com respeito à religiosidade humana. Por mais que o momento atual possa deprimir, as perspectivas de futuro são boas. A teologia que, hoje, mais chama a atenção do mundo atual é aquela que une a teologia da libertação com a teologia do chamado “pluralismo religioso”. Procure informar-se a respeito. Os livros estão disponíveis. O conhecido teólogo alemão, Hans Küng, disse recentemente: “se houver paz entre as religiões, haverá paz no mundo”. Será a luz no fim do túnel? Só se todos nós mantermos nossas velas acesas. Nossa vocação não é a sacristia, mas o mundo. Devemos ser a luz do mundo. Não foi isso que Jesus falou?
            Minha mais recente atuação pastoral foi na paróquia Santo Arnaldo Janssen, em Diadema. Já notei aí, claramente, a característica da nossa Igreja nas últimas décadas: um forte afastamento, ou então, desinteresse pelas CEBs e pelas Pastorais Sociais, especialmente por parte de padres e bispos. Não é somente falta de boa vontade. Na prática, porém, não é nada fácil manter certas prioridades quando o contexto geral não ajuda. Está muito difícil, hoje, manter o embalo de décadas atrás. Ainda assim, é possível quando padres e leigos se unem, com consciência e dedicação. Hoje, as CEBs e as Pastorais Sociais ainda conseguem atuar com consistência, mas, normalmente, apenas a nível regional, estadual ou nacional. O grande desafio, neste momento, é fazer acontecer a nível local. Por isso criamos, em Diadema, um pequeno “fórum de entidades”, limitado à Região Norte do Município. No decorrer dos últimos sete anos, os representantes de aproximadamente trinta entidades, de forma suprapartidária e suprarreligiosa, vêm se reunindo todo mês para tratar dos problemas comuns da população. Seminários bem preparados, com pesquisa e tudo, foram realizados nas áreas de saúde, meio ambiente, segurança pública e educação. Nestes momentos fortes, toda a população é convidada e houve, em geral, ótima participação. As autoridades municipais e estaduais não deixaram de comparecer. Em todas as ocasiões, o povo apresentou as suas propostas com muita firmeza. Também as “caminhadas ecológicas” foram feitas todos os anos. Se funcionou entre nós, pode funcionar em qualquer lugar. Basta haver padres e leigos que assumam sua vocação cristã, que é religiosa e política ao mesmo tempo. Ainda somos o sal da terra? Jesus disse: “Se o sal se tornar insosso, com que o salgaremos? Para nada mais serve, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens” (Mt 5,13).
QUESTÕES PARA DEBATE EM GRUPO
1.      O “profetismo” perpassa todas as páginas da Bíblia. O que significa ser “profeta”, na Bíblia, e nos dias de hoje?
2.      Quando Jesus falava do “Reino de Deus”, em que, concretamente, ele pensava?
3.      A vocação cristã é uma vocação política. Como entender isso?
4.      Religião não tem nada a ver com política, dizem muitos. O que você acha?
BIBLIOGRAFIA
1)      Para saber mais sobre o “profetisno”, expresso na Bíblia, leia: Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, Curso de Verão Ano XXIX: Economia, promotora dos Direitos Humanos e ambientais, São Paulo: Paulus, 2015, p. 59-115.
2)      Para saber mais sobre as diferentes concepções políticas nas sociedades religiosas, e nas seculares, leia: Nicolau João Bakker, Vida Pastoral, maio/junho 2011: A Pastoral em Novas Perspectivas (I) – Introdução ao tema, p. 8-23; Vida Pastoral, julho/agosto 2011: A Pastoral em Novas Perspectivas (II) – Cosmovisão Ecológica e perspectivas pastorais, p. 5-15; Vida Pastoral, nov./dez. 2011: A Pastoral em Novas Perspectivas (III) – Espiritualidade ecológica e perspectivas pastorais, p. 21-35; Vida Pastoral, jan./fev. 2012: A Pastoral em Novas Perspectivas (IV) – Perspectiva político-ecológica e perspectivas pastorais, p. 10-23. Para maior aprofundamento, veja a bibliografia indicada nos artigos.
3)      Para saber mais sobre a união entre a teologia da libertação e a do pluralismo religioso, leia a série de cinco livros “Pelos muitos Caminhos de Deus”, de iniciativa da ASETT / EATWOT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo / Ecumenical Association of Third World Theologians), sob coordenação de José Maria Vigil, Luiza Tomita e Marcelo Barros: Vol. I: Pelos muitos Caminhos de Deus: Desafios do Pluralismo Religioso à Teologia da Libertação, Goiás: Ed. Rede, 2003; Vol. II: Pluralismo e Libertação: Por uma Teologia Latino-americana pluralista a partir da Fé Cristã, São Paulo: Ed. Loyola, 2004; Vol. III: Teologia Latino-americana pluralista da Libertação, São Paulo: Ed. Paulinas, 2006; Vol. IV: Teologia Pluralista Libertadora Intercontinental, São Paulo: Ed. Paulinas, 2007; Vol. V: Por uma Teologia Planetária, São Paulo: Ed. Paulinas, 2016.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

REB outubro de 2016: O "mensalão/petrolão" e a teologia pública no Brasil

O “mensalão/petrolão” e a teologia pública no Brasil
Pelo Pe. Nicolau João Bakker, svd
Diadema SP

Síntese: O presente artigo é fruto de uma preocupação angustiante: para onde irão as Igrejas do Brasil depois do inesperado susto do mensalão e do petrolão? Ao apoiar, ao menos parcialmente, um regime político “da Esquerda”, a Igreja errou ou acertou? Qual o caminho daqui para frente? Uma teologia pública deve limitar-se a discussões de cunho mais acadêmico, ou deve abrir pistas concretas no terreno sempre escorregadio das relações entre Igreja e esfera pública? O artigo inicia tecendo um quadro sintético da atual conjuntura política do país, apresentando, além dos fatos principais, também um ensaio interpretativo. Em seguida busca, no passado da tradição cristã, algumas lições que ainda hoje são significativas para uma teologia pública em fase de elaboração. Finalmente coloca o respeito à “religiosidade” humana como um fator de primordial importância para justificar a ação política em qualquer uma das esferas públicas.
Palavras-chave: Mensalão/Petrolão – Teologia Pública – Esfera pública “religiosa”
Abstract: The present article is the result of an agonizing concern: whereto will the brazilian churches go after the unexpected upheavel from the so-called “mensalão/monthly payment” and “petrolão/petrol payment”? In supporting, at least partially, a leftist political regime, did the church make a mistake or did it do well? From now on, which way to go is the issue? A public theology must limit itself to a more academic discussion or open up concrete roads in the slippery relations between church and the public sphere?  This article starts by offering a synthetic view of the national political situation at present, indicating not only the most significant facts, but also an iterpretive assay. As a sequence, we look at some lessons in the christian tradition of the past that may be significant nowadays for a public theology still in elaboration. Finally it puts the human religiosity as a factor of primordial importance to justify political action in the public sphere.
Keywords: “Mensalão/Petrolão” – Public theology – “Religious” public sphere

Introdução
            Há um bom tempo o Brasil passa pelo drama do “mensalão/petrolão” e suas múltiplas consequências. O que mais chama a atenção são as consequências políticas diretas, mas são igualmente significativas as consequências sociais. A política, como gestão da “polis” (cidade), envolve a sociedade toda e, direta ou indiretamente, acaba abrangendo todos os aspectos da vida humana. Seguindo os passos de Jesus, a Igreja se propõe oferecer “vida plena” (Jo 10,10) a todas as pessoas. Por isso, não pode ficar alheia à questão política. De fato nunca ficou. O nexo entre religião e política é umbilical. Desde os primórdios da humanidade, as religiões, institucionalizadas ou não, sempre marcaram em profundidade o viver, o conviver e até o sobreviver do ser humano. Não é de admirar que, em especial na religiosidade monoteísta, as teo e hierocracias marcaram e continuam marcando forte presença.1 Jesus iniciou sua vida pública anunciando a vinda do Reino de Deus (Mc 1,14-15). Ninguém mais duvida que é da terra que Jesus está falando. Relacionar a fé com a esfera pública é, portanto, um imperativo incontornável.
No mundo ocidental, a revolução francesa de 1789 simbolizou o início de uma separação radical entre Igreja e Estado. O processo histórico antes, durante e depois da ruptura não ocorreu sem fortes questionamentos de ambos os lados. Temos aí uma fonte muito rica em lições para o momento presente. O que pretendo fazer neste artigo é, em primeiro lugar, situar, de forma aproximada, o atual momento político brasileiro, profundamente caracterizado pelo assim chamado “mensalão/petrolão”. Uma espécie de análise de conjuntura sem nenhuma pretensão de ser a única possível. Em seguida tirarei algumas lições do passado que ainda hoje ajudam a iluminar o presente. Finalmente, mais do que entrar em discussões doutrinárias referentes à teologia política ou à teologia da libertação, gostaria de tecer algumas considerações pastorais sobre a fé cristã – e a religiosidade humana de modo geral - e sua relação com a esfera pública. A “teologia pública”, ainda incipiente no nosso país, encontra aí seu objeto específico de análise.

I O “MENSALÃO/PETROLÃO” E O QUE ESTÁ POR DETRÁS DO MESMO
1.1  Os fatos ainda em andamento
Antes do “petrolão” tivemos o “mensalão”. Ambos nascem da mesma fonte. A análise de suas águas já está bem avançada, mas ainda não está muito claro em que mar elas irão desaguar. Insinuações diversas de um esquema de corrupção comandado pelo PT foram se acumulando, entre as quais a misteriosa morte do prefeito Celso Daniel (2002) e a alegada “compra” de deputados do PTB pelo PT (2004).  Inicia-se uma guerra não declarada quando a revista Veja, em maio de 2005, escancara em sua capa: “O vídeo da corrupção em Brasília”. Há forte desconfiança de que não se trata de uma corrupção isolada na cúpula dos Correios. O acuado Deputado Federal, Roberto Jefferson (PTB), acusa a existência de um “mensalão”: membros da “base aliada” receberiam, periodicamente, cotas mensais para votarem a favor do governo. O comandante do esquema seria o Deputado Federal José Dirceu (PT). Aos poucos surge um clima de extrema desconfiança, particularmente com relação ao PT, e o clima se generaliza quando a mídia em geral entra pesadamente com apoio antecipado a toda e qualquer acusação. Um esforço concentrado do Ministério Público, da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal, com reflexos numa CPI Mista do Congresso (2005), desencadeia uma verdadeira caça às bruxas.
Suspeita especial recai sobre o então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, acusado de estar por trás dos pagamentos. Quando reconhece ser o responsável por um esquema de “caixa dois” no valor de 39 milhões a favor do PT, obtidos por meio de “empréstimos” do empresário Marcos Valério – por um bom tempo este “valérioduto” não sai do noticiário -, porém, sem o aval da Direção Partidária, Delúbio acaba sendo expulso do partido por maioria de votos do Diretório Nacional. Ainda em 2005, numa reunião ministerial, Lula afirma: “Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis, indignado pelas revelações que chocam o país e sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento. Não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo, onde errou, tem de pedir desculpas”. Em agosto de 2007, com Lula já reeleito, o Supremo Tribunal Federal inicia um processo contra os 40 acusados, pela Procuradoria Geral da República, de crimes como formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, gestão fraudulenta e evasão de divisas. Apenas em agosto de 2012 ocorre o julgamento dos réus. O então Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, chamou o “mensalão do PT” de “o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil”.
À essa altura, o país já se encontra enojado com o interminável noticiário de TV sobre o caso e os milhões envolvidos nas tramoias. Quando se tem a impressão que o pior passou e que a maré está a ponto de baixar, o caldo engrossa novamente, desta vez envolvendo bilhões. Em 17 de março de 2014, a Polícia Federal deslancha a “operação lava-jato”, logo batizada de “petrolão”, com inúmeros mandados de busca e apreensão, prisões temporárias e procedimentos instaurados. Mais de dez bilhões teriam sido desviados em “propinas” de empresas estatais, com destaque para a Petrobrás, e de outras grandes empresas entre as quais as principais construtoras. Pela primeira vez o país se dá conta do enorme poder de fogo do ainda recente recurso jurídico da “delação premiada”. Quem não delata não escapa das duras penas da lei. As “revelações” – muitas conduzidas a partir da cadeia - confirmam que não apenas as campanhas eleitorais do PT foram beneficiadas, mas, em geral, as campanhas de quase toda a base aliada. Torna-se claro também que as grandes empresas habituaram-se a “pagar por fora” alguma porcentagem dos seus vultosos contratos com o governo. É a “regra do jogo”, diz a novela. Mas será que tem alguém por trás do esquema? As raízes atávicas da sociedade estão em busca de um bode expiatório.
Em junho de 2013, enormes populações percorrem as ruas das cidades; vidros são quebrados e por toda parte fogos são acesos. “A culpa é do PT”, repete a grande mídia. A campanha eleitoral pelo governo central, em 2014, racha o país como nunca antes. Lula, no entanto, consegue emplacar um segundo governo Dilma, embora com uma vantagem mínima de votos. Com a economia mundial em fogo brando e a classe empresarial se queixando crescentemente do “estatismo” do PT, Dilma perde cada vez mais o apoio indispensável do Congresso e não consegue emplacar as reformas necessárias. Os investimentos escasseiam e a economia do país entra numa forte e prolongada recessão. A Polícia Federal e o Judiciário apertam cada vez mais o cerco a Lula e sua família, acusando-o de benefícios pessoais por meio de favores financeiros “não contabilizados”. Também Dilma não escapa de um cerco crescente. Não apenas no Congresso, mas no país inteiro a situação está caótica. Em junho de 2016, o Ministério Público Federal já aponta para a seguinte estatística: número de procedimentos instaurados: 1237; número de presos: 160; número de busca e apreensões: 608; acordos de delação premiada: 56; acordos de leniência: 5; acusações de improbidade administrativa: 7, contra 38 pessoas e 16 empresas, pedindo pagamento de 12,1 bilhões de reais. No momento em que escrevo (julho de 2016) ainda é imprevisível o resultado final. Certo parece, no entanto, que, mais do que visar a Dilma, provisoriamente afastada, o impeachment em andamento visa o PT e “a Esquerda”.
1.2 O papel do PT
Nas ciências sociais, as interpretações dos “fatos” são mais fluidas do que nas ciências exatas. Se, com muita frequência, é complicado analisar a mente de uma única pessoa – e até da nossa própria! -, quanto mais quando somos obrigados a julgar a “mente” de uma coletividade. É enormemente intrincada a rede das motivações individuais e grupais que orientam a vida política de uma nação. Além do mais existe sempre o problema institucional. Em todas as instituições podemos encontrar mazelas que, por se tornarem hábitos, nem sequer são percebidas ou, quando percebidas, as pessoas, individualmente ou mesmo em grupo, não têm o menor poder para extirpá-las ou modificá-las. A Igreja também as tem. É comum ouvirmos críticas de todos os lados e ninguém indica um remédio realmente eficaz. Qualquer sociedade tem na política uma de suas instituições mais fortes e significativas. A própria sobrevivência da coletividade depende dela! Com o passar do tempo, apesar da caótica transitoriedade dos fatos políticos sucessivos, cada sociedade adquire uma determinada “cultura política” que é própria, persistente e duradoura. Ela se sedimenta na consciência popular e quem se afasta dela dificilmente obterá sucesso na disputa eleitoral.
Não é possível fazer uma correta análise do momento político atual sem levar em conta a história do Partido dos Trabalhadores (PT). Os mais velhos entre nós ainda se lembram. O PT não nasceu no dia de sua fundação em 10 de fevereiro de 1980. O PT se forjou na década de 1970 e início de 1980, aglutinando seis forças renovadoras que mudaram em profundidade a sociedade brasileira: 1) a massa popular que, crescentemente, se posicionou pelo fim da ditadura militar (as “Diretas Já” de 1983/84); 2) parte da elite acadêmica que assumiu as causas populares, muito influenciada pela então amplamente discutida “teoria da dependência” (Fernando Henrique Cardozo à frente); 3) muitos bispos e boa parte da Igreja que, motivados pelo Vat. II e por Medellin e Puebla, também assumiram a causa popular (Teologia da Libertação, CEBs e Pastorais Sociais); 4) o operariado do ABCD que aderiu a um forte e combativo movimento sindical independente (CUT); 5) os muitos e diversificados “movimentos populares” que deram uma nova consciência política à população; 6) os diferentes grupos políticos radicais da clandestinidade que, depois, vieram abrigar-se dentro do PT.
É preciso dar uma atenção especial a esses grupos políticos radicais da clandestinidade. Faz parte desta radicalidade (com treinamento específico para isso) tomar a frente nas discussões, nas análises da conjuntura política e no levantamento das propostas. Os demais “entram na jogada”, embora nem sempre de coração. Com muita frequência os mais radicais são também os mais bem intencionados. No auge da ditadura militar muitos deles arriscaram (ou deram) a vida pelo bem do país. Pude vivenciar algo de perto, primeiro como padre na Diocese de Registro SP, observando atentamente a “guerrilha” no Vale do Ribeira, depois como professor de Teologia Pastoral numa Faculdade de Teologia em S. Paulo, quando costumava oferecer aos alunos uma espécie de radiografia da situação. Os radicais costumam ter também maior clareza de sua proposta política, frequentemente de orientação marxista e fortemente anticapitalista, além de um empenho muito maior em termos de dedicação à causa. Na clandestinidade, assaltos a bancos e sequestro de autoridades era algo considerado quase “sagrado”. Os sobreviventes da época, ainda hoje, ocupam lugares relevantes nos quadros do PT.
Para melhor compreensão reproduzo um retrato do Diretório Nacional do PT, oferecido em 2011 pela sua própria assessoria de imprensa e publicado no blog do jornalista Fernando Rodrigues. São, então, 9 as tendências com direito à vaga na Direção Nacional, de acordo com o peso democrático dos grupos: 1) A união das tendências CNB (construindo um novo Brasil), PTLM (partido de lutas e de massa) e NR (novos rumos), com o lema “O Partido que muda o Brasil”: 45 vagas; 2) A união das tendências Mensagem e Democracia Socialista, com o lema “Mensagem ao Partido”: 13 vagas; 3) A união das tendências Militância Socialista e Articulação da Esquerda, com o lema “Esquerda Socialista”: 8 vagas; 4) A tendência Movimento PT, com o lema “Movimento: partido para todos”: 8 vagas; 5) A união de integrantes da CNB de Minas e outras tendências locais, com o lema “Partido para todos”: 4 vagas; 6) A tendência O Trabalho, com o lema “Terra, Trabalho e Soberania”: 1 vaga; 7) Uma dissidência de O Trabalho, com o lema “Virar à Esquerda”: 1 vaga; 8) Chapa não ligada a tendências, com o lema “Contraponto”: 1 vaga. Total de vagas: 81. As lideranças mais expressivas indicadas são: pela CNB: Lula, Zé Dirceu, Dutra, Palocci, Luiz Dulci, Berzoini e Marco Maia; pela Mensagem: Tarso Genro, Jaques Wagner, José Eduardo Cardozo e Paulo Teixeira; pela Democracia Socialista: Miguel Rosseto, Guilherme Cassei, Afonso Lourenço, Raul Ponte e Ana Júlia Carepa; pelo Movimento PT: Maria do Rosário, Geraldo Magela, Arlindo Chinaglia e Fernando Ferro; pela Articulação da Esquerda: Iriny Lopes, Valter Pomar e Altemir Gregolim; pelo Partido de Luta e de Massa: Jilmar Tatto e Jorge Coelho; pela Novos Rumos: Marta Suplicy e Vaccarezza; pela Militância Socialista: Renato Simões e Gilney Viana; e pelo Trabalho: Markus Sokol e Serge Goulart (dissidente).    
Há um outro elemento que não se pode perder de vista: o “sistema político”, juridicamente consagrado, e os “caciques políticos” que mais se destacam dentro do sistema. Quem está do lado de fora dificilmente percebe o peso deste fator. Com três campanhas políticas nas costas, duas a vereador (com sucesso) e uma a prefeito (sem sucesso), pude verificar o quanto este fator é decisivo. Em qualquer município brasileiro, grande ou pequeno, quase nada dentro das agremiações partidárias acontece sem o aval de um número muito pequeno de lideranças. Esta liderança, via de regra, não é conquistada por meio de um efetivo trabalho de base junto à população, mas muito mais mediante um certo “prestígio” que resulta de melhores condições financeiras para distribuir benefícios à população (inclusive às candidaturas mais pobres dentro do próprio partido). Um certo “coronelismo” não está alheio à cultura popular e sobrevive até nas cidades, especialmente na seara política. Não há dúvida que a tradição petista, neste ponto, é mais positiva do que as demais, uma vez que muitas lideranças surgiram efetivamente das lutas populares. Mas na vida interna do partido, em quase todos os lugares, os caciques definem o jogo a ser jogado (inclusive na hora crucial das campanhas eleitorais).
Um último ponto que devo ressaltar é o papel da disputa ideológica. Esta é particularmente importante no caso do PT. Não dá para “interpretar” os fatos que correm sem fazer menção a ela. Embora discutível, especialmente no caso do sistema político brasileiro onde a “pertença” partidária é pouco programática, ainda vale a tradicional divisão do campo ideológico entre partidos “da Direita”, “da Esquerda” e “do Centro”. Propostas políticas existem aos milhares, mas querer encontrar em mais de trinta partidos uma ideologia própria que minimamente dê conta de traçar os rumos do país, é inútil. Trata-se de uma evidente fraqueza do sistema. É muito importante perceber que, no fundo no fundo, o divisor de águas é apenas um: maior ou menor presença do Estado na vida dos cidadãos (daí o bipartidarismo de alguns países, como nos EUA). Quem é “da Esquerda” opta pelo “Estado máximo”: controle total ou quase total sobre o mercado, a mídia, e a vida social em geral. Quem é “da Direita” entende que melhor seria um “Estado mínimo”: liberdade total, ou quase total, do mercado, da mídia e da vida social em geral. Já os “do Centro” opinam que nem tanto ao mar nem tanto à terra. Por motivos históricos, a disputa ideológica na Esquerda é muito mais pronunciada do que na Direita. O PT não é exceção. Grupos minoritários diversos – como vimos -, em nome de “teses teóricas” consideradas inquestionáveis, sempre se opuseram a uma maioria partidária mais preocupada com “práticas históricas” que estão dentro das viabilidades do momento. Lula e um grande número de lideranças sindicais, dos movimentos sociais (e da Igreja) estão claramente deste lado.
1.3 Um ensaio interpretativo
            O PSDB, na sua origem (1988), surgiu como partido “de Centro”, tendo entre suas lideranças figuras ilustres de grande destaque nacional. Sem dúvida não sem forte preocupação social. Uma destas figuras era Fernando Henrique Cardozo, conhecido no mundo acadêmico como ícone da Esquerda. Tive-o algumas vezes como professor na faculdade de Ciências Sociais. Ganhar uma eleição, na atual estrutura política brasileira, sem uma forte coligação partidária é praticamente inviável. Em busca da Presidência, tendo FHC como candidato, o ainda jovem PSDB teve que fazer uma opção: coligar-se pela Esquerda ou pela Direita. No jogo da disputa eleitoral, as belas teorias ou convicções do programa partidário costumam passar para o segundo plano. Impõe-se uma questão eminentemente prática: é ganhar ou perder. Nesta hora, muitos sapos são engolidos. Tendo muito maior proximidade com a academia do que com o campo popular (já ocupado pelo PT), e a cultura política popular ainda fortemente influenciada pelos partidos tradicionais, as chances eleitorais do PSDB indicavam uma coligação preferencial pela Direita. É o que foi feito. Em 1995, FHC dá início a seu governo. Com a Direita iniciou e com a Direita ficou. Certos fatos políticos são historicamente muito relevantes. Em política (democrática), devido ao papel central do Congresso, as coligações partidárias têm maior peso político do que os partidos individualmente. No contexto nacional, frequentemente em governança alternativa com o PT, o PSDB criou ares sempre mais à Direita. Os dois partidos se tornaram inimigos figadais. Não se pode negar aí também algo da cultura popular: uma vez Flamengo, sempre Flamengo.
            No PT, em termos de disputa eleitoral, as coisas não foram muito diferentes. As afinidades partidárias continuam existindo, mas faz-se coligação com quem permite ganhar o jogo. Existe uma diferença, porém, que é própria dos partidos da Esquerda: a disputa ideológica interna é muito mais acirrada. Se há um acordo mútuo sobre a necessidade de se buscar o “socialismo democrático”, mais ao encontro das necessidades populares (reforma agrária, políticas sociais, etc.), isto não significa que existe um acordo sobre qual socialismo e qual democracia. Desde o seu início, o PT se divide entre um campo majoritário, mais pragmático, e um conjunto minoritário de tendências mais radicais. A questão central de sempre: nada de apoio às políticas neoliberais tipo FHC; queremos um “Brasil para todos”! Algumas correntes mais radicais acabam sendo “expurgadas” do PT: o PSTU (1993), o PCO (1995) e o PSOL (2004). Outras lideranças expressivas, decepcionadas, vão para o PSB, o PTB, o PPS ou o PDT. Crescentemente, entre os mais bem intencionados, os mais éticos, e entre os ideologicamente mais convictos, surge uma crítica comum: o PT se tornou um partido de disputa eleitoral, igual aos outros!
            Tudo isso, em parte, é verdade, mas ainda não permite uma interpretação mais palatável para os fatos acima relatados. Para isso é preciso entender melhor o “pragmatismo” do campo majoritário. Este, com o devido respeito à diversidade das opiniões pessoais, se orienta pela seguinte convicção comum:  as belas teorias da esquerda radical no momento são inviáveis; o que realmente importa é manter, a qualquer custo, a hegemonia do PT para que as mudanças desejadas venham a ocorrer o mais depressa possível. E lá vem a “carta ao povo brasileiro” (junho de 2002), garantindo o respeito a todos os contratos (do capitalismo neoliberal); lá vêm os adiamentos sucessivos da Reforma Agrária (a Constituição exige desapropriação a preços de mercado), da Reforma Tributária (haja Congresso), da Reforma Política (haja Judiciário), etc., etc. Manter a hegemonia e garantir as próximas eleições, no entanto, continua a condição “sine qua non”. Para não entregar o país à sanha do capitalismo financeiro internacional, quase tudo é considerado válido. Mesmo a legislação existente, imposta pelas classes dirigentes capitalistas por ocasião do Congresso Constituinte de 1987/88 (com a força decisiva do então chamado “Centrão”), não pode ser levada muito a sério. Se a Direita sempre se valeu dos meios mais escusos para ganhar o jogo eleitoral (corrupção, caixa 2, controle da mídia, etc.), por quê não montar também um esquema igualmente eficaz, mas desta vez, justificadamente, a favor da Esquerda? Viva o povo brasileiro!
            Não são apenas as tendências minoritárias do PT que têm seus radicais. O campo majoritário também os tem. Poderíamos falar em “radicais ideológicos” e “radicais pragmáticos”. O “caixa 2” em campanhas eleitorais é uma prática quase universal (sempre foi). A justiça eleitoral é rigorosa na sua legislação (a cada quatro anos costuma vir um novo pacote de exigências), mas inteiramente ausente na fiscalização. Apenas as “formalidades legais” são examinadas nos cartórios após o período da disputa dita “democrática”. Habituadas a uma heroica resistência à ditadura na clandestinidade, algumas lideranças petistas (do campo majoritário), passando por cima da legalidade democrática conquistada, e tornando-se cada vez mais profissionais eleitorais partidários em vez de profissionais da inserção popular, começam a aperfeiçoar o tradicional esquema do caixa 2. Se as empresas estatais e as grandes empresas nacionais, que utilizam verbas públicas, têm a obrigação de servir ao povo brasileiro, qual o problema ético em tirar uma pequena parcela de seus grandes lucros a favor dos interesses populares que (somente) o PT defende? É esta a filosofia justificadora. A prática das coligações partidárias, porém, (não esqueçam: é um ganhar ou perder) exige que ministérios e secretarias sejam entregues aos partidos coligados “de porteira fechada”, isto é, com (quase) total liberdade de compor os diversos níveis de governo. Pessoas dispostas a agir na clandestinidade aí não faltam.            
Certos cânceres prosperam com a maior facilidade. Ainda mais que interessa também às grandes empresas manter sólidas “amizades” com quem lhes pode garantir (hoje ou no futuro) os contratos bilionários. Quanto mais estatismo, até melhor. Cada vez mais o (clandestino) “esquema dois” se torna regra e adquire tamanho monstruoso. Nem todos, porém, sabem da coisa. Há um zumzum que certos partidos abusam demais, mas é melhor ficar quieto (por amor à causa). Partidos não funcionam como empresas onde os controles são hierarquicamente estabelecidos. Na verdade, em política, já que a eleição está próxima, é um cada um (ou cada uma) por si. Nem o presidente (ou a presidenta) precisa saber de tudo. Sem dúvida sabem dos esquemas e dos rumores, mas cabe aos quadros partidários arcarem com suas responsabilidades.
 Há um último detalhe a ser colocado. Embora, partidariamente falando, a preocupação ética seja muito maior na Esquerda do que na Direita (o que, também, ainda vale para o PT atual), mesmo os políticos de viés popular não podem ser confundidos com uma comunidade de monges. Normalmente são pessoas bem formadas, têm uma família a cuidar, e trabalham com dedicação integral. Dificilmente encontraremos milhões em contas secretas no exterior, mas a tentação de levar, direta ou indiretamente, algumas vantagens pessoais ou familiares não deve ser descartada. A tentação, na política, está sempre por perto. Acontece até nas Igrejas, não é mesmo? Houve algum tipo de “pedalada” fiscal? Não duvido. A Lei de Responsabilidade Fiscal (do governo FHC!) não é uma leizinha qualquer. Na verdade a lei é do tamanho de um livro, eivado de severas exigências econômicas, todas juridicamente amarradas. O fervor ideológico da Esquerda tende a passar por cima de alguns limites, e as surpresas (econômicas) da realidade exigem medidas concretas e urgentes. Algum lapso é fácil de acontecer. Na verdade acontece a toda hora em todos os níveis de governo. Ao analisar as contas anuais de qualquer prefeitura, os Tribunais de Contas não se cansam de repetir, anualmente, uma longa lista de “ressalvas” acerca de tais deslizes. Mas quando a Direita se junta com o Centro não há chance para a Esquerda. Leis, principalmente quando editadas em códigos, possibilitam muitas interpretações. Algum golpe branco surgirá das nuvens. E assim deu o que deu. É este o meu ensaio interpretativo, a ser aperfeiçoado quando se abrir o último capítulo desta longa novela.

II TEOLOGIA PÚBLICA E AS LIÇÕES DO PASSADO
            Já observamos que a relação entre religião e política foi sempre umbilical, e não apenas no chamado mundo cristão ocidental. Quando, no mundo cristão, irrompeu a Modernidade com sua indisfarçável “devoção” ao método científico, firmou-se uma espécie de “mito explicativo”: a religiosidade humana passa por fases de conscientização, indo do nível mágico ao nível científico, com a superação gradativa dos graus intermediários. Uma vez no nível científico, qualquer religiosidade perderia sentido. A “sociologia científica” do filósofo francês Auguste Comte (†1875) – com sua “lei dos três estados” - já lançou os alicerces deste mito, mas muitos outros pensadores, frequentemente da vertente marxista, seguiram pelo mesmo caminho. São, de fato, muito diferentes as vivências religiosas das sociedades, e é difícil negar que também as pessoas passam por modos diferentes de entenderem e viverem a sua fé na medida em que avançam em idade, escolaridade e experiência de vida. Mas não parece existir nesta evolução uma espécie de “determinismo histórico” em direção ao ateísmo. Na nossa pós-modernidade, o “rumor de anjos”, citado pelo teólogo luterano Peter Berger, está de volta. A filosofia dos dias atuais recoloca a religião e a espiritualidade novamente em pauta. Desde a constatação do “indeterminismo quântico” de Werner Heisenberg (†1976) e as “bifurcações aleatórias” de Ilya Prigogine (†2003), o ser humano parece fazer sempre de novo, livre e autonomamente, sua escolha entre muitas opções possíveis. Em nenhum lugar, porém, a “Vida” evolui a partir do nada. Há sempre um passado e um “meio ambiente” que oferecem as (muitas) opções possíveis.2 Na busca, individual ou coletiva, por uma vida feliz, é das lições do passado e das possibilidades do momento que o ser humano constrói o seu futuro. Em cada momento, sua fé (valores e sentidos), é sua grande ferramenta. Na perspectiva de uma teologia pública, quais são para nós, filhos e filhas da fé abraâmica, as grandes lições do passado?
2.1  Deus tem lado político
Sejamos judeus, cristãos ou muçulmanos, acreditamos num Deus que “vê a miséria do seu povo” (Êx 3,7-9). Deus não apenas “vê”, mas decreta, sob severas ameaças, uma libertação da escravidão (Êx 3,19-20). No Egito, o poder político está clara e exclusivamente do lado do Faraó, mas Deus está do “outro lado”, do lado do povo oprimido. Deus monta até sua tenda em meio a este povo na travessia do deserto (Êx 33,7-11). Como sustentar que Deus não tem lado político? A Bíblia atribui o início desta fé a Abraão e sua família. Fica difícil traçar um perfil desta família quando os detalhes de sua história se escondem nas brumas do passado. Alguns pontos luminosos, contudo, sobrevivem na memória viva do povo. A partir de Abraão vem crescendo em meio às tribos semitas uma nova consciência religiosa: se existem outros deuses, perto de Javé não são nada. Deus é um só e, na verdade, não tolera outros deuses por perto. E o que faz este Deus ser diferente de todos os outros? Exatamente sua imensa e incondicional compaixão pelos membros do “seu” povo, em especial por aqueles ou aquelas que passam por injustiças e privações. No Antigo Testamento, esta fé é “sistematizada” na figura de Moisés. Se Deus está comprometido com seu povo, o povo deve estar comprometido com seu Deus, e não pode haver falha. Amar a Deus sobre tudo, mas também amar o próximo, pois é este o grande mandamento (Lv 19,17-18). No Alcorão, até o pobre refugiado, Ismael, filho da egípcia Agar, quase esquecido na tradição judaica (Gn cap. 16, 17 e 21), é reabilitado. Torna-se o grande pai dos povos do deserto. No Alcorão, também, como entre judeus e cristãos, a hospitalidade e o amor ao pobre são essenciais à fé. Nosso Deus comum – os nomes pouco importam – sem dúvida tem este “lado”.
            Não vamos aprofundar aqui cada ponto, mas o profetismo, na terra de Israel, representa o grito permanente contra o lado opressor dos diferentes reinados que se sucedem. Toda vez que o rei, ao invés de cuidar do povo como o pastor cuida de suas ovelhas – ou quando até as rouba do pobre, como bem lembrou o profeta Natan (2Sm 12,1-6) -, ele é, em nome do Deus da justiça, severamente condenado. Isso é altamente significativo para quem confronta postura religiosa e esfera pública. Quando o reino de Israel acaba e, no pós-exílio, a elite do judaísmo, premida pela ameaça estrangeira, se agarra à Lei e ao Templo, com um claro exagero legalista em prejuízo da preocupação com o pobre, é Jesus quem coloca novamente sobre si o manto de Isaías para lembrar ao povo – e aos governantes - de qual lado Deus está. O “ano das graças de Deus” não pode ficar no esquecimento (Lc 4,16-21). Jerusalém, a cidade dos governantes, se tornou a figueira seca e Jesus chora sobre ela (Lc 19,41-42). Por mais que o Deus de Jesus seja um Deus de misericórdia, em seu Reino não há lugar para cabritos; apenas para ovelhas (Mt 25,31-46). Julgando a partir dos livros sagrados de judeus, cristãos e muçulmanos, qualquer esfera pública tem a vontade divina – que se manifesta na vontade popular - por guia ou não se justifica. Deus nunca se esquecerá dos escravos do Egito.
2.2  Não se pactua com governos cujos deuses são pagãos
Nos primeiros tempos do cristianismo, os cristãos, como também os judeus, viviam numa espécie de “guetos religiosos”. A esmagadora presença e dominância do império romano não possibilitava qualquer tipo de “pacto”. A “pax romana” até incluía certa dose de tolerância frente às religiões dos povos dominados, mas, na verdade, ela, como “religião de Estado”, se sentia imensamente superior a todas as demais. Os cristãos até aceitavam “dar a César o que é de César”, mas jamais deixariam de “dar a Deus o que é de Deus”, ainda que César quisesse impor a sua vontade. Quem apresenta um belo retrato destas duas mentalidades radicalmente opostas é o especialista na área, Eduardo Hoornaert. Permitam-me expor algumas pinceladas do quadro que ele apresenta3: “Por ser um Deus que acompanha seu povo, o Deus de Jesus dispensa altares, templos e imagens, instrumentos pelos quais os romanos davam credibilidade e presença aos seus deuses. Em Octávio X, 5, o cético romano Cecílio pergunta aos cristãos: ‘Onde está este Deus se não tem templo, nem altar, nem imagem’?... Num processo de séculos, a especificidade da cidade romana, expressa no foro, é varrida do mapa e a basílica vai ocupando o lugar central, enfraquecendo a influência dos notáveis, dos senadores, da antiga elite... Neste regime imperial, o imperador é quem concede a graça ou a desgraça. Desta forma a basílica é ao mesmo tempo templo e palácio, exprime a união entre o religioso e o político... Os cristãos não aceitam esse tipo de liturgia: a nova Jerusalém simplesmente não tem templo, nem altar, nem basílica” (Ap 21,22).
São os filósofos romanos que melhor exprimem o que o império pensa sobre a “esquisita” religião dos cristãos. O mais destacado, o filósofo Celso (aprox. 175 d.C), citado por Hoornaert nas mesmas passagens do livro, diz: “Apareceu uma raça nova, nascida ontem, sem pátria, nem tradições, voltada contra todas as instituições religiosas e civis, perseguida pela justiça, universalmente qualificada de infame, mas que se gloria da execração geral: são os cristãos... Um punhado de gente simples, grosseira, perdida moralmente, que constitui a clientela ordinária dos embusteiros... Ignorantes, fechados, incultos e simples de espírito, almas vis e ignavos, escravos, mulheres pobres e crianças... tecelões de lã... sapateiros e calceteiros, gente de extrema ignorância e destituída de qualquer educação, que dizem maravilhas a mulheres e crianças que não têm mais juízo que eles mesmos”. O que chama a atenção de Celso é especialmente a falta de fé dos cristãos e, na verdade, o seu ateísmo: “(Os cristãos) são gente grosseira e impura... A sabedoria lhes é um mal e a loucura um bem... São inimigos dos ricos..., sectários que querem fazer grupinhos à parte e se separam da sociedade comum... adversários da cultura, que não querem fazer o que todo mundo faz... A aversão dos cristãos contra templos, altares e estátuas é como a marca e o sinal da união, secreta e misteriosa, entre eles, e sua recusa em participar das cerimônias religiosas repousa sobre um conceito errôneo sobre Deus.” O império e Deus se confundem. Diz Celso aos cristãos: “Apoiem o imperador, ajudem-no na defesa do direito,... Estejam ao lado dele..., tomem parte nas funções públicas para a salvaguarda das leis e a causa da piedade... Que mal pode haver em procurar a benevolência dos que receberam seu poder de Deus e em particular dos reis e poderosos desta terra? Que mal pode haver em cultivar o espírito?” Hoornaert termina seu retrato, dizendo: “Para Celso, pessoas como Jesus são da pior espécie. A prova cabal de que o cristianismo é subversivo está no seu ateísmo. Os cristãos não aceitam os deuses do estado e são, portanto, ateus”.
Há uma forte radicalidade – quase, poderíamos dizer, um forte fundamentalismo - na postura cristã frente aos deuses pagãos. Se, ainda hoje, queremos nos perguntar qual a relação entre a fé cristã e a esfera pública, esta lição do passado não pode ficar esquecida.
2.3  A secularidade como expressão não-institucional e não-religional da fé
As lições do passado são muitas, mas interessam-nos especialmente aquelas que, ainda hoje, abrem uma janela para melhor compreensão da relação entre religião e esfera pública. Não vivemos mais no longo tempo histórico em que se aceitava com certa naturalidade o papel dirigente da religião na sociedade. Se o próprio Deus caminha à frente dos exércitos, as batalhas costumam ser sangrentas, como de fato foram e continuam sendo onde esta mentalidade ainda impera. Os jihadistas – entre os outros e entre nós - que o digam. A Modernidade não caiu do céu como que por acaso. Ela veio como resposta ao muito joio sempre presente em meio ao trigo, como Jesus bem observou (Mt 13,24-30). O Concílio Vaticano II não deixou de perceber que “as sementes do Verbo” (Ad Gentes, 11) estão escondidas por aí, no coração do povo. Entre nós, elas deram origem ao mundo cristão, como também ao mundo judeu e ao muçulmano. Mas a semente que germina depende do chão onde ela foi lançada, depende do sol e da chuva, como também do lavrador que dela cuida. Nem sempre as sementes produzem colheitas boas (Mt 13,23). É o que acontece com as religiões que são expressões humanas – às vezes por demais humanas – das sementes que o Espírito espalha, copiosamente. Como é doloroso observar, com humildade, todos os males que a incontornável institucionalização da fé produziu no decorrer dos quase 4000 anos desde que Abraão saiu “de Ur dos caldeus” (Gn 11,31), em busca de um futuro mais feliz!
A Modernidade veio como resposta à cultura árabe que adotou um espírito guerreiro, embora Alá seja um Deus de paz; ao orgulho etnocêntrico do povo judeu, embora o Deus de Israel faça chover igualmente sobre bons e maus (Mt 5,45); veio especialmente como resposta a uma Igreja cristã que se proclamou a única dona da verdade, embora Jesus tenha dito que o Espírito sopra onde quer (Jo 3,5-10). Os arautos fundadores da Modernidade se proclamaram cansados das guerras religiosas sem fim, do fechamento arrogante e persistente da Igreja frente aos avanços da ciência, e da mão pesada de eclesiásticos querendo manter o domínio sobre as consciências individuais e coletivas. Com o passar do tempo, a Modernidade foi se afastando cada vez mais da fé, da religião e das Igrejas, até se declarar totalmente independente. Proclamou-se a separação total entre Igreja e Estado, como também a laicidade como o melhor caminho para decisões na esfera pública. Chegou-se a um consenso generalizado? Entendo que não. A nossa modernidade avançada levanta novas bandeiras, e a religiosidade está novamente em pauta. A “teologia pública” está em busca de uma nova sistematização.
A palavra “secularização” exprime bem o longo processo de separação entre Igreja e Estado. São muitas as análises feitas a respeito. Na perspectiva deste artigo gostaria de ressaltar uma aproximação que, a meu ver, tem um significado especial para o atual momento. Destaco a tese mais lembrada do filósofo, jurista e cientista da religião, Carl Schmitt (†1985). Em sua Teologia Política, cap. 3, afirma: “Todos os conceitos significativos da teoria moderna de Estado são conceitos teológicos secularizados”. São ou não são? Todas as concepções têm a marca da época. Observando a grande distância entre os benefícios sociais apregoados pelas “democracias liberais” de sua época e a escassa satisfação da população, decepcionada com as intermináveis disputas entre partidos, intelectuais, parlamentares, regiões, agremiações diversas, etc., Schmitt se convenceu que havia incompatibilidade entre o liberalismo e a autêntica vontade popular. O interesse público seria mais bem servido com governos fortes libertados das amarras legais do Estado de Direito. Pronto, com Hitler em ascensão, o polêmico político alemão foi logo apelidado de “jurista de Hitler” e “coveiro do liberalismo”. Schmitt, é verdade, nunca negou sua simpatia pelo nazismo, nem se desligou do partido do nacional-socialismo alemão, mas também nunca negou que sua opção de fundo era pelo respeito à “vontade popular”. Vemos aqui uma típica opção partidária da Direita com base numa intenção típica da Esquerda.
Observador atento da vida da Igreja tenho, com frequência, notado que algo muito parecido é bastante comum nas instituições religiosas. O discurso é da Esquerda, mas o voto e as simpatias vão para a Direita. No Brasil, um exemplo elucidativo ocorreu no início da ditadura militar quando o episcopado católico, majoritariamente, - e com o melhor das intenções - se posicionou a favor do golpe. Esta comum ambivalência entre intenções ou discursos e práticas políticas não é, contudo, própria da Igreja. Ela pode ser encontrada em qualquer lugar: na academia, no judiciário, nas boas organizações da sociedade civil e, também, nas classes privilegiadas. Em certo período da minha vida tive a oportunidade de trabalhar intensivamente junto a um grupo expressivo de empresários bem sucedidos, professores/as, e militantes sociais de uma classe bastante privilegiada. Poucas vezes encontrei um grupo tão preocupado com justiça social, e tão seriamente envolvido com uma efetiva recuperação ambiental.4 No entanto, que eu saiba, todos votavam no campo do “Centro/Direita”. O mesmo vale para a classe política. Sem dúvida há uma parcela que se encontra nela por pura malandragem, ou pela simples intenção de manter privilégios, mas a maioria dos políticos, mesmo entre os “da Direita”, estão aí para defender o que entendem ser os mais altos “valores” sociais (justiça social, bem-estar coletivo, equilíbrio ecológico, desenvolvimento agrícola, etc., etc.), e o que faz mais “sentido” na busca por um futuro melhor para o país. Todos esses “valores” que fazem “sentido”, exatamente por serem “valores” são todos eles profundamente “religiosos”. Embora em outro contexto histórico, creio que é nesta perspectiva que Schmitt afirmava que “todos os conceitos significativos da teoria moderna de Estado são conceitos teológicos secularizados”. A secularidade, na sua essência, não é a exclusão da fé; é, antes, a expressão secularizada e não-institucional da própria fé. Fé, religião e espiritualidade não constituem o monopólio das Igrejas. Trata-se de uma “constante antropológica”, dizem alguns.5

III DESAFIO DA TEOLOGIA PÚBLICA: RECUPERAR A FUNÇÃO PÚBLICA DA “RELIGIOSIDADE”
            A separação entre Igreja e Estado, no Brasil, veio relativamente tarde. Apenas com a proclamação da República, em 1889, o velho regime do Padroado foi descartado e o país começou a ser governado, oficialmente, por governos laicos. Uma simples “proclamação”, porém, não muda a realidade. Mudanças em profundidade são sempre fruto de longos processos históricos. Assim como um arraigado anticlericalismo já estava presente antes da criação da República, assim também um forte predomínio católico continuou presente depois dela. O divórcio entre Igreja e Estado se consolidou aos poucos. Perdendo parte de seu poder e visibilidade, a primeira opção preferencial da Igreja (Católica) do Brasil foi pela classe média, priorizando especialmente a educação. Afinal, quem tem as crianças e os jovens, assim se pensava, tem o futuro. Apesar da República – ou, talvez melhor, por causa dela -, a “romanização” da Igreja do Brasil estava a pleno vapor. Suas três características principais, na opinião do grande estudioso, Riolando Azzi, a centralização, a clericalização e a espiritualização, moldam os novos tempos.6 Novas Congregações Religiosas vêm para o Brasil e aumenta consideravelmente o clero estrangeiro. Não apenas nas escolas, mas também nas paróquias, mediante novos movimentos religiosos, as crianças e os jovens são catequizados no melhor do figurino ultramontano. O pobre, o povão, as classes menos privilegiadas não estão inteiramente fora do foco da Igreja – alguma forma assistencialista está quase sempre presente -, mas não fazem parte da opção preferencial. Existe por toda parte uma forte religiosidade popular, mas ela é olhada com desconfiança. Genericamente falando, a Igreja “se afina” com os mais bem de vida.
            O Concílio Vaticano II (1962/65) e a Conferência de Medellin (1968) trouxeram para a América Latina, e especialmente para o Brasil, mudanças profundas. A que mais mexeu com as entranhas da Igreja foi a opção preferencial pelos pobres. Uma guinada e tanto. Uma nova visão sobre a realidade brasileira – alimentada pela “teoria de dependência” – trouxe também uma nova teologia e novas posturas pastorais. A teologia da libertação, as CEBs e as Pastorais Sociais deram à Igreja do Brasil até um certo destaque internacional. Hoje, com a vantagem do olhar retrospectivo, percebemos melhor que a profundidade e o alcance das mudanças não foram tão amplas e profundas quanto se pensava. O conhecido analista social, Pedro Assis Ribeiro de Oliveira, nos lembrou recentemente que a “força” da Igreja – especialmente junto à “esfera pública” – não depende tanto do número de seus adeptos, mas principalmente de sua capacidade de criar um “clima ético” que empurra o país na direção das mudanças desejadas.7 Por algumas décadas até parecia que a Igreja era capaz de dar um novo rosto à sociedade brasileira. Em parte, de fato era. Mas impôs-se, desta vez de forma negativa, a força da centralização romana. Um novo episcopado e um novo clero reintroduziram o modelo clássico da Igreja, mais preocupada com sua vida interna e menos voltada para mudanças na esfera pública. Sem questionar as boas intenções, falta comprovar ser esta a proposta do Evangelho.
            A tese não encontra nenhuma simpatia na área das ciências sociais, uma vez que processos sociais não são idênticos em contextos sociais diferentes, mas o Brasil tradicionalmente “católico” parece passar por um processo muito parecido ao europeu: primeiramente uma forte “protestantinização” – de cor fortemente pentecostal entre nós – e depois uma tendência forte à secularização. Em muito pouco tempo, o pentecostalismo ocupou uma quarta parte do público tradicionalmente católico. Não se prevê uma diminuição rápida do processo. Na área onde atuo, os evangélicos, no meu cálculo – sem base em pesquisa – são cinco vezes mais fortes, tanto em número de praticantes quanto em empenho missionário. Os sinais de uma crescente secularização, especialmente nas áreas urbanas, são bem visíveis. Grande parte da população que veio do interior com alguma bagagem religiosa rompe com os costumes tradicionais. Não há mais povo ilhado ou intocado frente ao estilo de vida da Modernidade. “Destradicionalização” e “perda do sentido da autoridade” são duas de suas características mais citadas. As pertenças religiosas se tornam muito efêmeras. Ninguém deixa de lado suas convicções mais profundas, seus valores mais acalentados ou sua busca pessoal para encontrar o sentido das coisas, mas nenhuma Igreja “comanda” a vida das pessoas.
A classe média (e alta), agora escolarizada e, em parte, plenamente engajada na economia capitalista moderna, adotou uma cosmovisão muito mais laica. Em alguns momentos da vida social ainda aprecia, formalmente, as cerimônias da Igreja, mas lamenta que uma parte do clero agora deu de defender, politicamente, a causa popular. Já a classe pobre continua alimentando-se de uma religiosidade popular tradicional, mas agora de uma forma muito mais fluida, aberta à influência pentecostal dentro ou fora das comunidades católicas. Muitíssimas de suas lideranças, porém, que dedicaram boa parte da vida à “caminhada das CEBs”, ou às Pastorais Sociais, se sentem injustamente abandonadas e não se conformam com a assim denominada “volta à grande disciplina”. Para estas lideranças, a Igreja mantém sua opção preferencial pelos pobres e pela causa das classes populares, ou ela é infiel a Jesus Cristo e ao Evangelho. Muitos/as já não se sentem à vontade no atual contexto eclesial e, perdendo sua mística tradicional, se secularizam, por assim dizer, “a contragosto”. Contudo, também nas camadas populares comuns, a tendência secularizante é claramente visível. Nossa pergunta, novamente, é essa: nesse atual contexto sócio-político e religioso, qual a cara de uma teologia pública ajustada à realidade do momento?
3.1 Governos radicalmente laicos impossibilitam a autêntica democracia
            As democracias atuais, no mundo inteiro, perderam sua credibilidade. Não as democracias em si, mas o que foi feito delas. Não apenas os melhores analistas, mas o próprio povo percebe hoje que não passam de “fachadas”. Multidões cada vez maiores vão para as ruas empenhando faixas dizendo “vocês não nos representam”. Ou então a faixa “nós somos os 99%”. A insatisfação é generalizada. No Brasil, a revolta popular de junho de 2013 pela primeira vez demonstrou a força das redes sociais pondo na rua uma imensa “multidão não organizada”. O que aconteceu com as tão sonhadas liberdades democráticas? A influência das Igrejas foi afastada; a influência das elites econômicas entrou em seu lugar. Uma nova proposta salvadora veio substituir a antiga. Nenhum símbolo religioso falta à religião neoliberal, como muitos já mencionaram: a misteriosa presença de um Deus chamado mercado; bancos e supermercados - reclamando por uma frequência regular e fiel - substituem os antigos templos; empresários, como novos e bem formados sacerdotes, distribuem agora os valiosos e indispensáveis bens materiais; e há até a presença de uma central internacional com seus dicastérios, uma espécie de Vaticano leigo que julga qual o país que está no rumo certo e qual a doutrina econômica, única e certa, que não pode ser confrontada. O esforço, deve-se reconhecer, foi imenso, mas não funcionou. As belas fachadas escondem prédios em ruína. A máscara caiu.
            Se esta é a realidade internacional, o que dizer do Brasil? Porque ruiu como castelo de cartas uma proposta governamental que teve considerável apoio das Igrejas e do povo cristão? Porque a hegemonia petista falhou apesar dos reconhecidos avanços sociais? Não gostaria de simplificar demasiadamente as coisas, mas entendo que uma das principais razões foi a “laicidade” adotada como princípio de governo. A afirmação requer esclarecimento. Entendo que qualquer governo, hoje, deve ser laico, no sentido de não se deixar teleguiar por esta ou aquela Igreja, esta ou aquela religião. Fazendo isso deixaria de ser democrático, uma vez que hoje as opções religiosas são diversas. Mas existem convicções, valores e sentidos básicos que são comuns a todas as religiões. Eles podem ser encontrados, igualmente, nas pessoas que se declaram não-religiosas. Estes valores comuns se referem a conceitos e práticas que envolvem, entre outros: distribuição justa da riqueza, comportamento ético, preservação ecológica, oportunidades iguais para todos/as, atenção aos mais pobres, respeito aos direitos humanos, liberdade de consciência, etc. O esforço democrático existe exatamente na defesa destes interesses comuns contra as investidas de minorias privilegiadas. Qualquer governo que abandona ou deixa de lado estes interesses populares comuns – que, em sentido amplo, são sempre valores “religiosos” – encontrará, mais cedo ou mais tarde, forte rejeição. Ao abandonar sua tradicional proximidade com as reivindicações populares e priorizar fortemente um objetivo meramente partidário, faltando inclusive com a ética pública, o PT e sua coligação foram rejeitados pelo povo. Sua “laicidade” radical precipitou sua queda.
3.2 Apenas governos com “lado religioso” se justificam
O título deste tópico é propositadamente provocativo. Apresso-me a repetir que o “religioso” aqui deve ser entendido em seu sentido amplo, não-institucional  e até não-religional. Numa reflexão sobre teologia pública isso faz muito sentido. “Deus tem lado político” foi dito acima. Isso quer dizer: Deus estará sempre do lado de quem sofre qualquer forma de injustiça ou marginalização. Nos últimos tempos, tanto a teologia quanto a reflexão bíblica tem insistido na presença “imanente” de Deus, uma presença “interior” – não no sentido panteísta - às próprias “realidades terrestres”. Também o conceito de “Reino de Deus” tem sido melhor explicitado nesta perspectiva. Jesus, sem dúvida, não perdia de vista a expectativa escatológica, mas também não há dúvida que, antes de se concretizar no céu, o Reino deve ser concretizado na terra. Por isso, cada vez que uma política pública favorece a “vida plena para todos/as” (Jo 10,10), ela constrói o Reino e é, portanto, “religiosa”, ainda que não use o termo.  Neste sentido, “todos os conceitos da teoria moderna de Estado são conceitos teológicos secularizados”, diria C. Schmitt.
Durante um longo período o PT recebeu apoio de amplos setores das Igrejas. Hoje este apoio é bem mais discutível porque, com o passar do tempo, como vimos, o PT se afastou de sua raiz “religiosa”. Sem uma autocrítica muito forte será difícil recuperar o prestígio perdido. Por princípio, a Igreja não tem compromisso com partido algum. Sua missão é única e exclusivamente “religiosa”, sempre no sentido amplo acima referido. A Igreja não tem partido, mas tem “lado”. Creio ser este o ponto essencial da relação entre Igreja – também sob ponto de vista institucional – e a esfera pública. Por terem sido incondicionalmente fiéis a este “lado” político, quer dizer, ao lado dos escravos explorados e não ao lado dos faraós, os profetas de Israel, inclusive Jesus, foram todos rejeitados. Os primeiros cristãos, obstinadamente, se opuseram aos deuses pagãos – entre os quais Cézar – do império romano. Não pactuaram com o império, e assim o venceram. Apenas acolheram as benesses do império quando o imperador Constantino († 337) se colocou do lado deles – atribuindo a si o título de “bispo de fora” - e mais ainda depois quando Teodósio I, em 380, “oficializou” a fé dos cristãos.  Aí, pela primeira vez, a Igreja enfrentou o desafio de estar “do lado do poder”. E, com a melhor das intenções, equivocou-se quando, cada vez mais, atribuiu a si também o poder político.

Conclusão
É esta a eterna tentação dos mais bem intencionados, dos mais dedicados e dos mais aptos, isto é, das lideranças: assumir o poder em nome de todos e todas. Nesta perspectiva C. Schmitt até abençoou o nazismo, mas, a história comprova, desta forma não dá certo. Deus faz chover sobre bons e maus (Mt 5,45). Seu Espírito foi derramado sobre “toda a carne” (At 2,16-17). Buscar o bem comum faz parte da “lei natural” do ser humano, dizia São Tomás de Aquino (†1274). O papa Bento XVI falava de uma “gramática” inscrita no coração das pessoas. Trata-se de uma “constante antropológica”, afirmam outros. A própria “consciência” humana, biologicamente, aflorou como o mais aperfeiçoado mecanismo em defesa da felicidade, individual e coletiva. Ninguém, impunemente, passa por cima da “vontade popular”. Não existe apenas o trigo, é verdade, há também o joio, e sempre haverá. A tentação dos mais bem intencionados é querer arrancá-lo logo (Mt 13,28), ou mandar o fogo do céu sobre os maus, mas Jesus advertiu: “não façam isso” (Lc 9,54-55). Os maus precisam de tempo para que, interiormente e por vontade própria, se convertam. Deus pede paciência histórica. Cada vez que um grupo de “iluminados” toma o poder e passa por cima da vontade popular, um fracasso se aproxima. Não funcionou o “totalitarismo” eclesiástico, até hoje presente no Vaticano e no jihadismo religioso, nem o totalitarismo “da Esquerda” (seja russo, chinês ou cubano) e nem funcionará o totalitarismo neoliberal “da Direita”. É preciso dar vez ao Espírito, presente (apenas) no coração de todos/as que buscam o bem comum. Os/as bem intencionados/as, neste sentido, se encontram, politicamente, até “na Direita”, e não são poucos/as, embora tendam a agrupar-se mais “no Centro”. No momento histórico atual, a opção mais promissora – e talvez mais duradoura - para o PT e a Esquerda brasileira em geral seria tentar uma coligação unindo forças da Esquerda com forças do Centro. Tendo a simpatizar com essa ideia. Há poucos dias participei – a convite – do lançamento do “Comitê Diadema” da “Frente Brasil Popular”. Ecoam ali os gritos fortes de “fora Temer” e “golpe nunca mais”, mas também estão presentes os que não querem percorrer, mais uma vez, o mesmo caminho. A (sempre religiosa) ética popular deve estar acima dos interesses eleitorais. O que vai acontecer, somente o futuro dirá. Para os/as “da Igreja” apenas um caminho está aberto: governos sem “lado religioso” não se justificam.

1) Cf.: Vida Pastoral, jan./fev. de 2012, p. 10-23.
2) Cf.: Vida Pastoral, maio/junho de 2011, p. 8-23.
3) Eduardo Hoornaert, Os cristãos da terceira geração (100-130), Ed. Vozes, p. 114ss.
4) Cf. Vida Pastoral, nov./dez. de 2011, p. 21-35.
5) Erik Borgman, Metamorfosen – Over Religie en Moderne Cultuur , Uitg. Klement/Pelckmans, 2004, p. 65; e Edgar Morin/Anne Brigitte Kern, Terra-Pátria, Ed. Sulina, Porto Alegre, 1995, p. 60-62.
6) Riolando Azzi, REB, nº 262/2006.
7) Pedro Assis Ribeiro de Oliveira, REB, nº 266/2007

Nicolau João Bakker, svd*
R. Juruá, 798
Jardim Paineiras
09932-220 Diadema, SP/BRASIL
Para consulta aos artigos do autor, acessar: <artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br>

*Missionário do Verbo Divino, svd, sacerdote, formado em filosofia, teologia e ciências sociais. Atuou sempre na pastoral prática, rural e urbana. Em São Paulo, atuou também como educador no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular, de Campo Limpo (CDHEP/CL), coordenando o programa de formação de lideranças eclesiais e o de combate à violência urbana. Lecionou Teologia Pastoral no ITESP (Instituto de Teologia/SP). De 2000 a 2008 foi auxiliar na pastoral e vereador, pelo PT, no município de Holambra, SP. Representou a CRB no Conselho Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita/SP). Atualmente atua na pastoral paroquial de Diadema, SP. Nos últimos anos publica regularmente artigos pastorais em: REB, Vida Pastoral, Verbum, Convergência e Grande Sinal.